Minha Julia

Eu só queria levar a Julia pra passear, mas eu vacilei, me deixei levar pelo tesão. O que tínhamos era algo legal, digo, com a Claudia, mesmo que todo dia reclamasse do pano de prato molhado em cima da pia. Minha mãe sempre me protegeu dizendo que o que sentia era felicidade quando via um pano de prato molhado na pia. Sinal que algum homem da casa tinha lavado a louça. “Lembro de um dia, doce ilusão, quando cheguei na cozinha e tinha um pano molhado na pia. Era apenas um copo d’água derrubado pelo seu pai.”

Eu encontrava a Julia todos os sábados, mas ela quase nunca queria dormir na minha casa. Pedia pra voltar pra casa da Claudia. Era foda. Ela achava que era de propósito. Que eu tava querendo me livrar da Julia. Eu mal tive tempo de me organizar, principalmente financeiramente. Estava longe de ser um apartamento atrativo pra uma menina de 6 anos. Não tenho TV, computador ou um celular decente. Em casa, esbanjo apenas um colchão que fica no chão e uma geladeira que ficou do último morador. Na sala, sempre secando um dos meus dois lençóis, que dá um aroma especial à casa em dias nublados.

O único laço que parecia sobrar entre nós, desde que saí de casa, era o pudim. eu fazia todos os sábados antes da Claudia descobrir que tinha traído ela com uma amiga. Em casa era eu que cozinhava tudo. Não sei como ela tá se virando agora, mal fritava um ovo sozinha. A cozinha era sob o meu comando, mas a louça era dividida e tinha sempre que lavar na hora que ela queria. Assim nasciam as diárias discussões. Noites regadas à gritaria e xingamentos, sempre lembrando os antigos vacilos do outro, até o dia que a Julia chegou. Não discutíamos mais. Apenas nos olhávamos, putos e calados. O silêncio foi tomando proporções preocupantes: Dias, semanas. Mal nos falávamos, mal fudíamos, mal nos olhávamos. Quando um chegava do trabalho, o outro ficava com o olhar fixo na TV, mudando os canais sem assistir nada. Por isso não fiz questão de ter uma TV. A única memoria que tenho é a Claudia olhando pra tela e me ignorando no final do dia. Ficava lá até eu dormir. Algumas vezes vinha pra cama e se esforçava pra não tocar em mim, outras, ficava no sofá até adormecer.

Isabela sempre me contava como as coisas estavam, irmã mais nova da Claudia, sempre dizia que ela não tinha sido moldada para ser mãe, quando pequena não arrumava, não cozinhava ou limpava nada. Só comia e dormia. Mas estava se esforçando pra dar pra Julia uma infância tranquila. Domingo passado elas levaram a Ju para um circo em Osasco. Ela disse que a Julia tinha amado tudo, até os palhaços bizarros. Julia não tinha medo de quase nada, só de dormir na minha casa. Isabela disse que ela tinha certo medo do meu quarto à noite. “Poe umas coisas nele. Tá muito vazio lá, de noite deve ser muito sombrio. A Clau disse que só tem um colchão e mais nada no seu quarto. Poe algo que faça a Julia se sentir bem aí.”. Concordei.

Nunca tive ciumes de nada nem de ninguém enquanto estava com a Claudia. Agora, separados, bastou vê-la de cabelo curto pra me sentir assim. Sempre pedia pra ela cortar o cabelo assim, mas sempre respondia “Não combina com o formato do meu rosto”. Quem será que fez a sua cabeça?

Quem sabe a imagem que atrai a Julia seja de alguém que conseguiu seguir a vida e ser feliz, apesar de tudo que aconteceu. Pode ser medo de mim, ou do meu quarto, ou não. Eu talvez nunca descubra o real motivo de ela não querer ficar aqui. Mas por via das dúvidas, tô saindo pra comprar uma TV e leite condensado.

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