Monólogos – Conto

“Tá muito ruim. Como você quer fazer uma narrativa de uma criança com isso?!

Voce não tem nada pra falar?

Sabe o que te falta?

To te perguntando…

Você

sabe

o que falta

em você?

 

Nada.

Te sobra!

Quando uma criança fala não existe essa pausa. Crianças não têm experiência, não tem treino pra respirar e falar ao mesmo tempo. Ela só poe pra fora. Essa sua pontuação tá certinha demais, e as respirações coordenadas…

Não dá pra engolir.

Voce nunca se apaixonou? Nunca falou mais do que sua boca suportava? Nunca sofreu e odiou alguém por não te amar da mesma forma que você amou? Nunca se desprendeu da vergonha, do medo. Nunca foi imatura? Nunca chorou no onibus voltando pra casa?Nunca gritou em público pedindo pra alguém parar de te machucar por dentro?

E você ainda quer incorporar uma criança?

To sobra calma, serenidade…

Te sobra ar!

 

Fala algo!

Em voz alta! perca o ar!

Esquece esse discurso bonitinho e moral.

Essa peça de ser superior que está ensaiando dentro da sua cabeça.

Solta esse ar menina!”

No final das 6 aulas, passando pelo corredor do Colégio, o diretor apontou pra mim, me olhando, virou a palma da mão pra si e me puxou com o barbante invisível da moralidade amarrado no dedo indicador.

Fui demitido. Não tive espaço nem vontade de dizer nada.

Aparentemente não se pode ser “duro assim” com alunos do ensino fundamental

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