Figuras – crônica

Heitor não tinha lirismo na vida.
Nao por ser jornalista, mas por ter nascido com uma certeza que todos nos desconhecemos.

Se tem algo que não sabemos, é até quando viveremos. Heitor nasceu com uma doença genética, progressiva e mortal.

Ninguém de sua família jamais passou dos 35.

Não via sentido nas figuras de linguagem. Acreditava nas palavras e nos seus significados materiais. “Palavra serve para definir, não para ser interpretada”, dizia.

Não sentia saudade ou amor, apenas fome que lhe doía o estômago ou o sono que lhe cansava o corpo.

Heitor escrevia detalhadamente, como um inspetor de polícia norte-americano tentando remontar uma cena de crime.

A cada parágrafo escrevia sobre sua certa morte que chegava e guiava suas ações a partir desse ponto.

Uma engenharia reversa, pra definir suas ambições e conquistas, que deveriam se concretizar antes dos 35. De preferência até os 33, como margem de erro.

Não falava dela para tocar ninguém ou ser o foco das atenções. Ele só não sentia nada demais na morte, em falar dela.

Era como ficar careca, menstruar, se aposentar. Era algo que ele sabia, mais ou menos, quando viria e tinha aceitado isso.

Mas não tinha pressa. A frase mais próxima de uma figura de linguagem que ouvi de sua boca foi: “quem tem pressa de comer cu, acaba com o pau cagado”

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