Objeto Selvagem – Conto

A fome é a lata amassada jogada na lixeira e prontamente recolhida, é a escolha da vida que te obriga a valoriza-la quando não se tem mais créditos para as escolhas fáceis. A fome é forte, é urgente, mas é não igual à minha ou à de quem quer que seja. Ela tem vida própria e um propósito não muito claro também. Fome é motivação, é faculdade, é liberdade e prisão. Queima asas, traz riquezas, solidão; a fome também, dá asas à imaginação, te empobrece e te mata por dentro. A regata da fome passa rápido pela comunidade, mas há quem a veja passar lentamente. Um hospede chato que demora a ir embora, que aparece sem permissão, sem convite ou comunhão. A fome está em todos nós, mas não se parece com ninguém, é um objeto selvagem, solto e perigoso. E se por um acaso a fome sumir, senta e espera a chuva passar, que em breve ela volta.

Girei a válvula e a água saiu muito forte. O homem que veio aqui trocar os fios velhos e queimados disse que a pressão que saía dos canos era forte demais para o chuveiro e que logo o quebraria. Precisaria de um redutor de pressão, ou algo do tipo, não lembro bem do nome. Nunca o comprei. Preferia abrir bem pouquinho, mas por isso, talvez, de vez em quando, tinha que trocar a resistência que queimava quando fazia frio. Da última vez em que troquei a resistência, não consegui travar muito bem o cano e um restinho de água saía pelo lado dele molhando o pano que deixava perto da porta do banheiro. Torci o pano mais uma vez e o deixei pendurado no box para secar.

O ar seco empenava o piso de taco e a porta. Ficava difícil abri-la e, mais ainda, tranca-la. Às vezes, eu a deixava destrancada mesmo e sempre que saía, dava de cara com meu tapete. A última mulher que cismou em aparecer mais uma vez por aqui disse que se tratava de um tapete hétero. Sarcástica. Tinha formato de um fusca vermelho, o tapete, que já estava bem surrado e acinzentado de sujeira. Ela tinha formato de cor azul. Nunca tirei aquele tapete dali desde o dia em que me mudei. O registro completo de todos que entraram e saíram daqui em forma de poeira e sujeira. É engraçado pensar que provavelmente as pessoas passaram por ele mais sujas saindo do que entrando.

Dificilmente pegava o elevador pra descer até o subsolo, onde deixava minha bicicleta, mas chamei o elevador pra ver como estava meu cabelo no espelho do elevador. Estava amassado do lado direito. Ajeitei, abri a porta e saí. Tirei a Caloi 10 do gancho, perto da vaga numero 17, destranquei o cadeado, que era de números. Eu deixava os três primeiros números certos e só mudava o último de “3” pra “2”. Quando chegava perto do portão, o porteiro o abria, provavelmente por me ver pelas câmeras, ou talvez houvesse um sensor de qualquer coisa ali perto. Quando tiver a chance perguntarei pra ele. Não para o carequinha. Ele me dava certo medo. Tinha umas tatuagens de neonazista na têmpora direita. “Fabrício… Tem carta pra você”, disse seu Ricardo, um dos porteiros não-neonazi. Perguntei se era pequeno e ele respondeu que sim. Deixei a bicicleta perto do portão e peguei a carta preenchida à mão. Quem assinava era Aline e seu sobrenome não consegui entender. Botei a carta no bolso e fui para o trabalho.

O trabalho era a parte menos desinteressante do meu dia. Trabalhava em uma escola como professor de literatura do ensino fundamental. Às terças, dava aula para o 9º ano. Entrei, olhei o quadro e tinha uns cálculos no canto dele, mas ninguém estava mexendo neles. Perguntei se precisavam de ajuda pra fatorar aquela expressão. Assustaram-se por eu saber o que era fatoração, mas na época da escola era algo que eu gostava de fazer. Fatorar e balancear equações químicas. Criei até um método pra balancear equações. Fazia o MMC de todos os numerais da primeira parte da equação. Quando eram íons, multiplicava cada número pelo valor ‘carregado’,  então usava esse valor do outro lado da equação, dando prioridade para os metais, depois ametais, etc… Era algo assim. Precisaria fazer uns exercícios para lembrar exatamente de como era, mas sempre dava certo. Acabava rapidinho, enquanto meus colegas ficavam fazendo ‘tentativa e erro’.

Sentei e disse que leríamos o conto “O espelho” de Machado de Assis. Abri a chamada e disse que escolheria aleatoriamente uma pessoa para ler um parágrafo. Eu sempre pedia para a Carolina ou o Pedro lessem a primeira parte dos textos. A oratória deles era muito boa e prendia a atenção de todos da turma. Nunca era aleatória a escolha. Eu geralmente escolhia uma ou duas pessoas que não liam muito bem, como o Guilherme. Na verdade ele lia bem, mas parecia que ele falava mais rápido do que armazenava as palavras e sempre depois de ler algumas frases se enrolava um pouco. Escolhi os melhores para lerem pois era Machado. Machado que me fez gostar de literatura. Odiava livros grossos e os contos de Machado foram quem me fizeram entrar nesse mundo. O espelho foi a primeira coisa que li por vontade própria. Os contos nem eram matéria de prova, mas eu li vários e quando cheguei na prova sobre o romance Helena tirei 3,5.

Depois de Carolina, pedi para o Pedro ler e então Henrique. Bateu uma fome forte. Olhei pela porta a árvore que ficava no pátio do colégio. Percebi um silêncio. Olhei para o Henrique, “quer que eu continue?”, perguntou. Falei para seguirem a ordem das carteiras. Mariana, que estava atrás dele, seguiu lendo. Minha fome foi aumentando e me perdia pensando há quantos anos aquela árvore teria sido plantada. Não estava prestando muita atenção, mas ouvi alguém ler “Jacobina”, então sabia que ainda estavam no começo do conto. Levantei da cadeira. Pararam. “pode continuar”, eu disse, caminhando até a porta. O servente tirava umas latas da lixeira e os botava em outro saco. Ele me viu e acenou. Acenei de volta e sorri. Continuou a vasculhar a lixeira. Um pássaro marrom voava de galho em galho daquela árvore, mas não cantava. Olhei para o relógio na esperança de estar perto da hora de terminar a aula. Não estava. Voltei, me sentei e disse:

— Quem acha que o espelho era um realmente um espelho levanta a mão.

Separei a turma em espelho metafórico e literal e pedi para que discutissem, cada grupo de cada vez. Disse que valeria ponto.

Voltei para a porta. Escorei o corpo no batente com a mão no bolso e senti algo. Era a carta. Já tinha esquecido. Abri, sem rasgar muito. Não fazia ideia de quem era essa Aline. Tinham alguns poemas na primeira página. Um de Baudelaire. 

Lembrei de um trecho de um outro poema dele:

O Tédio, fruto infeliz da incuriosidade,
Alcança as proporções da Imortalidade.  


Série Selvagem:

I: Objeto Selvagem
II: Garoto Selvagem
III: Instinto Selvagem 
IV: Coração Selvagem
V: Dormente Selvagem

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5 comentários Adicione o seu

  1. Carla Cavadas disse:

    Sensacional!

    Curtir

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