Adeus Nonino e a celebração da morte – Crônica

(english below)

Queria falar sobre duas coisas: A primeira aconteceu em Agosto, quando estive em Bruxelas para visitar uma amiga dessas que são irmãs da alma. Como ela estava trabalhando eu passava o dia dando voltas despretensiosas pela cidade, sem a correria natural de quem estava fazendo turismo. Eu já estive em Bruxelas antes e já fui nos pontos mais conhecidos ( e mais desinteressantes ) da cidade e por isso me permiti perder-me dando voltas em ruas não importantes e entrando em museus não conhecidos. Descobri que justo no meu primeiro dia lá, o museu dos instrumentos musicais era gratuito; além disso ele fica em um prédio incrível no estilo art noveau, com suas estruturas de ferro retorcido, simulando a natureza da maneira mais artificial possível: é o meu estilo favorito.

A graça do museu é que você pode escutar os instrumentos que estão expostos através de gravações. Dessa maneira é possível ouvir instrumentos “extintos” e outros raríssimos. É uma experiência interessante, mas que cansa depois de 45 minutos ouvindo mais de duas dezenas de violinos e pianos semelhantes, mas ligeiramente diferentes – até chegar no bandoneón. A musica escolhida para representá-lo é Adiós Nonino, de Astor Piazzolla. Se o mundo fosse menos careta e carente de tradições, essa música seria o hino nacional da Argentina – e seria o hino mais bonito do mundo. De todas as musicas que eu escutei no museu, essa foi a única que me fez sentar para escutá-la até o final e que me emocionou de transbordar os olhos. Adiós Nonino é uma punhalada no coração latino.

A segunda coisa sobre a qual eu queria falar foi sobre uma observação feita por uma amiga neste sábado. No hemisfério norte é outono oficialmente e as folhas, com um reloginho celestial extremamente pontual, já começam a virar cor de fogo e se despegar das árvores. Uma amiga que não gosta de morar aqui reclamou com desdém das pessoas que consideram o outono a estação mais bonita do ano. Eu defendi o outono; para mim a oportunidade de ver a estações do ano de maneira tão bem marcada é um privilégio e o outono tem a sua beleza: temperaturas amenas, dias ensolarados e árvores cor de fogo. Ela me interrompe a cada argumento, esbravejando: “é a morte! A morte!”.

Fiquei com aquilo na cabeça e lembrei de uma crônica do Hemingway que falava sobre o cheiro da morte na guerra (não me lembro o nome, mas o texto está no livro “As neves do Kilimanjaro e outros contos”). O autor narrava a sua experiência na Itália e sobre o cheiro característico da morte; o quão irônico é o fato de que algo tão macabro marque a sua memória, de maneira que anos depois o cheiro ainda venha à mente, enquanto um sentimento tão celebrado como o amor é facilmente esquecido – não é possível lembrar-se do amor que se sentia por alguém que não mais amamos. O amor não marca a memória como o cheiro da morte, mesmo que seja a de que não conhecíamos.

Por mais triste que isso soe, é importante lembrar que isso só dói para os que pontuam a morte como um fim e o fim como uma tristeza. O fim entretanto deveria ser celebrado como o outono: com fogo. Eu se pudesse incendiária todos os meus fins., tacaria fogo em todos os quartos que deixei, em todas as memórias de relacionamentos fracassados. As piras funerárias na Índia seriam perfeitas para muitas coisas que se acabaram na minha vida. Nunca fui capaz de conviver com ex, de manter um relacionamento cordial com pessoas que deixaram de ser amigos, de voltar a lugares do passado sem apertar o coração.

Hoje por acaso, relembrando de Adiós Nonino, resolvi pesquisar um pouco sobre Piazzolla e descobri que essa música foi uma homenagem ao seu pai, a quem seu filho chamava de Nonino – de nono, avô – bem italiano, bem argentino. Repensei minha teoria do fogo. Adiós Nonino é uma celebração brutal da morte, bem como uma homenagem à vida. É dramático e macabro, como o cheiro da morte de Hemingway. É incendiário como o outono, perturbador como uma descarga elétrica. E assim o celebramos, e assim deve ser celebrado o outono e a morte.Existe beleza no fim de uma história, de um relacionamento de uma época da vida.Dessa mesma maneira a despedida de um verão é linda e dramática, e deveria ser celebrada com um tango de Piazzolla.


I would like to talk about two things: The first one happened in August, when I was in Brussels to visit a friend of those who are sisters of the soul. As she was working I spent the whole day taking unprecedented walks around the city, without the natural rush of a tourist. I’ve been to Brussels before and I’ve already been to the most well-known (and most uninteresting) spots in the city and so I allowed myself to get lost by walking around unimportant streets and entering unknown museums. I discovered that right on my first day there, the museum of musical instruments was free; in addition it sits in an incredible art noveau style building, with its twisted iron structures, simulating nature in the most artificial way possible: it’s my favorite style.

The grace of the museum is that you can listen to the instruments that are exposed through recordings. In this way it is possible to hear “extinct” and other very rare instruments. It’s an interesting experience, but it’s tiring after 45 minutes listening to more than two dozen similar but slightly different violins and pianos – until you reach the bandoneon. The music chosen to represent him is Adiós Nonino, by Astor Piazzolla. If the world were less grotesque and devoid of traditions, this song would be Argentina’s national anthem – and would be the most beautiful anthem in the world. Of all the songs I heard in the museum, that was the only one that made me sit down to listen to it until the end and that moved me to overflow my eyes. Adiós Nonino is a stab at the Latin heart.

The second thing I wanted to talk about was a note made by a friend this Saturday. In the northern hemisphere it is officially autumn and the leaves, with an extremely punctual celestial clock, are already beginning to turn fire-red and take off from the trees. A friend who does not like to live here complained with disdain of the people who consider autumn the most beautiful season of the year. I defended the fall; for me the opportunity to see the seasons so well marked is a privilege and autumn has its beauty: mild temperatures, sunny days and trees of fire. She interrupts me with every argument, raving: “it’s death! The death!”.

I got it in my head and I remembered a Hemingway chronicle that talked about the scent of death in the war (I do not remember the name, but the text is in the book “The Snows of Kilimanjaro and Other Stories”). The author recounted his experience in Italy and the characteristic scent of death; how ironic is the fact that something so macabre marks his memory, so that years later the smell still comes to mind, while a feeling as celebrated as love is easily forgotten – it is not possible to remember the love that was felt for someone we no longer love. Love does not mark memory as the smell of death, even if it is the death of one we did not know.

As sad as it sounds, it is important to remember that this only hurts those who punctuate death as an end and the end as sadness. The end however should be celebrated as autumn: with fire. If I could set fire to all my ends, I would set fire to every room I left and to all the memories of failed relationships. The funeral pyres in India would be perfect for many things that are gone in my life. I have never been able to get along with ex boyfriends, to maintain a cordial relationship with people who have ceased to be friends, to return to places of the past without heart.

By chance, remembering Adiós Nonino, I decided to research a little about Piazzolla and discovered that this song was an homage to his father, whom his son called Nonino – nono, grandfather – very Italian, very Argentine. I reconsidered my theory of fire. Adiós Nonino is a brutal celebration of death as well as a tribute to life. It is dramatic and macabre, like the smell of Hemingway’s death. It is incendiary like autumn, disturbing like an electric discharge. And so we celebrate it, and thus must be celebrated autumn and death. There is beauty at the end of a story,of a relationship,of a period of time in life. In the same way the farewell of a summer is beautiful and dramatic, and should be celebrated with a tango from Piazzolla.

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