4 PERGUNTAS QUE DECIDI PERGUNTAR A MIM DURANTE A DOR

1 – Quem sou?

Senti vergonha e um pouco de pena por mim por não ter antecipado que, no fundo, todos à minha volta só teriam se aproximado de mim por interesse. Quando abri mão de tudo e também da ambição, todos sumiram. Mas nunca foi por questões monetárias, coisa que nunca tive em abundancia. Era mas a relação do status e um certo poder. Diria até uma moral. Falar comigo, me conhecer, era algo para aquelas pessoas. Sempre achei bobeira, pois sempre vejo as coisas que faço como coisas passageiras, além de achar um saco quem reconhece em demasia seus feitos. Sinceramente, não quero me especializar em nada, quero cronstruir e espalhar, sem apego algum.
Poucas pessoas restaram. Poucas se interessavam pelo “eu” real. Será que eu me perdi nesse ponto tão clichê e solitário da vida?
Por um tempo eu tentei voltar a ter as pessoas ao meu redor. Elas vivem dizendo para eu voltar. Voltar para onde? Por que elas não vinham até mim, se sentiam tanto a minha falta. Ou seria a falta daquele homem que fazia tudo pelos outros, sem pensar em si. Eu não me importava. Eu curtia cada um dos meus dias, mas era trabalho. Por mais prazeroso, eu exercia uma função e só era bem tratado porque a fazia bem e isso gerava dinheiro pra alguém, porque pra mim não gerava e, caso meu labor não gerasse esse lucro, eu não seria tratado da mesma forma que fui…
Pensando nisso a gente começa a desconfiar que te tratam bem caso tenham algo pra sugar de você. Eu não me sentia sugado, porem. Gostava mesmo era de passar meu conhecimento pra todos e gostava de quase todos. Não conseguia fingir bem de quem não gostava, mesmo que quisessem me dar dinheiro pelo meu trabalho. Talvez eu encarasse o trabalho como a vida. As relações, a reciprocidade, o amor. Quando abri mão de tudo, até o que achava ser amor, sumiu, me deixou. Como se eu tivesse me tornado outra pessoa, como se a culpa daquilo tudo tinha sido minha, por ter deixado a minha ‘vida’ pra trás. Eu continuo vivendo, mudando e fazendo o que me agrada. Poucos estão por perto, quando embalo em outras áreas e me dou bem, pessoas aparecem, mas logo canso, por não ser algo que amo, e logo essas pessoas somem. As que ficam são aquelas de de 10, 15 anos atrás, ou as que permanecerão por décadas… São aqueles que gostam do eu cru, a criança da época em que ninguém tinha nada além de si mesmo.
O erro não é das pessoas de quererem algo de mim. O erro é meu, de esperar algo delas.

2 – Para onde vou?

Passei a viajar muito de onibus. Muito mais do que precisava. Eu dizia pra mim mesmo que era para combater a minha ansiedade. Eu já não tinha problemas com ansiedade há anos, mas também não estava acostumado a tempo ocioso no meu dia. Então, em toda oportunidade, metia 4 peças de roupa na mochila e ia para a rodoviária.
Mudava os destinos, mudava de companhia em todas as oportunidades e não ligava de esperar 1 hora para o ônibus seguinte, mesmo com a cia ao lado tendo onibus em 10, 15 minutos. No fundo eu estava treinando, sem saber, para uma nova fase da minha vida. Era muito mais barato dormir em um ônibus do que em um hotel. Fazia viagens de 6 a 7 horas.
Com o tempo aprendi a relaxar e dormir em qualquer posição. Me negava a pegar poltronas leito ou semi-leito.
Já tinha passado 7 dias que tinha expirado o contrato da republica em que estava morando. Lá eu nao conseguia dormir, com aquela gritaria até as 4 da manha todos os dias. Nas sextas feiras se estendia ate as 6h. Não sabia que o Bixiga podia ser mais barulhento que a Augusta. Me tornei um zumbi, mas conseguia trabalhar. Consegui organizar todo o meu trabalho as quartas, quintas e sextas e, com esses dias de trabalho conseguia me manter, rodando por aí em ônibus e quartos baratos. Me senti livre. Com tudo o que tinha dentro de uma mochila, mas no fundo, sem apego às coisas que tinha. Me livrava cada vez mais das coisas e me apegava mais às pessoas, mesmo que fosse tão difícil achar alguém que nao estivesse escravizada pelas suas coisas, de tempo em tempo eu tinha momentos reais de interação e esses me bastavam.
Não quero ser rico, quero viver com o que basta, mas ainda me acho consumista demais. Ainda há aquele impulso, aquela urgência sem sentido dentro de mim de ter coisas, mas hoje eu paro e penso: “o quanto eu dependo disso?”. Deixei na mala poucas roupas, apenas os livros que ainda não tinha lido, 1 par de tênis, 1 agasalho, guarda chuva, celular, cópia de alguns documentos, cartões necessários, remédios, mas apenas os para dor, sabonete, xampu, escova e pasta de dente, uma toalha daquelas que secam rápido. Eu ainda tenho chaves demais. Até hoje nao consegui jogar nenhuma fora. Sempre penso “vou testar essa chave pra ver de onde é”, mas nunca o faço. Preciso me livrar dessas chaves porque as portas que preciso abrir, dificilmente estarão trancadas.

3 – O que é realmente importante para mim?

Voltei a ler, depois de um tempo. É preciso estar confortável para ler e hoje eu acho conforto em qualquer canto. Li 3 livros e logo depois, os dei pra quem achei que gostaria. As crônicas e os contos tem mais a ver com meu ritmo de vida. Contos de 20 min, no maximo 1 hora e, às vezes, umas novelas, que leio na virada de noite ou em alguma viagem diurna de onibus.
Ano passado li mais de 50 livros. Foi mais uma compulsão do que um prazer, muito mais e eu paguei o preço. Minha visão piorou muito. Nenhum dano funcional, eu enxergava bem ainda, mas tudo à distância ficava borrado. Minha oratória piorou também. Talvez eu tenha me escondido demais atrás das capas dos livros e não tenha visto o mundo passar, ou as pessoas. O livro nem sempre é bom. É que, perto da TV e gadgets, ele parece tão nobre, mas, se há compulsão ao prazer ao le-lo, é só mais uma forma de se esconder do real. Eu só quero sentir cada minuto em que estou acordado. Do cheiro ao toque, dá visão à comoção.
Tem um problema nos ônibus. O ar. Sinto falta do ar. O ar é falso e nao ha um onibus sequer hoje em dia que não recicle aquele ar de ar condicionado. As janelas não abrem. Na parada eu apenas saio e fico no estacionamento de algum restaurante daqueles, caros, que as cias param. O ar é contaminado de monoxido de carbono, mas ainda existe um ar verdadeiro ali. Eu sento, espero os 30 minutos até o motorista retornar pra mais algumas horas de um ar um pouco mais renovado.
Uma coisa sobre ônibus e minha vida. Sempre são quentes demais ou frios demais.

4 – Por que me arrependi de alguns erros cometidos?

O último amor foi um ponto final de um capítulo de muito calor. Passo frio há mais de 6 meses. Não faz falta ainda, mas sinto falta de como eu me sentia com ela. A gente se interessava de verdade pelas conquistas do outro. Até das coisas mais banais como aprender a fazer uma omelete perfeita.
Eu cozinhei muito pra ela. Ela ficava encostada na porta observando. A fome dela nunca acabava, nem minha vontade de cozinhar, olhando de minuto em minuto pra sua cara atenta e sedenta.
Era amor, mesmo que apenas da minha parte, talvez. Foi quando me abri e disse as 3 palavras que tudo acabou, conclui, meses depois, mas conclui errado. Acabou porque errei e fui orgulhoso demais para tentar consertar as coisas. E ela orgulhosa demais para aceitar minhas desculpas tardias.
Eu sorrio porque externo minhas felicidades, mas guardo o remorso e escondo a melancolia.

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