Limites – Crônica

Quando você sai de um relacionamento traumático existe uma certa alergia a qualquer tipo de apego e ínfimo sinal de afeto. Você sai sem rumo, sem ritmo, e procura pessoas que você não vai se lembrar o nome daqui a 3 anos. Assim Ella fez nos quatro primeiros meses de liberdade que sucedem uns quase 6 meses de trauma, dor, Netflix para um e caixas de lenço.

Ella voltou lentamente aos seus círculos sociais de antes do namoro, que na verdade voltaram a existir há pouco tempo – que sorte quando as amigas terminam os namoros junto com você, né? E Ella comprou uma saia de couro, comprou uma blusa com animal print, comprou uma cropped shirt transparente. Ela se olhava no espelho e se sentia cachorra; uma amiga dizia “vamos gatear” em referência às gatas que, quando estão no cio, berram para a vizinhança inteira saber.

Elas faziam a pré na casa da Nati, que morava mais perto do centro, e se apresentavam as iguarias dos países que haviam visitado enquanto estavam num relacionamento: “o Renato comprou três caixas de Pisco quando a gente foi pro Atacama, agora ficou de herança pra mim” – dizia Georgiana, e a bebedeira começava com pisco sour, seguia com piscola (pisco e coca cola light de preferência) e terminava com shots.

Eram três os clubes favoritos do grupo: Fei, na avenida Liberdade, Ibiza, na quadra do parque Honduras e Cayatt que ficava um pouco mais distante, perto do porto. Era tão seguida a frequência que o segurança Jonathan já conhecia as meninas pelo nome e já tinha até o doce separado para vender mais tarde na noite.

Ella dançava até não sentir mais os pés, que passavam os próximos dois dias formigando por causa da pressão do salto, mas ela não se importava. Ela procurava beber o suficiente para não sentir culpa de nada, mas não tanto que não pudesse se lembrar o que aconteceu na noite anterior; menos na noite em que ela no canto da Cayatt estava levando uma dedada de um cara analista de uma empresa que mexe com ações e Jonathan teve que intervir: “querida, do jeito que tá não dá, é melhor vocês irem pra casa.” – mas o cara, no caso, era casado, e não podia ir a lugar nenhum que fosse voltar só de manhã.

Como a frequência delas nos clubes era frequente, elas já tinham alguns motoristas de Uber conhecidos, que cuidavam delas inclusive quando uma possível companhia estivesse passando dos limites. No caso da Laura muitas vezes o motorista era a própria companhia e às vezes se juntava com uma terceira companhia e eles transavam no carro mesmo – um corolla espaçoso – entre dois ou entre três, depende se o convidado da noite topasse.

Ella conheceu uma gama variada de seres humanos. Uma vez foi para a casa de um cara que tinha um quarto de tortura quase. Ele gostava que ela enfiasse um vibrador gigantesco no seu cu enquanto ele estava amarrado de bruços na cama. Ela perguntou a ele se ele queria que chamasse talvez um outro cara e ele a empurrou da cama gritando “tá achando que eu sou viado??” mas em nenhum momento houve qualquer penetração que não nele mesmo e ela foi pra casa correndo e assustada.

Uma outra vez chamou um cara pra sua casa que ficou por lá uns quatro dias até ela ameaçar chamar a polícia. Ele era um mochileiro tcheco, lindo, de cabelos castanho claro compridos e levemente cacheados e uns olhos verdes super profundos – mas era basicamente um mendigo também. Estava estudando medicina na Tchequia e tomou um ano sabático depois do exame nacional que ele havia aprovado com nota máxima. Ela soube que depois que ele foi embora da sua casa ficou morando na rua numa cidade litorânea mais ao norte e levou numa boa a sua expulsão da casa de Ella: “saudades, minha gata, obrigada pelo carinho” – ele dizia num sotaque carregadíssimo. Talvez quando ele virar médico de verdade, quem sabe?

Um pouco embriagada dessa vida, Ella decidiu ficar um pouco mais saudável. Voltou a frequentar a academia, fazer aula de yoga antes de ir pro trabalho e musculação uma vez ou outra. Quase um mês de abstinência, depois do curioso caso do mendigo tcheco, eis que Ella avista um homem lindo na sala dos pesos livres. Ela resolveu (por que não?) fazer uns agachamentos com um peso mínimo para evitar uma hérnia devido à falta de prática. O rapaz era powerlifter. Levantava mais peso que qualquer um na academia, tinha um nariz maravilhoso e um pouco gordinho bem do jeito que ela gostava. Ela como um pavão, desfilava de um lado para o outro e foi rapidamente notada pelo rapaz que lhe deu um sorriso amplo – e sem dentes.

Ella ficou horrorizada e foi para a casa desolada: uma arcada dentária completa, mesmo que com próteses, é um mínimo; talvez o mendigo seja o limite.

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