A negação do ócio

Muitas questões do mundo foram levantadas, algumas respondidas, logo depois refutadas, ou aplaudidas e mesmo as, então refutadas, depois disso, foram ressuscitadas. Algumas foram dadas como insolucionáveis, mesmo que pudessem, um dia serem plenamente respondidas; e existem aquelas que, até hoje, suas respostas são buscadas: Essas são as que mais me interessam e são as que mais foram respondidas ao longo do tempo. Mesmo assim, continuam sem solução.
Se eu gastar mesmo, se eu consumir menos, estarei treinando para precisar de menos recursos para viver. Assim, um menor tempo gasto para pagar por isso. Uma roupa, um par de tênis, uma bugiganga eletrônica não roubará nem uma hora a mais do meu esforço de trabalho, para definir aquilo necessário à minha vida. Eu trabalho, vivo e penso. Não me iludo com planos de aproveitar a vida, apenas ao fim dela, quando estiver esgotada toda minha vitalidade de anos consumidos pelo trabalho, o negócio, que tem sua etimologia oriunda latim, o qual posso me dedicar com gosto hoje, /NEGOTIUM / NEC(negação) + OTIUM(folga, ócio) /”Negar o Ócio”, ou melhor, “ausência de ócio”/, como se o tempo de diversão e reflexão e descanso fosse um crime moderno.
O homem que dedicou todas as forças para acumular bens, só pensa, depois de uma vida dedicada ao trabalho, naquilo que não pode ser comprado: o tempo. As horas vividas, gastas para o acumulo de bens que pareciam ter sentido, um carro, que 2 anos depois de comprado valeria a metade do preço. A roupa de grife que sai de tendência ou o sapato requintado que perde o solado.
Esse homem pensa no tempo com os filhos, mas naquele que escolheu trocar pelo trabalho. O filho que tem a presença suprida pelos bens é educado para que enxergue o bem como sucesso na vida. Uma recompensa de esforço necessário para a plenitude da formação do ser. O sucesso, que o homem, ao chegar aos 60 anos vividos – grande parte deles negando o ócio -, começa a pô-lo em dúvida sobre seu real significado.
Todas as vezes que sonho em sair, para o mundo conhecer, algo me prende. E o que me prende é sempre algo que eu mesmo criei. Porque cada um é responsável pela construção de suas próprias prisões, mesmo que tentemos nos convencer que a culpa é de algo maior e necessário, como o labor, o que nos prende são nossas próprias escolhas.
Se aprendo a viver com pouco, posso viver mais tempo precisando de menos trabalho. E se, desse trabalho, acumulo dinheiro, os anos seguintes serão de mais prazer e menos trabalho. Se trabalho muito, meu mínimo necessário para vida, inconscientemente, aumenta. Ganhar mais, te faz consumir mais, pois a produção pede energia, concentração e, tudo isso, no mundo do dinheiro, também custa dinheiro.
Mas se essa é a minha opção. Se essa é minha solução, preciso me livrar do abuso que é ocupar uma residência num lugar tão saturado e viciado. De custo altamente especulado. Mas eu vou para o campo? Para a mata? Pro barraco? Aldeia? Um simples teto não deveria ser merecido a 100 horas da minha vida, todo mês.
Não é ódio, preconceito ou desgosto, mas é inviável ter que sair com pessoas que gastem, em uma noite, 40 horas do meu trabalho. Dos muitos que gosto, apenas convivo em ambiente profissional. E não se salvam, nem as conversas à hora do almoço, já que o meu, trago de casa, ou vou para o bom prato (restaurante popular), do qual aqueles com quem convivo tem repulsa.
Na cidade em que a cultura é de consumo e de especulação sobre serviços básicos, ditos ‘diferenciados’, fica, cada vez mais inviável, ser um ser social. Dedicando a vida ao trabalho e às relações superficiais, não seria nenhum absurdo chegar ao fim dela achando que a dor maior não seria morrer, mas sim ficar mais tempo por aqui.
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