Vestido de festa

Ontem de tarde fui pra rua com minhas amigas e levei meu elástico. Minha mãe sempre deixava um restinho de elástico pra a gente brincar. Ela passa todas as tardes costurando e consertando as roupas dos vizinhos. De manhã ela faz comida, bem cedinho, antes de meu pai sair para trabalhar. Ele é sapateiro lá no centro da cidade.

Chamei a Jésica e Lorraine. Brincamos a tarde toda. Pulei até a altura do pescoço da Lorraine, que era mais alta que eu. Uns meninos saíram correndo lá no final da rua na nossa direção e gritavam “corre, corre!”. Demorou uns segundos para chegarem em nós e lá no finalzinho da rua dava pra ver uns garotos da outra rua com cabos de vassoura e pedaços de madeira na mão. Todos correram, menos eu. Não conseguia me mexer e as meninas gritavam “Roberta! Roberta, Vem!” e eu não conseguia me mexer. Um dos meninos, irmão da Jésica, caiu no chão enquanto fugia. Um dos garotos da outra rua chegou perto dele e puxou uma faca. Parecia quando meu irmão e seus amigos brincavam de espadinha, mas ele gritou de um jeito que nunca tinha ouvido. O sangue caiu no chão e eu não me mexia. Só olhava, enquanto isso o garoto com a faca olhou pra mim e disse “Cala a boca”, mas eu estava calada e parada ali, sem conseguir me mexer. Seguiram correndo atrás dos outros e o irmão da Jésica tossia e vomitava um liquido vermelho, parecia o sangue que saía da sua barriga. Minha mãe saiu na rua e me puxou pra dentro de casa. Ela chorava e eu não entendia. “você tá triste, mãe?”. Ela não falava nada. Ligava sem parar pra alguém pelo telefone. Ninguém parecia atender. Ouvi um barulho de carros de polícia, mas era uma ambulância. Levantaram o irmão dela numa maca e levaram embora pro hospital.

Meu pai chegou em casa e minha mãe me mandou ir para o quarto. Acho que estava triste comigo. Escutei ela conversando com meu pai. Fui na pontinha dos pés pra perto da porta e botei meu ouvido nela. Eles pareciam estar brigando:

—Não dá mais, Renato. Não dá pra viver mais aqui. Não percebe que sua filha quase morreu hoje?

—Amor, aqui é o único lugar que podemos pagar.

—Então é isso?

—Infelizmente sim.

Eles disseram mais umas coisas, mas pararam de gritar. Eu ouvia o choro dela e depois passos na vindo pro meu quarto. Saí correndo pra cama e me fechei meu olho bem forte. Meu irmão entrou no quarto. Deitou na cama. Ouvi ele chorando baixinho a noite inteira. Uma hora ele disse:

—Vou matar esses desgraçados.

Eu dormi. Acordei e estava todo mundo em casa. Meu pai não foi trabalhar, minha mãe não fez comida. Meu pai sempre puxava meu pé de manhã pra ir pro colégio. Hoje não. Fui pra sala e tinha um vestido preto e uma roupa de festa pro meu irmão.

—Vamos meninos, hoje é o funeral do Augustinho.

Fui o caminho todo pensando o que seria um “funeral”, mas minha mãe estava muito triste. Fiquei sem falar nada. Só andamos, e a cada casa que passávamos, mais gente se juntava. Andamos, todos com roupa de festa, naquele calor, mas ninguém reclamava. Ninguém falava nada.

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