Halls Uva Verde

Mais um dia chegando em casa cansado dos gritos do meu chefe na minha orelha. a galera da república estava jogando um RPG de livro e me chamaram pra jogar. Achei complexo demais pra minha situação pós trabalho. Peguei o bong e o preparei do nosso jeito especial. Coloquei a água e junto 3 halls de uva verde. No tubo, encaixei uns cubos de gelo, de uma fôrma que compramos exatamente do tamanho do pipe. E ali fiquei por algumas horas. Dei umas 7 bongadas, mas não quis ir alem. Não era dia de bater recordes. Dormi no sofá e por lá fiquei.

Pela manhã, um feixe forte de luz invadiu minha visão. Tava bem embasada e tentei voltar a dormir. Quando resolvi levantar, vi que não tinha ninguém em casa. Peguei o celular pra ver a hora, mas estava descarregado. Fui até a cozinha pra ver se alguém tinha feito café, mas não. Inclusive, a cozinha estava muito estranha. Muito mais suja que o habitual. Achei muito estranho pois aqui em casa temos 2 pessoas com um TOC muito forte com limpeza. Abri o armário pra pegar café e ele estava totalmente vazio. Fui procurando nos outros e a mesma coisa, vazio. Tudo vazio, na sala, voltei e dei uma olhada melhor, não tinha percebido que não havia mais TV ou os móveis. Apenas o sofá em que eu tinha adormecido. os quartos estavam sem camas e armários. botei meu celular pra carregar. Tinha eletricidade ainda. Depois de uns 3 minutos consegui ligá-lo. 14h54. Não tinha nenhuma mensagem. Entrei no whatsapp pra ver se alguém tinha postado algo no grupo da casa, mas não achei o grupo. bloqueei o celular. Ele indicava: “08 de agosto de 2018. 26ºC”.

Saí de casa. O porteiro não estava na portaria. apertei eu mesmo o botão para abrir o portão e saí. algumas lojas anunciavam vagas. na verdade eram muitas lojas, mas era esquisito. diziam: “Vaga para organização nível 12”, “Temos 3 vagas para construtor Pleno e 5 para nível 5 em diante”. Achei uma nota de 20 reais no bolso e parei numa padaria. Alguém conhecido. O Betinho, que sempre me atendia na padaria. “Betinho, como funciona esse lance de nível?”, perguntei. a princípio ele achou que eu estava brincando, ou que estava drogado, mas percebeu que não e me explicou, enquanto atendia os clientes e fazia lanches.

A Cidade comprava e vendia experiência. E a partir das experiências que você adquirisse, acumulava pontos em uma área. “Como no RPG?”, perguntei. “Sim! Exatamente!”, Através de ensinamentos práticos dentro de uma área, ou em instituições próprias de ensino, a pessoa melhorava seus conhecimentos e, não necessariamente tinha diferenças de aceitação. por exemplo. se uma instituição de ensino me ensina a subir uma parede, ou meu pai, ou meu tio, ou qualquer pessoa me ensine e, eu domine essa função, nesta, eu subo de nível. “E se alguém mentir”, perguntei a ele. Ele respondeu que caso provado que você nao possa executar uma função da qual diz ter domínio, além de perder os pontos dessa área, também ganharia pontos de mentira. E seu perfil é público. Qualquer um pode acessá-lo. Mas não é uma condenação eterna. Era possível reverter qualquer perfil, seja positivamente ou não.

No começo, cada um entrou com suas habilidades, certificadas e passaram também por alguns testes de habilidades específicas. Essas foram convertidas em pontos de acordo com áreas. Com isso, cada área, ou função, seria uma pequena torre acumulada de conhecimentos. Que poderiam liberar o acesso a outras oportunidades. Exemplo. Ao completar “conhecer ferramenta chave de fenda”, abrirá a possibilidade de aprender “aparafusar”. Claro que esse é apenas um exemplo banal, pelo que me disse, o Betinho, isso seria apenas um exemplo que se dava didaticamente, numa escala reduzida de aprendizado, mas era para fazer entender com isso que tudo que se aprende na vida será computado e te fará capaz de realizar coisas novas de acordo com suas descobertas.

A graduação em Engenharia, Medicina, Direito, Agronomia, etc. Não existia mais, pois a partir do momento que você dominasse uma função, simples que fosse, já estaria automaticamente graduado para realizar aquela função. Era bem comum nos hospitais, ver pessoas tratando pequenos ferimentos, já que aprenderam aquela função. Alguns não queriam ser médicos, ou trabalhar em hospitais, mas ali seria um local de trabalho de acordo com suas funções e, por estar ali, com pessoas de perfis variados, seja no atendimento ou colegas de trabalho, trocariam experiências, melhorando suas características. Ali estavam jovens que gostariam de ser médicos, outros, querendo completar o conhecimento da enfermagem, outros gostariam apenas de saber o básico sobre o máximo de áreas possíveis para que pudesse andar pelo mundo, em qualquer canto, ou em qualquer condição.

Todos os cursos aceitam o treinamento e aprendizado de uma função. Mesmo que tivesse sido uma pessoa de um perfil diferente. Se minha mãe tivesse feito o treinamento em suturas, ela poderia me passar e, inclusive, eu poderia usá-la como conhecimento mínimo para trabalhar nessa área do hospital, de pequenos ferimentos.

As experiências de vida são registradas e assim monta-se uma base de dados, usando os seus desejos e capacidades. Com isso é possível moldar um perfil e direcionar as pessoas para vagas específicas de emprego, de acordo com o que se precisa e o que cada um deseja fazer naquele momento específico, mas nada impede da pessoa mudá-lo posteriormente.

“Eu aprendi a andar de patins”, “li 2 livros esse ano, o terceiro eu parei no meio”, “fiz minha primeira sutura em um ser vivo”, “eu matei meus pais”, “me caguei”. Tudo isso seria computado para uma função específica, mesmo ela sendo negativa, ou até mesmo ilegal. A partir desses dados seria possível reabilitar uma pessoa. Durante a reabilitação, este reduziria alumas suas conquistas de desumanidade através da melhora de características úteis à comunidade e que o fizessem feliz.

Betinho me contou da forma que estavam lidando com pedófilos. Toda vez que o sistema percebia que a pessoa acusada de pedofilia ou pensamentos pedófilos, perdia pontos de experiência caso se aproximasse de crianças. Perguntei como poderiam saber disso tudo. Ele estendeu o braço e me mostrou um caroço em seu punho. Aqui está guardado tudo. Um computador inteligente capaz de reconhecer nossos erros e nossas conquistas. É ele que faz isso tudo. “Isso não é invasão de privacidade?”, perguntei. Ele me olhou estranho. “Mas isso existe há décadas. Nunca tivemos problemas com violência. bem, apenas em alguns casos isolados.” Percebi que ele olhava pro meu punho. Eu o escondi e saí dali. passei a mão no meu punho e não tinha nenhum caroço nele. olhei pra trás e vi o Betinho falando no telefone enquanto me olhava ir embora.

Voltei pra casa num ritmo rápido. Ouvi as sirenes de longe. Imaginei que eram pra mim. Aumentei o ritmo, quase correndo. cheguei à portaria e ainda estava sem porteiro. alguém passou por mim, estendeu o punho até o interfone e a porta se abriu. Entrei junto. Esperei a pessoa pegar o elevador e chamei o do lado. Tentei subir para o apartamento. O elevador não aceitava quando eu apertava o botão. Uma voz dizia “Identifique-se”. Saí do elevador e fui pelas escadas. 9 andares de escada no escuro; Quando dei de cara com um Dragão de 6 cabeças. Eu só conseguia vê-lo, quando alguma das cabeças soltava fogo pela boca. Alguém gritou “EU ATACO COM A FACA DO DEMÔNIO”, e ouvi um barulho de dados rolando no chão. As pessoas gritavam “MATAMOS! MATAMOS!”. Fez-se um clarão que me cegou temporariamente. Quando voltei a enxergar, estava na sala e do lado, os meninos ouriçados jogando RPG enquanto eu segurava o bong com as 3 halls dentro e o gelo quase todo derretido.

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