Pipoca

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Na sala está sentado um homem. À sua frente se apresenta o mundo como uma tela de cinema. Chega uma mulher, chorando. Chega um senhor, chorando de alegria. Chega uma senhora cansada, puxando um menino pelo braço. Ela vai até a recepção, entrega alguns documentos e se senta.

A vida passa lenta na sala de espera. O homem pega uma revista do mês retrasado e lê amenidades da vida de celebridades que não importam. Ele encosta a cabeça no vidro da máquina de doces e fecha os olhos. Parece que Eliana está grávida. Ele desliza os dedos pelos números do painel, seleciona o 2 e o 8 e cai um pacote de pipoca doce. Ele volta ao seu assento, abre o pacote e começa a olhar ao redor.

A mulher que chorava à sua frente começa a receber conhecidos, que a abraçam e compartilham de suas lágrimas. Ela faz uma negação com a cabeça e se senta novamente. Ele não sabia disso, mas ela havia recém recebido seu diagnóstico – tinha AIDS. Ela já imaginava, já que o namorado havia morrido recentemente. Ele não havia lhe dito que tinha AIDS, “talvez ele não soubesse”, ela pensava. Mas ele sabia. E no fundo ela sabia que ele sabia.

O senhor que chorava de alegria era discreto. Sorria com o canto da boca, fazia o sinal da cruz e apertava um terço. Sua filha com leucemia havia terminado recém o transplante de medula – e com sucesso. Não era justo que ela morresse sendo jovem e cheia de vontade de viver. Mas de que se trata a justiça quando se fala de doenças? Existe algum tribunal divino que determina o quanto de dor nós somos obrigados a sobreviver nessa vida?

O menino, que tinha o braço vermelho de tanto que a senhora o apertou, tinha cara de culpado. A verdade é que a culpa não era dele, mas sim do tio dele. E ele tinha medo do tio, que o surrava sempre que sua mãe não estava em casa. O menino era fruto de um estupro e, embora a culpa não fosse sua, ele como fruto do inferno era odiado pelo tio, que nesse dia havia quebrado uma garrafa nas costas do menino. Quando a mãe voltou do mercado o tio já havia indo embora e o menino mentiu, dizendo que havia tentado pegar a garrafa da prateleira alta.

A vida parecia texturizada, caricata. Enquanto ele observava tudo de fora, como se estivesse dentro de uma bolha, sente que alguém lhe toca o ombro. Ele acorda daquele transe subitamente e vê o uniforme do homem que o tocava: estava cheio de sangue. Ele não se levanta e olha fixamente para o médico, como se através dos seus olhos pudesse ter a certeza de entender qualquer palavra que saísse de sua boca. E ele disse que sua mulher não sobreviveu, mas os bebês sim. E as luzes acenderam, a tela se apagou e as pessoas foram embora – homens, mulheres e crianças – e depois do espetáculo sobram apenas as pipocas no chão.

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