A primeira vez que vendi meu corpo.

Foi aluguel na verdade.
Não foi a última, mas foi a mais marcante.

No começo a gente não entende bem, acha que é algum privilégio
e que vai ter prazer.

Não há prazer

Mas te ensina sobre limites
Até que ponto eu consigo seguir firme? Por ‘firme’, quero dizer ‘duro’

O cuspe, o escárnio, as dentadas,
A violência dolosa.
É ali que sai tudo de um
Algo que foi aprisionado por muitos.

A boca no sangue de menstruação pela primeira vez.

Parecia desgostoso pensar nisso. Muitos evitam, mas
É algo fácil e bom, caso haja desejo.

Nesses casos
Não há desejo.

Não há prazer.

Conheci aquele rapaz,
Aquela menina que mantêm suas casas arrumadas,
Comem à mesa posta,
Com garfo no lugar de garfo
E faca no lugar de faca
Mesmo que sozinhas e
No banheiro, escova e pasta de dentes paralelamente organizadas
simetricamente espaçadas.
São nessas casas
Que moram os donos das mentes mais descompassadas.

É preciso concentração
Pra se manter morto por dentro enquanto o corpo
Segue vivo
‘Firme’,
‘Duro’.

A força interna da mulher me assusta.
Será por isso que tentaram
Por tanto tempo domá-la?
Amordaça-la…

Não há prazer

A coisa nunca melhora
Nunca piora

As contas precisam ser pagas
Pra manter a vida num patamar mínimo

Cada um define seu mínimo
Cada um tem seu mínimo
E o mínimo
Cada vez
Encolhe mais
E se esconde, tenta adormecer para não ver realidade alguma.

Eu só quero dormir
Quando for hora de dormir
Eu só quero morrer
Quando for hora de ficar acordado

Os mais íntimos me disseram que meu olhar
Não faz mais sentido

Achei que morreria pelo que me dá vida.

Mera ilusão.

Eu morro

No final da vida

Com cada vez mais medo dos riscos,
Os anos passam,
Passam…
Sem combustível,

De desilusão

Eu morri

No final da vida.

Logo depois
Que, pela primeira vez,
Vendi meu corpo.

Anúncios

2 comentários Adicione o seu

  1. Mauricio disse:

    Deve ter sido caro.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Josias Silva disse:

    O poeta é muito feliz ao apresentar sua dualidade trabalhando o real com o imaginário no que vai fazer com o seu corpo. Será que em determinados momentos não tenhamos vendido os nossos corpos também?

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s