Tarde demais

Faltava pouco para eles assumirem o poder. Era questão de meses. Pareciam ansiosos por sempre deixarem escapar alguma ideia de totalitarismo em algumas entrevistas. Há poucos meses da Eleição um de seus filhos disse que bastaria um pouco de força para fechar o Supremo Tribunal Federal;

Depois de consolidar sua rede de divulgação de notícias e de combinar a migração progressiva dos sites de notícias para o modo pago, sua primeira medida seria a distribuição de aparelhos celulares e ampliação de redes publicas de internet WI-FI; Ali nascia o treinamento dos recrutas X-9. O segundo passo, logo depois da massificação dos smartphones e da notícia ser praticamente toda paga, foi criar um app que facilitasse denuncias contra nós, opositores. Os crimes… Diversos: Tráfico de drogas, logicamente implantadas, Baderna, Desacato, Estelionato, Roubo de Cargas e até mesmo por Perturbação do Sossego pessoas foram presas, inclusive eu mesmo.

Não tinha espaço para todos nós. Enquanto criavam novos Sítios de Detenção, tiveram que nos soltar. Com as fronteiras fechadas para nós, enchíamos o banco de dados com nossos nomes e tivemos nossos Passaportes e Títulos Eleitorais bloqueados.

Um pouco antes da primeira prisão, ouvia muito deles: “Difícil conviver com alguém assim” O ‘alguém assim’ era eu (também).

O que há 5 anos eu considerava capacidade de tolerância, agora, virou passividade.  A tolerância que eu romantizava e esperava, me apegando as palavras de Pepe Mujica, num discurso que me inspirava:

“Carrego o dever de lutar por tolerância. Precisamos da tolerância com aqueles que são distintos, com aqueles que temos diferenças e discrepamos. Não se precisa de tolerância com aqueles que concordamos. A tolerância é o fundamento de poder conviver em paz e entendendo que no mundo somos diferentes.”

Sustentei bastante tempo sobre as histórias que contavam, de violência, ódio, como objetificavam mulheres, as traições que cometiam e, em alguns casos até sexo com menores de idade. E eles diziam que não conseguiriam conviver com pessoas como eu nos dias de hoje. Eu tentava, na época, apesar de achar absurdo tudo aquilo, ver a melhor parte de cada um, socializar. Eram companheiros de turma, de trabalho.

Quanto mais eu conseguia atingir um grau de espectador, mais achava que estava evoluindo espiritualmente, criando uma tolerância forte, ‘zen’, sem discordar de nada, sem debater, sem dar minha opinião. Não percebi que o que alimentava, na verdade, era a minha passividade. Passividade por ouvir discursos preconceituosos com os próprios empregados ou colegas de trabalho nordestinos, passividade de ver mulheres trabalhando igual a mim e a outros homens e sendo tratada de forma tão diferente, totalmente subjugadas. Passividade por nunca dizer o quão estranho era ver apenas 4, 5 negros num ambiente de 300 pessoas, num país como o nosso. Passividade de (mesmo não alimentando aquilo tudo) não dar limites àquelas falas e situações.

Em alguns casos, o esforço estava completamente desregulado da recompensa. Em todos os ambientes achei que me esforçaria e subiria nos cargos e responsabilidades. Foi o que aconteceu em grande parte dos lugares que passei, mas foi difícil perceber que ter bolas teriam me posto em certos patamares em alguns casos. A gente sabe quando alguém é melhor que a gente. E quando você é o escolhido para uma função superior invés dela, começa a criar racionalizações para o motivo que o pôs ali. A realidade não bate na primeira vez que isso acontece. A primeira vez que eu vi isso acontecer, sem me perder nas artimanhas daquela atitude. Porque não é velado, digo, hoje pra mim, é, mas na época não. – Voltando – a primeira vez que vi aquilo tudo acontecer, mas ver de verdade, todas as intenções e as formas de rebaixamento eu já tinha 28 anos. VINTE E OITO. E eu tava perdido dentro da minha própria cabeça, criando metas e objetivos solos, não digo objetivos egoístas pois eu chamo de solo, mas mesmo em ações que envolveriam mais pessoas, seria um objetivo que não atingiria muita gente, que não vai mudar muitas vidas pra melhor. Talvez “solo” não seja um bom nome mesmo. Solo não. É preciso união.

– E você tem certeza que aguenta fazer parte do movimento?

– Sim.

– Fico feliz que tenha enxergado tudo isso da forma que o fez, uma pena que tarde demais, assim como todos nós.

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