Instinto Selvagem – Conto

Série Selvagem:


                Acordei pela manhã com a boca seca, um  pouco antes do despertador tocar. Uma sede forte e uma vontade de mijei. Levantei, fui ao banheiro, mijei e bebi água da pia mesmo. Voltei pra cama e fiquei mais uns 15 minutos deitado olhando o teto até que o despertador tocou. Levantei-me devagar e fui ate a cozinha. Peguei uma garrafa d’água e meti na boca um gole maior que a vontade de beber. Engasguei. Um pouco de água caiu no chão.

                A sede é mais urgente que a fome. A sede é se apaixonar por alguém que não faz ideia da sua existência, mesmo convivendo com você. A sede mata e se mata, mas geralmente só adormece.

                Voltei para a cama. Era sábado. Estava tentando criar uma rotina de acordar cedo, mesmo nos dias em que não dava aula. Botei o celular para carregar do lado da cama e abri minha caixa de e-mails. Tinha uma Aline. Não sei se era “a” Aline, era só o nome, sem sobrenome.

Aline 07/03/2017
OLÁ

Olá professor, não ague…

                Não abri. Adormeci.

                Acordei com o interfone tocando. O vizinho perguntou se poderia usar minha vaga de noite. “É para o meu namorado”, disse ele. Respondi que sim. Eu não usava a vaga. Não tinha, nem pretendia ter um carro. Tentei aluga-la algumas vezes, mas pouca gente do prédio tinha carro. A vaga tava inclusa no aluguel, achei que seria fácil aluga-la em um prédio em São Paulo, mas desapeguei da ideia. Voltei a dormir.

                Acordei às 18h, ainda estava claro. Fui ao mercado comprar algo para comer. Só tinha ovo e água na geladeira. Peguei macarrão e atum. Perto do caixa, puxei um guaraná de 2 litros da geladeira e levei.

                Já no prédio, chamei o elevador. Alguém subia da garagem. Abri a porta e dei de cara com o vizinho da vaga e seu namorado. “É a ele que tem que agradecer, viu?”, disse para o namorado. Virou pra mim e falou “obrigado”, me medindo e mordendo o canto do lábio inferior enquanto o meu vizinho apertava o botão do meu andar no painel do elevador. Aquilo me excitou.

                Dei tchau, saindo do elevador sem olhar pra trás.

                Cozinhei. Misturei o atum no macarrão e comi. Empurrei aquela secura pra dentro com o guaraná. Bebi no gargalo. O ar estava seco. Fiquei pensando se tinha seco demais com meu vizinho e seu namorado. Queria estar lá com os dois, mas nunca faria nada pra fazer essas coisas acontecerem, não gostava de interagir. Lembrava-me dos tempos de colégio. As professoras de literatura me odiavam, pois era burro e nem um pouco esforçado. Não interagia, não perguntava nada, nunca lia os livros. Se um dia eu ficar famoso por algo, mesmo que seja por algo positivo na área, as professoras de literatura talvez se lembrem de mim com raiva e, os outros, de física e matemática, com certo orgulho. Era o que eu gostava na época. Calculava e fatorava sem parar e nenhum livro de ficção na mão. Não fazia sentido pra mim absorver algo que não era real. Depois descobri que na ficção é onde conhecemos a verdadeira personalidade das pessoas.

                Provavelmente elas achassem um absurdo eu ter virado um professor da matéria delas, que sempre (não) aprendi com desprezo.

                Abri o e-mail e cliquei em responder, sem ler o corpo da mensagem. “vamos sair para beber algo”, enviei. Virei o resto da garrafa de guaraná. Ainda estava seco, mas não se tratava mais de sede. Nunca se tratou de sede. Deitei, me masturbei e dormi de novo.


 

Série Selvagem:

I: Objeto Selvagem
II: Garoto Selvagem
III: Instinto Selvagem 
IV: Coração Selvagem
V: Dormente Selvagem

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