Vontade

Eu não esperava que ela fosse se abrir tanto pra mim. Falava dos seus dias tediosos e das madrugadas em claro em que o filho a acordava gritando de fome. Chegava pela manhã certas vezes com olhos vermelhos de cansaço. Quando podia sair, enchia a cara e fumava, não ligava pra nada. Me mandava desabafos em forma de textos, sempre sexualizado de uma forma indireta e equilibrada. Parecia ter toda a paciência pra levar a vida que levava. Parecia ter aceitado bem sua posição de recatada. Eu não imaginava que não. Por trás disso tudo, tinha uma vida; alguém vivendo dentro de um quarto escuro, quieta para não acordar ninguém. Brincava sem medo de não enxergar direito. Foi numa madrugada que me mandou uma foto. Uma foto em que ela se abriu e abriram-se, também, suas pernas; de costas pra câmera, inclinada, olhando para trás. Enviou para mim e outros tantos, imagino, mas pra mim, independente de qualquer coisa. Nunca pensei que a veria numa abertura dessa. Achei que meu papel era de ouvir e não de ver ou tocar. Não consigo me esquecer daquilo. E como poderia? Aquele corpo, aquele fogo. Agora quero ver mais e tocar. Não aguento mais acordar às 3 da manhã e me tocar, pra poder vê-la pela manhã no mundo real e tomar decisões racionais, afinal, ela se esconde no meio da madrugada e só a vejo pelas manhãs. Nem tardes, nem noites ou madrugadas. Nas manhãs cansadas, de olhos vermelhos e calça amarrotada. Ah… Como queria entrar naquelas calças, de cabeça e ficar um bom tempo, até encher a barba de baba e gozo. Meu lençol já não aguenta mais tanta carga, será que isso passa?

Que desespero que me dá, às vezes tenho coisas pra fazer, mas vou pra casa vê-la em minhas fantasias e sujar o lençol. Tanta energia desperdiçada. Eu sei o que quero, mas sei o que não devo. Vontades não controlo, só ações. Controlo o que dizer e a hora de me calar. Controlo a mão que cumprimenta e deixo livre a mão que me liberta, que me alimenta e sacia. Todos os dias pela manhã a mão descarrega as vontades. Todos os dias quando a encontro, um beijo no rosto é cumprimento, enquanto pela madrugada é só o início do tormento. Eu beijo, gosto de beijar lento e desço… Uso a língua como instrumento, fico lá o máximo de tempo possível e tento me segurar pra não me apressar demais. Curtir o momento. Com força, a viro de costas e seguro forte o cabelo de cor vermelha e quente. Deixo as marcas dos meus dentes em forma de sofrimento enquanto meto, percebo que já estou atrasado e preciso rápido descarregar, pois a encontrarei em poucos minutos e o beijo precisa ser cumprimento, a mão inocente e o coração bater tranquilo, bem lento.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s