Garoto Selvagem – Conto

Série Selvagem:


Emulei a tristeza com uma lista bem pra baixo no computador. A noite seria longa, corrigindo os testes do fim do primeiro semestre. Comecei com Here, da Alessia Cara.  Gostei do que escreveu um dos alunos, o quieto Felipe, que tinha olhos assustadores. Era a única pessoa que me olhava nos olhos enquanto assistia à aula. Na última questão da prova, pedi para que escrevessem uma crônica. Felipe escreveu sobre ônibus. Como era sua rotina diária atravessando a cidade da casa para o colégio e a volta. Focou a história toda em seu pé, que era o que mais sofria. Era um dos dois alunos bolsistas do colégio. O restante morava perto e sempre os via chegando de carona com seus pais, de carro. Mesmo quando conseguia ir sentado, Felipe escreveu que, por conta da parte do ônibus abaixo da janela ser curvado, seu pé ficava torto, ou “torcido”, como disse na crônica. Foi o único aluno que saiu da jaula das crônicas banais. Único que deu vida à ela, dando protagonismo ao próprio pé. Não se expressava tão bem. As palavras eram confusas, mas tinha estilo próprio. Dei 4 pontos. A questão valia 5 e foi a segunda maior nota na questão. Pedro ganhou 4,5. Sua crônica era tediosa e sem graça, mas bem escrita.

Peguei a coca que estava pela metade na cozinha e voltei pra minha mesa na sala. Botei-a em cima da pilha de provas. No fundo torcendo pra derruba-la em cima daquelas amostras grátis de tédio. Abri a gaveta para pegar o grampeador e achei o envelope da tal da Aline. Peguei e vi o endereço. Remetia da Bela Vista. Bem perto daqui. Meus alunos são todos da região de Moema, Vila Olímpia ou Vila Nova Conceição. Talvez não fosse uma aluna. Tirei a carta de dentro do envelope e comecei a ler.

As primeiras 2 paginas eram de poemas de Ezra, Baudelaire, Hilda Hilst e Vinícius. Na terceira, diferentemente, uma apresentação.

“Olá professor,

Emancipei minha vontade de falar com você.”

Já pareceu um jeito bobo de escrever. Pulei o primeiro parágrafo e continuei lendo o seguinte.

“Trilhei o caminho da saudade esse tempo todo e, mesmo após mudar de escola, nunca deixei de te acompanhar. Gosto de ler aquele site que você montou e usa como prova final, em que pede para os alunos postarem seus textos e no final você avalia, como crítico literário.”

Há 5 anos iniciei esse blog, mas não me lembrava de nenhuma Aline.

“Você comentou no meu:

‘Muito bom, Aline, excelente. Os mistérios literários, os silêncios, continuam e continuarão a nos assombrar, a nos embasbacar, a nos arremeçar, como você disse, para lugares imprevisíveis. Perfeito!’. Mesmo com essa zoada no meu arremesso mal digitado, eu não consegui mais tirar você da minha cabeça. Talvez essa sua sinceridade e acidez tenha sido a grande culpada”

Eu lembrava da menina do arremeço. Pensei bem antes de publicar esse comentário, mas como disse à turma: Serei como um crítico, não só literário, mas também um crítico de internet, que tem o simples objetivo de arranjar uma forma de destruir os sentimentos das pessoas. Sentia certo prazer em fazê-lo fingindo ser uma encenação.

Procurei por “arremeço” no blog e achei uma postagem. Ela já tinha corrigido, mas meu comentário seguia lá. Aline foi da minha primeira turma. Terça-feira, 13 de novembro de 2012 20:37. Aline Lima, acusava a postagem. Foi uma turma do segundo ano. Ela deveria ter agora uns 22, 23 anos, talvez.

Guardei a carta de volta no envelope e joguei na gaveta. Puxei o maço de cigarros do bolso da camisa e fui pra janela. Entre o cinzeiro de madeira e o de porcelana, peguei o de madeira. Olhei pra baixo. A altura não era suficiente pra fazer algum estrago. Do quinto andar até o chão ainda sobraria um resto de vida, cheias de sequelas. A caixa de fósforos estava na mesa, alcancei, tirei um de dentro e risquei pra acender o cigarro. Jogava as cinzas no chão. Tentava fazer com que elas pegassem uma brisa de vento para cair no vizinho do terceiro. A velha que morava no andar de baixo também fumava e, naturalmente ela seria julgada culpada pelo puritano do 3. Andava engomadinho por aí. Alguma coisa ele devia esconder. Tinha cara de maníaco sexual ou de, simplesmente, um cara sem graça qualquer. Era difícil de ler, mas com certeza era uma das duas coisas. Terminei o cigarro e voltei pra mesa pra dar as notas. Já estava tudo corrigido, precisava inventar valores. Não queria passar o período de férias em uma sala de aula para recuperar notas de literatura.

O telefone tocou. Quem liga nos dias de hoje? Demorei um pouco pra descobrir como atender ligações. Acho que dos 3 anos que tenho esse celular, nunca fiz uma ligação, muito menos atendi uma. Perguntei quem era. “Flavio”, fiquei em silêncio sem saber que Flávio, “Flávio, do colégio”, completou. “Tudo bem, Flávio, o que manda?”, respondi. “Meu amigo. Será que você pode me substituir amanhã?”. Ele dava aula para o terceiro ano de gramática. Turma de vestibular. Onde todo mundo tenta desesperadamente aprender em 6 meses o que não se interessou a vida inteira. “Tudo bem”, respondi, “me manda a ementa por e-mail”, completei. Silêncio. Senti que ele queria falar mais. Deveria ter sido mais enfático na última frase. “É que…”, disse, rompendo o silêncio “me separei. Saí de casa hoje”, completou. Fiquei em silêncio. Ele continuou falando da história deles e dos motivos pelos quais achava não ter dado certo. Olhei pela janela e as nuvens encobriam a lua. Totalmente ofuscada, como um farol de fusca na neblina. Falava uns ‘hmm’ e ‘entendi…’ de vez em quando para fingir que me importava com aquilo tudo que ele queria botar pra fora. As nuvens se moviam rapidamente e um vento gelado entrava pela janela. Andei pela casa enquanto escutava a melodia do lamento. Guardei a coca na cozinha, ainda tinha um restinho. Percebi um silêncio mais duradouro na linha e disse que ficaria tudo bem, que era questão de tempo. Ele desligou. 17 minutos de ligação, avisou o celular. Desliguei o aparelho e voltei para a sala. Na TV passava o filme “Quanto vale ou é por quilo”. Uma merda de filme, mas ele fazia um paralelo com o conto “pai contra mãe” de Machado de Assis. O filme foi apresentado na faculdade, quando estava no último ano. O diretor fez uma palestra sobre o filme, mas estava mais interessado em um menino que fazia labaredas de fogo com um isqueiro e um desodorante. A cada labareda, o auditório caía na risada. O diretor ficou meio puto com aquele garoto selvagem, soltos pelo campus fazendo merda livremente. Provavelmente não falou sobre o que queria falar, tão menos ficou o tempo que pretendia. Abri o netflix no celular e transmiti pra TV, vi uma (mais uma) série de ficção pós-apocalíptica. Pareceu-me totalmente inverossímil uma cena onde uma das heroínas fazia um boquete em um dos caras que, provavelmente, não tomava banho há dias. Perdi o foco, abrindo meus e-mails a cada dois minutos. Nada novo. Fui para o quarto. Fiquei pensando no quão merda era aquele título “quanto vale ou é por quilo?”, mas quanto vale minha opinião? Talvez pese menos que um pino de coca. Fui na cozinha e cheirei o finalzinho dela em busca de algo selvagem perdido dentro de mim.


I: Objeto Selvagem
II: Garoto Selvagem
III: Instinto Selvagem 
IV: Coração Selvagem
V: Dormente Selvagem

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