Coração Selvagem – Conto

O que é a vida se não a vontade e os desafios? Morrer é desistir daqueles que nos mantém vivos e eu já não tinha mais nenhum desafio. Acordava, dava aula, voltava. Cheirava ou bebia coca, dormia, às vezes me encontrava com algum desconhecido, fodia e nunca mais nos víamos. Mulheres em sua maioria. Era uma vontade que surgia forte de dentro, mas normalmente eu preferia ficar só.

Morri faz tempo, passei uns anos como um animal agonizante. Sangrei na boca de muitos e morri naquele sofá ali. É onde morro todos os dias. Às vezes me transporto pra cama, outras, acordo com o sol na cara, jogado na sala.

“Depressão é ficar acordado na hora de dormir e ter vontade de dormir na hora de ficar acordado”, disse o terapeuta, em uma das cinco consultas que consegui suportar. Com certeza, minha vontade era de dormir em cada uma delas, ou de marinar meu dedo no cu.

Não tinha tanta vontade de sair. Marquei com Aline, mas minha vontade era morrer no sofá mais uma noite. Tomei um café e acordei, me senti ligeiramente disposto à encontrá-la, mesmo não lembrando bem de quem era.

Saí. Sentia-me perdido dentro de casa sentado pelos cantos, com as mãos dormentes, e dedos gelados, a sola do pé ao solo, um rascunho salvo no computador. Tinha preguiça até de salvar os documentos. Perdia aos poucos o quarto sentido, da minha ordem de importância, e me importava cada vez menos com os outros sentidos.

Marquei em um bar perto de casa. Estava por cima dessa situação, podia muito bem ditar as regras. Até porque não estava muito afim.

Sentei de costas para a entrada do bar. Ela me cutucou no ombro e sentou na minha frente. Sorridente. “Lembrou de mim?” Vagamente. “Claro”, respondi. A animação dela me irritava um pouco, mas fui me acomodando. Pediu chopp, perguntou se eu queria também. “Não bebo”, respondi. “Um guaraná, por favor”, pedi ao garçom. Quando ele se foi ela perguntou por que eu não bebia. “Não gosto do resultado, sozinho a noite”. “Talvez não fique sozinho hoje”, ela respondeu me olhando nos olhos. Riu, procurou qualquer coisa no cardápio. “E batata frita? Muitas consequências ruins?”, perguntou sorrindo. “Batata nunca será problema”. “Uma porção então.”, disse e chamou o garçom novamente para pedir.

Conversamos sobre filmes, mas ela não conhecia nada do que eu gostava. Perguntava dos filmes que gostava e ficava com cara de tacho a cada resposta minha. “Vamos falar de música”, riu. “Eu gosto de Belchior”, ela disse. Eu não sei que idade ela acha que tenho. Devo estar acabado. “Gosto da música Coração Selvagem”. Anos 70. Devo estar mal. Talvez sejam as olheiras. “Não é do meu tempo”, respondi. Esses jovens tão com mania de Belchior agora. Chato pra caralho. “Uma parte me lembrou de você”, disse sacando o celular da bolsa. Selecionou a parte e deslizou o celular pra mim. “Olha!”. Dizia:

Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente / Sim, já é outra viagem / E o meu coração selvagem tem essa pressa de viver.

Essa menina está doida. Minha única pressa é de ir embora, depois que acabar meu refrigerante e a batata. E eu nem gosto de cachorro quente. “Preciso ir”, eu disse. Respondeu um triste “tá”.

Em casa, botei pra tocar o tal Coração Selvagem.

É… Como esperava: Um saco.


série “Selvagem”:

I: Objeto Selvagem
II: Garoto Selvagem
III: Instinto Selvagem 
IV: Coração Selvagem
V: Dormente Selvagem

 

 

 

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