Autonomia – conto

Parei na Augusta, ali na esquina da Peixoto Gomide. Eu costumava comprar livros que o Flávio vendia em seu carro todas as noites de quarta à sábado. Entrei no carro junto com a Dany e Diego, que esperavam ali. toda quarta-feira a gente se encontrava lá pra ler alguma coisa e beber.

Resolvemos esperar dentro do carro. Entramos, fechamos a porta. As luzes baixaram e ele começou a andar. O modo autônomo foi ativado. A tela mostrava que estávamos indo para uma boate em Alphaville. Não conseguíamos parar o carro. Nada. Nenhum botão, pedal, nem nada funcionava.

A gente tava de boa. A Dany achou a caixa de livros. Disse pra ela tentar ligar para o Flavinho. Fui para o banco de trás e comecei a olhar. Escolhi uns 2 para levar, quando dei de cara com 2 livros meus. Eu tinha mandado pra algumas editoras. Alguém tinha publicado e eu não sabia. Fiquei feliz. “vou comprar os 4”, disse a elas.

— Não consigo falar com ele. meu celular morreu.

— O meu também – disse Diego.

No meio da avenida, todas as luzes se apagaram. E de todos os carros. O sistema anti-crime estava ativado e provavelmente por nossa causa.

— Nunca vão acreditar em nós.

— Relaxa, Dany. O Flavio é nosso amigo. A gente só precisa trocar uma ideia.

O carro parou, acionamento remoto.

Tentei abrir a porta. Estávamos presos. Um som de sirene foi aumentando pra perto da gente. O policial abriu a porta e só empurrou a gente para a viatura.

Tinha um cara de cabelo verde algemado no banco de trás. Era uma van. eu fiquei no banco logo atras do oficial e a Dany foi no fundo com o cara de cabelo verde.

Depois de uns minutos de viagem ele perguntou um a um o que tínhamos feito.

Dany começou a tagarelar demais… Tentou contar a historia toda, mas ele não estava interessado. Ele a cortou e me perguntou o que eu tinha feito.

— Fui comprar livros—, respondi

— Hum… perdi 30 reais ontem. Livros são um problema —, disse olhando para o céu pela janela.

Ninguém mais falou nada até a delegacia.

Chegando lá fomos para uma sala de espera. Diego foi o primeiro chamado a depor.

Uns 20 minutos depois, saiu comemorando dando socos no ar, pelo corredor. Abracei Dany de lado, sentado, e falei “é só falar a verdade. vai dar tudo certo”

Na minha vez, sentei e tentei explicar para o delegado:

— Fui comprar livros…

— Esses? —, perguntou me interrompendo, jogando meus 2 livros na mesa…

— Sim…

— Entendi. Você foi comprar livros com seu nome na capa.

— Sim senhor.

— Você sabe que seus amigos não fizeram nada demais, foi uma falha do carro e o dono disse que os conheciam. — Disse, apoiando na mesa com os dedos e se levantando. — Mas ele disse que não fazia ideia de quem você era.

— Como assim? Eu compro livros com ele toda …

— E disse que nunca tinha visto esses livros com seu nome. — Interrompeu

— Nem eu! —  Respondi indignado. —  Eu não sabia que tinham sidos publicados.

— Você sabe que isso é crime, não sabe? Seu livro, pelo pouco que li tem menções explícitas a conteúdo homossexual e profanação de símbolos religiosos.

— Olha. Eu mandei pra editora. Não sabia que tinham publicado. Não me falaram nada. Mandei antes da lei existir. Foi em 2019.

Ele folheou o livro

— Não tem editora nenhuma aqui… Isso parece ser publicação independente. Totalmente clandestino.

— Não faço ideia de onde isso veio. Quero um advogado.

— pagina 32 — Disse arregaçando o livro — Vou ler essa passagem em voz alta:

no último ano mal olhou na minha cara,
mal deixou comer seu o cu. Se tentava dizia “para!”
só ele me comia, só por trás,
sem chances para troca de olhares e gozava
em alguns minutos e eu batia
uma punheta enquanto ele dormia.

…Hum… fofo — Ironizou.

Fiquei em silêncio.

— Você é homossexual?

— Não.

— Então por que escreveu isso?

— Escrevo ficção, não autobiografia.

— Rapaz. Você escreve crimes. Isso é apologia. Mas em breve vai conhecer um lugar perfeito. E se você se comportar direitinho até te deixam escrever depois de um tempo, mas não esse tipo de baixaria… Vai ser meu presente pra você. Uma chance de aprender a produzir uma literatura de respeito.

Ele saiu. Fiquei na sala sozinho sentado. A Dany passou pelo corredor sorrindo. Quando me viu na sala, baixou a cabeça envergonhada e ficou séria.

O delegado entrou com um homem de jaleco.

— Vamos… Seu exame te espera.

— Que exame?

— Vamos ver se esse cu aí está mesmo intocado.

— E o que isso tem a ver com homossexualismo?

— Hum… Pergunte para a Lei.

— Cadê meu advogado?

— Quando o doutor acabar, a gente resolve isso.

Neguei-me a ir. O delega chamou 3 oficiais que me levaram a força à um quartinho. Tiraram minha roupa e me avaliaram.

O advogado chegou depois de 3 dias preso na delegacia. Fui julgado algumas semanas depois.

Fui acusado por praticar o crime de felação ativa e passiva, apologia à homossexualidade,  profanação de símbolos religiosos e publicação não-autorizada.

9 anos de prisão.

 

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2 comentários Adicione o seu

  1. Doug disse:

    Da hora! Seu demente! Porque nunca falou? Achei que era só peso…

    Curtido por 1 pessoa

    1. fcavadas disse:

      Hahahahah… em breve livro

      Curtir

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