O LOBO

O lobo era o mais velho do seu bando

Pensava que poderia viver sozinho na mata

Sem mais ninguém

E se isolou

 

Passou a contar os dias na regressiva.

Sempre do 100 até o 0

Se permanecesse vivo, começava de novo do 100

 

Sua vida era opaca, vivia de suas compulsões

Comia quando não tinha mais nada para fazer

 

Estava sempre

ou dormindo

ou comendo

 

Até um dia que ouviu a voz de um anjo à cantar

Enfeitiçado por aquele canto, que ressoava na floresta,

Passou a esquecer em alguns dias
De contar os dias ao contrário,

mas ele insistia

e recomeçava. Sempre do 100

 

Ao passar dos dias, contando ao contrário,

Percebeu que estava pensando demais nos dias que não ouvia o anjo cantar

Certa manhã, Invés de contar os dias que lhe faltavam até o fim do próximo ciclo, começou a contar para frente, sem saber direito onde podia chegar

Chegou ao 5º

Ao 13º

Depois ao 30º, 31º

E tornava ao primeiro dia

Toda vez que o ouvia cantar

 

Rezava para que os dias não se acumulassem tanto

Até o próximo canto

Depois de dias sem ouvi-lo, foi à mata

E do bambu fez uma flauta

Mas ela era ruim demais para imitar o som que o anjo emitia

 

Começou a sonhar

com a melodia do Anjo que lhe visitava

De tempos em tempos

 

Sonhou,

Um dia,

Que tinha conseguido captura-lo com uma armadilha

 

Então, no dia seguinte, começou a pensar numa forma de prendê-lo ao seu lado
para sempre

E poder ouvi-lo sempre que tivesse vontade

E também não ter que contar nem um dia a mais de sua vida.

 

Fez iscas com comida

Mas nada acontecia

O anjo parecia não se importar com toda aquela comida

 

O lobo não entendeu
O que poderia estar errado

 

Então construiu uma cama de madeira e folhas

Mas anjo não parecia ter sono nunca

Fez iscas com cristais e sementes

Também, de nada adiantou

 

Até o dia que resolveu cantar

O anjo, encabulado,
Aproximou-se lentamente por entre as arvores.

O lobo continou a cantar, fingindo que não o via

Nervoso, se desconcentrou

E uma nota desafinada o assustou

O anjo correu para dentro da mata, sumindo em um suspiro

 

O lobo percebeu que precisava treinar para atrai-lo

Mas achava que sua voz rouca o limitava

 

Resgatou a flauta que fizera do bambu

Dos tempos que ainda não sabia se seus dias cresciam ou se acabavam.

 

Fez novos furos com seus dentes

Um furo pra cada dedo

 

Soprava todos os dias

Mas continuava agressivo demais para o anjo

O timbre que da flauta emanava

 

Treinou

E treinou

Por vários dias

E agora, passava a contava os dias de treino, progressivamente

 

No 34° dia alcançou um som tão bonito que o anjo se aproximou

Tão perto como nunca tinha feito antes

 

Mas mesmo com todos aqueles buracos, o lobo insistia em tocar apenas uma nota:

A nota que tinha aprendido

A tocar de forma bonita.

Chamou a nota de ““, e tentava ensina-la

Aos pássaros que faziam seus ninhos nas arvores da colina

 

Aos 40

Tocou um tá tão intenso, que seu corpo todo vibrou

O anjo ouviu

e se aproximou

 

Junto, cantou um “tá” tão lindo

E harmonizou com dá’s e rá’s também

Mas sempre, depois de um tempo,

Ele desaparecia.

 

Com o tempo, o lobo aprendeu a tocar todas as notas bonitas que seus dedos podiam alcançar

Deu nome a cada uma delas

E ensinou para os pássaros, em troca de comida

 

Num dia de céu limpo, pediu para que todos os pássaros da colina o ajudassem.

Com comida, os pagou.

À sua direita, os pássaros maiores criavam uma base

À sua esquerda, o menores

Guiavam sua melodia

 

Enquanto os pássaros cantavam

Os Pá’s, os tá’s e rô’s

O lobo começou a improvisar

 

No dia anterior,

Com pedaços de bambu, montou uma armadilha

E a cobriu de folhas para que o anjo não percebesse

 

O anjo, deslumbrado pelas notas bonitas, lentamente se aproximou.

Quando pisou naquele monte de folhas

O chão se desfez.

E o anjo foi capturado

 

Esperou por horas o anjo cantar do fundo do buraco

Mas só conseguia seu silêncio

 

Jogou comida

Flores

E nada.

Impaciente,

Começou a atirar

Pedras

 

O anjo cantou

Mas o som que saia de sua boca

Não era o som dos outros dias

 

Seu canto era de dor.

 

Irritado

O lobo jogou sua flauta no buraco

 

Contra seu próprio joelho, a flauta, o anjo quebrou

 

Frustrado, o lobo se foi.

 

No dia seguinte tentou

Todo o ritual novamente:

Comida

Flores

Pedras

 

Mas o anjo não cantava como antes

 

Todas as noites, com pena, os pássaros se juntavam

E traziam galhos e cipós para o anjo

Para que ele construísse sua fuga para fora dali

 

E toda manhã, quando o lobo se aproximava

Cantavam, avisando o anjo,
que escondia a escada que aos poucos estava construindo.

 

O lobo mantinha seu ritual

E agora

Contava novamente os dias

Que estava sem ouvir as notas bonitas

 

No centésimo primeiro dia

Subiu a colina

E nenhum pássaro cantou

 

O lobo estranhou e correu para o buraco

Olhou

E viu que o anjo não mais existia

 

Uivou notas sinistras

Afugentou os pássaros, os lagartos e preguiças

 

Solitário, começou novamente a contar os dias na regressiva

E pensava como faria para captura-lo de novo algum dia

 

No terceiro ciclo dos seus dias regressivos

No 21º dia

O lobo morreu

 

E o anjo

Voltou à colina

Com os pássaros, os lagartos e as preguiças

 

Cantaram os Pá’s,

Os tá’s que o lobo havia batizado

E fizeram deste

O primeiro dia de liberdade das suas vidas.

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