Um X-Bacon de madrugada

Não sei ao certo por que escolhi fazer Engenharia de produção. Já tinha completado o técnico de edificações no CEFET-RJ e resolvi continuar por lá mesmo, fiz o vestibular e passei pro segundo semestre. Lembro que em meu primeiro ano de curso vendo veteranos de terno e gravata nos corredores, achei que queria aquilo para mim. Seria um cara rico e jogaria ipad na cara da galera. Tô no 7º ano de Produção, quase sendo jubilado da faculdade. Pensando em até inventar um casamento, um filho ou a morte de um familiar para ganhar +1 ano de margem com o reitor. Não curto muito ver o botão da minha camisa suada quase estourando na minha barriga, o sapato social apertando os meus dedos e a caspa aparecendo no terno. Esbanjo uma vida merda e não sei como acordo todo dia pra trabalhar e estudar.

Na faculdade nunca fui o melhor nem o pior aluno da sala, fui sempre o medíocre. Na eng de produção, isso significa tirar 7 em tudo e saber dominar a técnica da formalização do óbvio e encheção de lero lero nas coisas. Nunca gostei de fazer os trabalhos em grupo, sempre achei que alguém ia fazer alguma cagada, mas como eu passava o dia inteiro no trabalho, não poderia ajudar muito. Sou o cara que faz os power points e apresenta, apesar de não curtir muito falar em público. No início do curso os trabalhos em grupo eram com o pessoal do CEFET Júnior, que é um grupo/empresa formada pelos alunos que prestava consultoria para empresas privadas, mas como fui me fudendo em algumas matérias, minha grade horária virou uma bagunça e só me restava fazer trabalhos chatos de Técnicas Estatísticas de Discriminação ou de Governança Corporativa com calouros do centro acadêmico esquerdinha-caviar-poliamor que moravam na Barra da Tijuca, mas que fazia cosplay de pobre.

A faculdade tem essas coisas estranhas e fazer parte do Cefet Junior foi uma delas. Não tenho muito o perfil de um júnior, os caras são todos cools, extrovertidos, proativos e fazem trabalho social. Eu, por outro lado, sou introvertido e tenho um pensamento racional que busca a maximização da minha curva de utilidade em vez de ficar babando ovo de qualquer empresa para contratar a minha consultoria. Por isso que passei no processo seletivo, pela diversidade na entidade e por ver as coisas mais no preto no branco.

Esse será meu último ano de Cefet. Apesar de chegar atrasado quase todos os dias e correr o risco de repetir falta, me matriculei em 20% a mais de disciplinas que preciso para me formar. Isso se chama estratégia de gestão de risco da minha grade horária. As matérias que vejo que o professor é chato e faz chamada no início da aula, eu tranco. Acredito que a única coisa que sentirei falta da CEFET serão as noites jogando tênis de mesa e das quintas feiras no Foda-se (bar que ficava perto da faculdade).

Sexta passada voltando pra casa, parei na barraca do jonas pra comer alguma coisa. pedi o de sempre, 2 x-tudos e uma coca 1,5L.

— po, campeão, to sem coca hoje, pode ser convenção?

— puts, deixa, só os x-tudão mesmo, então.

Fui no atacadão, mercado do lado da estação de vicente de carvalho, onde ficava o Jonas todas as noites, menos as segundas, pra comprar uma coca. Saindo do mercado tropecei num gelo baiano e uma senhora falou.

— Cuidado menino, assim vai derrubar o jantar — rindo da minha cara.

Fiquei um pouco sem graça e fingi que não era comigo. Nunca gostei dos velhos daqui do bairro. Tão sempre se metendo na vida dos outros.

Você pode estar se perguntando o que é um gelo baiano. Aqui no rio todo mundo sabe o que é. uma amiga minha, Lorena, foi morar em São Paulo e disse que ninguém sabia o que era um gelo baiano. Gelo baiano nada mais é que aquele bloco de concreto utilizado para impedir trânsito de veículos, para dividir pistas ou coisa parecida. Li num livro, de origem das palavras e termos que ele era oriundo de uma “ignorância popular”. O formato de gelo daria o nome e como era “Tão preguiçoso, que nem derreter derretia” ficou o nome Gelo Baiano. A mistura clássica de preconceito e metáfora, um clássico carioca. Vou mandar um oi pra Lorena pelo whats, faz tempo que não falo com ela.

Comi e fui pra casa. Passando pela minha rua, encontrei a Dona Vera passeando com um cachorro perto da porta da minha casa. Eu nem sabia que ela tinha cachorro; Na verdade é meio esquisito, porque tenho certeza que a vi da minha laje sacrificando uma galinha no quintal da casa dela com um pentagrama desenhado no chão. Dei boa noite e segui. 2 postes se apagaram quando passei. Isso sempre aconteceu, minha vida inteira passei por postes que apagam. Parei de dar importância pra isso. Peguei a chave dentro da mochila e entrei em casa. Tomei um banho quente e fui pra cama. procurei meu celular pra carregar e não achei. Revirei minha mochila, procurei nos bolsos da calça, na sala e nada. Botei a roupa de novo e voltei pra barraca do Jonas pra ver se tinha deixado por lá. chegando por lá cutuquei o Jonas:

— Brother, cê viu meu celular ai?

— É seu? Porra… peraê, guardei no carro, deixa eu pegar.

Me devolveu o celular e aproveitei e pedi 1 x-bacon com uma latinha de fanta laranja, que era o que ele tinha além de convenção-cola.

Uma velha, de uns 60 ou 70 anos de idade me encarava enquanto eu comia. Achei esquisito pra caralho, cutuquei o Jonas pra perguntar quem era. Quando ele virou, a mulé tinha SUMIDO, VIADO. Do nada. Não faço ideia pra onde ela foi. A rua tava deserta. peguei o celular e mandei uma mensagem pra Lorena:

— Cara… aconteceu um negócio bizarro hoje.
— O que ? — perguntou.
— CARA. Eu tava comendo na rua e uma velha muito bizarra ficou me encarando. Quando fui comentar com o Jonas, ELA SUMIU. D O  N A D A.

Ela não respondeu nada depois disso. Provável que tenha pego no sono.

No dia seguinte acordei com um áudio dela dizendo:

— Jo… Cara, tá tudo bem? que mensagem foi aquela ontem? Tava sóbrio?

— Tava, porra… é serio, vi uma velha esquisita me encarando, tinha o cabelo bem esquisito, ralo, meio encaracolado, parecia que tinha acabado de sair do banho. — respondi por mensagem.

— Entendi. Como estão as coisas por aí?

— Bem, bem… Mesma coisa de sempre.

— E a dona Carmem?

— Bêbada hahaha

— hahahah tudo normal então.

— E aí… namorando?

— Não… cara… Ontem quando me mandou a mensagem eu tava na casa de um cara bem estranho hahah

— como assim? tipo TOPZERA?

— Não… Aí é demais. não… era estranho só. excêntrico. Não usava sapatênis, fica tranquilo.

— Você nunca dá sorte com os caras, né…

— É… Às vezes penso em parar de sair com esses caras… Desistir, ficar pra tia mesmo haha.

— hahaha.

A conversa morreu depois disso. Lorena era a unica pessoa que eu mantinha contato assim, por mensagem. Na faculdade pouco falava com as pessoas, no trabalho também, mas Lorena sempre falou comigo. Foi com ela que perdi minha virgindade. Pra ela não deve ter significado muito, mas pra mim foi foda. Fiquei vários meses apaixonado por ela, mas ela não queria nada comigo. Não fico muito chateado não, eu nunca vi ela se apegar a ninguém mesmo.

Continuei comendo; Jonas me entregou uma folha de papel dobrada e disse que tinham mandado me entregar. Perguntei quem. Ele disse que tinha sido uma senhora de cabelos brancos meio enrolados. Abri a folha e tinha um texto escrito a mão que dizia:

A vida é longa demais para o sofrimento e muito curta para o prazer. Apesar de estar sempre rodeada de pessoas, sempre me senti só. no meu aniversario de 75 anos, não tive problemas de saúde, financeiros ou de qualquer outra natureza, mas eu estava sozinha. Assim como via todos os dias de madrugada, as pessoas que vinham na minha barraca comer. Com olhar vazio. Eles, que vinham comer nas madrugadas durante a semana, me faziam lembrar da minha própria solidão. Até que não suportei mais. Peguei meu carro, fechei todos os vidros e entrei com tudo na lagoa. Até o momento que a água chegou na altura dos olhos estava certa do que queria. Depois de alguns segundos sem ar, me desesperei e me arrependi.
Vejo que vocês estão no mesmo caminho que eu, com  relações vazias, vidas cheia de pessoas ao redor, mas com ninguém por perto. Não cometam o mesmo erro.

 

______________________
Texto: Filipe Cavadas, Karina Cruz.

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