Queridos alunos da classe 8

“Queridos alunos da classe 8,

Primeiro de tudo eu gostaria de me desculpar por ter saído com tanta pressa ontem. Não foi porque eu abandonei vocês, foi apenas um drama adulto, coisa boba, ok? Porém eu tenho que dizer que não estarei presente na última semana de aulas. Essa não é uma decisão minha e certamente não é fácil não estar com vocês todos os dias daqui pra frente. Todos os dias que pude conviver com cada um de vocês aqui foram ótimos. Ontem andei do colégio até em casa, chorando por todo o percurso de Waitaka até Kikuyu¹ por não ter tido a chance de continuar fazendo o que gostaria, que é estar com vocês.

 Eu amo cada um de vocês de uma forma super especial e prometo aparecer aqui no último dia de provas para me despedir de todos devidamente e para comemorar as boas notas de todos. Tenho certeza que todos vão se dar muito bem nas provas, já que esses serão importantíssimos para seu futuro e eu sei que vocês estão prontos. Eu os amo mais do que vocês possam entender. Nakupenda sana², Sua Hanna Banana.”, com água nos olhos, o professor de educação física fechou o bilhete e o pôs no bolso. Todos estavam calados, tristes com a notícia, inclusive ele.

¹ – Aproximadamente 8km.

² – Amo vocês em Kiswahili

O professor começou a aula, pediu para que corrêssemos até o centro e avisou que se batêssemos o tempo da Amida, poderíamos escolher o tema das aulas pros próximos dias do mês. Eu odiava ter que correr, ainda mais tentar bater o tempo da Amida. Ela é Kalenjin³. Ninguém tinha nenhuma chance de bater o tempo dela, nem os meninos. A maioria da classe 8 era composta por Kikuyu e Luo. Correr não estava no nosso sangue, mas correr era poder ficar longe de escola, pouco me importava que fossem 3 quilômetros de corrida. Só de saber que poderia ficar por alguns minutos na rua, livre, longe daquelas pessoas, já era o suficiente pra me renovar um pouco.

³ – Tribo Queniana famosa por compor grande parte dos melhores corredores de longa distância do mundo.

As provas estavam chegando, e eu já sabia como iria acontecer. Não conseguiria comer direito, uma semana antes já começavam os simulados e, junto com eles, as porradas. Cada erro, uma varada na cara. Lembro que no começo do ano batiam apenas na lateral dos nossos joelhos ou na palma das nossas mãos, mas quando foi chegando perto das provas finais, eles já não se importam mais com nossa dor. Na cara, sem dó… Rindo enquanto batiam, chamam outros professores para assistir. E ai de você se chorasse. A pena dobrava e a intensidade também. Me sentia fraca, não comia nada, apanhava, cometia erros bobos nos simulados, apanhava mais. Quando chegava a hora da prova, já não tinha mais energias. No último exame antes dos finais tinha tirado 215. E sabia que nenhuma escola aceitaria qualquer aluno com menos de 300, tenho certeza. Nem meu pai, nem minha mãe conseguiram chegar ao ensino médio. Sentia que deveria ser algo genético.

Mesmo não sendo órfã, minha mãe me mandou para esse orfanato e nunca mais ouvi falar dela. Eram 62 órfãos e eu morando no colégio num total de 332 alunos na escola. A classe 8 era sempre a menor. Muita gente ficava pelo caminho. Uns repetiam de ano, outros simplesmente sumiam. Ainda tinham aqueles que eram expulsos por algum motivo banal. Michele tinha faltado numa segunda-feira para levar sua mãe no médico. Os professores acharam um absurdo ela ter faltado num dia próximo ao exame nacional e a proibiram de aparecer na escola nas provas. Não tinha certeza se ela tinha sido expulsa, porque era impossível para nós, órfãos, nos comunicarmos com alguém que estivesse fora da escola. Não tínhamos telefone, nunca podíamos sair. Michele, infelizmente nunca mais apareceu e todos estavam proibidos de falar sobre ela. Nem mesmo podíamos falar seu nome, já que era a única com esse nome em toda a escola.

Todos os dias da semana as aulas iam até as 16h. Depois disso retornávamos para o alojamento. Uma refeição por dia. O almoço, que ajudava a preparar, me obrigava a sair 20 minutos antes da aula para ajudar a cozinhar e a distribuir a comida para os alunos menores. Sempre comíamos arroz, grão de bico com feijão ou mungu. Os professores comiam ugali4 com repolho. Diziam que a comida que comíamos era nojenta, então tínhamos que preparar ugali para eles. O bom é que sempre comia as sobras. Ugali ainda é minha comida favorita e também era a única coisa que me fazia ficar o dia inteira satisfeita.

4 – Prato típico queniano. Mistura de farinha de milho branco com água. come-se normalmente com a mão e tem uma consistência um pouco mais firme que um purê.

Sentia falta de Hanna. Era a única que ficava todo o tempo de aula dentro de sala. Os outros passavam exercícios e iam para a sala dos professores jogar Fifa rindo, fazendo escândalos enquanto fazíamos os exercícios. Sempre copiávamos as respostas do Boas. Nas turmas anteriores algumas pessoas contavam para os professores sobre as pessoas que copiavam as respostas. No final sempre alguém acabava apanhando. Então pela nossa sobrevivência, decidimos fazer isso. Copiávamos para não apanhar. Mas quando chegavam os simulados, não tinha como. Os professores ficavam nos observando durante os testes. Era impossível copiar de alguém. Hanna sabia que se nos déssemos mal nesses testes, apanharíamos, então ela tentou um dia no ajudar. Uma das professoras entrou na sala e pegou ela pesquisando uma das respostas na internet. Foi seu último dia. E foi nossa culpa. Pelo menos, por todos esses anos, me achei culpada pelo o que tinha acontecido. Mas a gente estava tentando se proteger. Depois desse dia, as porradas ficaram mais fortes, os professores que moravam no alojamento, os ‘dois demônios’ (como chamávamos), começaram a ficar mais violentos. Bebiam quase todos os dias, mas a gente não os via beber. Mas o cheiro… Sinto até hoje. Ao acordar, víamos as garrafas quebradas no lixão, do lado do campo de futebol. Ligando os pontos, percebíamos que quanto mais garrafas estivessem no lixão, maior seria a violência das porradas no dia seguinte. O cheiro do álcool precedia os murros na cara. Já não eram mais varadas. A evolução para murros na cara, no couro cabeludo, eram cada vez mais frequentes. Os órfãos sempre tomavam na cara. Os outros, na cabeça, já que não deixavam marcas como as nossas. Os que mais apanhavam tentaram raspar suas cabeças para tentar evitar as porradas, mas depois de algumas semanas os professores não se importavam mais. O roxo ao redor dos olhos era comum na maioria de nós. A escola era gratuita, mas não era gerida pelo governo. Tínhamos um doador. Um milionário indiano, que aparecia na escola uma vez por ano. Fazíamos apresentações de música, teatro e dança, mas ele não mal olhava. Estava lá só pelas fotos, com as crianças e com os livros doados. Ele nunca falou com nenhum aluno, mas sempre no final da festa dava um discurso na nossa língua. Os pais, estavam satisfeitos porque os indianos traziam quilos e quilos de comida para alimentar todos os alunos e pais. Diziam sobre o trabalho de Deus que faziam. A educação gratuita de qualidade para todos. Era tão constrangedor pois todos sabiam que a diretora, mãe dos dois demônios, ganhava dinheiro cobrando pelas provas e pelos uniformes, que teoricamente eram gratuitos.  Mas ninguém falava nada, com medo de perder a vaga dos seus filhos no colégio. Se fizéssemos tudo certo, era um dia bom, pois era o único dia do ano que ninguém apanhava.

Tínhamos cinco professores: Hanna, Felix, Godrick (os ‘dois demônios’), Alice, professora de religião, que adorava nos bater também. Sempre me perguntava e procurava na bíblia se na violência existia o pecado, ou se era apenas uma forma correção dos nossos atos. A última professora era a mais violenta de todas. Tereza, era irmã dos dois demônios, e claro, também filha da diretora. Batia com vontade, prazer e felicidade. Tinha 17 anos na época e descontava sua frustação de ser uma professora ruim em nossos joelhos e cotovelos com uma vara que não largava por nada, como uma arma, andava pelos corredores girando seu cassetete como um guarda de prisão esperando que alguém fizesse algo fora do padrão.

Godrick se achava um Deus, filho mais velho, dava as ordens na escola, já que sua mãe ficava o dia inteiro fora, ditava as regras e as penitências, considerávamos o pior demônio pois batia de mão fechada, enquanto seu irmão mais novo batia de mão aberta. Mas se fosse pensar por esse aspecto, sua irmã, Tereza, já teria sido promovida ao cargo de demônio também, mas como dava apenas suporte as aulas, as suas porradas, mesmo que mais dolorosas, não eram tão frequentes como o dos dois.

Dois anos antes disso, na classe 6, conheci Hanna, ela tinha vindo dos Estados Unidos para dar aula aqui por alguns anos sem cobrar nada. Dizia que o dinheiro de 3 meses de salário era suficiente para ficar aqui no Quênia por 3 anos. Por isso que ninguém nunca sai desse pais. Tudo é tão caro lá fora. E a maioria dos Quenianos nunca terá dinheiro nem para pagar uma passagem de avião, seja lá pra onde for, seja lá por quanto tempo tentem guardar dinheiro. Começou dando aulas de Life Skills, nos ajudava muito, pois era a única que conversava com a gente e perguntava sobre nossa vida. Nessa época eu tinha acabado de chegar na escola. Fazia um ano que não estava falando. Depois de uma péssima experiência familiar, minha mãe achou que seria melhor me mandar para um orfanato do que lidar com os problemas. Então, aos 11 anos, fui jogada aqui, contra minha vontade, machucada e deprimida. Depois de 6 meses de aula com ela, consegui falar, me expressei, mas me sentia uma criança depois de tanto tempo sem falar nada. Demorou alguns meses, mas consegui contar minha história para ela, de como fui ‘expulsa’ de casa. O irmão da minha mãe um dia chegou bêbado, na época ele tinha acabado de se mudar pra nossa casa, dormia no meu quarto, e foi uma longa e desagradável, daquelas que gostaria de apagar, que trocaria facilmente por um dia inteiro de murros e varadas na cara. Ele tampava minha boca para que eu não fizesse nenhum barulho, mas por acaso minha mãe entrou no quarto para pegar algo, gritou com ele, ele se levantou da minha cama e bateu nela varias vezes. Tapas na cara, a empurrou no chão e foi embora. Não voltou nos próximos dias, mas talvez, por medo, minha mãe tenha me mandando pra cá. Ou talvez tenha desistido de mim. Ela nunca disse nada. Apenas me botou no trem com uma mochila com meus documentos e algumas peças de roupa. Naquele momento eu só queria que minha vida acabasse, mas não tinha forças para fazer nada. Apenas sentei naquele trem esperando que meu destino fosse melhor do que tudo aquilo que estava vivendo, mas por dentro sem nenhuma expectativa de que isso fosse realmente acontecer.

– Amor.

– Oi!

– Já fez o check-in?

– Sim. Toma sua passagem. Trouxe tudo?

– Sim, tudo. Avisou Hanna que estamos indo?

– Avisei, ela vai estar esperando a gente no aeroporto quando chegarmos.

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