Manu (2008) – Conto

Depois da aula, a minha primeira, uma semana depois da semana de trotes, encontrei uma menina da minha turma olhando lá pra baixo, para o jardim.

— Oi.
— Oi — ela respondeu se virando pra mim.
— Dizem que é perigoso ficar olhando praí.
— Sério? Por que?
— O jardim puxa quem olha demais.
— Credo! —, Disse rindo.
— Qual seu nome?
— Emanuela, mas pode me chamar de manu.
Acabou pra mim… meu coração já tava preenchido de Manu.

O que conversamos depois? Não faço ideia.

Da volta pra casa já pensava no próximo encontro.

Nos dias que se passaram, eu seguia à risca um ritual que sempre resultava em felicidade. Ficava na sacada do 7º andar esperando e olhando a paisagem cinza em volta. O prédios, o morro, a favela, o estádio de atletismo… Era um lugar magico e era caminho obrigatório para Manu, da sala de aula para as rampas. Quando ela chegava, já não via mais o cinza em volta. Via suas cores, um cheiro de azul. Um azul nem tão claro, nem tão escuro. Vivo que dava calafrios.

Assunto faltava, a gente ficava se olhando até constranger. Ela ia pra casa.
Eu fantasiava.

Numa quinta chuvosa, esperei por horas. Não sabia se tudo era mais cinza pela chuva ou pela ausência.
Naquela noite meu corpo pesou. faltou sono, entusiasmo.

No dia seguinte ela apareceu.
— Ontem choveu muito, né? Fui correndo pra casa. — Eu disse;
— É? Ontem nem vim… evitei a chuva ontem.
— Quer dar uma volta no sol?
— Por que não?

Um sorriso leve, uma brisa rara e um sol escaldante descendo as rampas.

Nesse dia ninguém pulou. Ninguém foi puxado.

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