Cinza Chumbo

Depois de uma noite mal dormida, ela acorda e pergunta se pode usar minha escova de dentes. Eu não durmo bem se eu não durmo sozinho, acordo mal humorado e não gosto de conversar no café da manhã. Ela não cala a boca desde que acordou, ocupou a minha cama inteira e quer usar a minha escova de dentes. A minha sorte é que eu compro escovas de dentes no trem. Abri a gaveta do banheiro, tirei um rolo de escovas, destaquei a escova amarela de uma das pontas e a entreguei. Ela se sentiu um pouco ofendida. Honestamente, foda-se.

Saiu do banheiro 20 minutos depois enrolada na minha toalha. Sorriu pensando que eu estava admirando seus contornos. Eu pensava que ia ficar sem toalha, pois a única outra que eu tinha estava toda esporrada no cesto pra lavar. Ela me pergunta então o que há de café da manhã. Eu lhe respondo: “granola e iogurte, mas tem torrada e philadelfia também.” Ela sorri e consente, sentando-se no banco alto da bancada da cozinha americana. Fiquei olhando praquela garota que roubou a minha cama, quis usar minha escova de dentes e se esfregou na minha toalha e conclui: essa vagabunda quer que eu faça a comida dela. Pensei alto pela cara talvez, porque ela ficou sem graça e ofereceu-se para pegar os talheres e passar o café.

Tomei o café mais merda da minha vida. Só pessoas certificadas deveriam ter permissão pra passar café e pessoas sem paladar não deveriam nem se oferecer pra passar café pros outros. Eu gastei uma nota na Casa do Grão escolhendo essa porra desse arábica que foi moído na hora pra mim e tive que assistir e presenciar a morte de duas colheres de pó nessa água suja que ela fez.

Outra coisa: psicotécnico pra passar a noite deveria ser exigido por lei. Eu não sei mandar ninguém sair da minha casa, mas acho que vou fazer uma placa de acrílico com os dizeres “o proprietário se reserva ao direito de expulsar qualquer pessoa a qualquer momento neste recinto.” e eu acho até que vou voltar a fumar pra poder colocar a placa no meu colo enquanto eu acendo um cigarro na poltrona da sala.

Essa mulher trabalha no mesmo prédio que eu e chega no mesmo horário (e provavelmente vindo do mesmo metrô) no trabalho. A gente entrava pela porta da garagem do prédio e pegar o elevador juntos; eu ia até o terceiro andar e ela eu não sei. Com o tempo começamos a trocar meia dúzia de palavras até o dia em que ela me prensou contra a parede da primeira vaga da garagem: cinza chumbo com listras amarelas na altura da visão do motorista. A vaga era do meu chefe e naquele mesmo dia eu recebi uma chamada do RH.

Não fui demitido porque eu aumentei a produtividade do meu setor em 17%, mas fui aconselhado a não me submeter a esse tipo de comportamento no ambiente de trabalho. Então no dia seguinte eu falei pra ela que ela ia pra casa comigo depois do expediente, pra me encontrar na saída do metrô que ficava próxima à agência e aconteceu tudo o que aconteceu: o café, uma merda, o cu não quis dar e sujou a minha toalha.

Eu disse pra ela que era casado e que aquilo não poderia se repetir. Ela marejou os olhos e disse que não acreditava em mim, que a gente “era pra ser”. Eu ri né, porque não tem nem o que dizer pra uma pessoa que te diz isso. Eu disse a ela então que tudo bem, não era verdade mesmo, mas se eu estava mentindo ela deveria ter entendido a mensagem, e na hora em que ela foi embora eu apalpei o meu casaco pendurado perto da porta, pra ver se minha carteira estava lá.

No dia seguinte soube que o RH dela chamou-a também, com um dia de atraso porque foi pela câmera de segurança que descobriram que ela me atacou. Como ela não aumentou nada em 17% na empresa onde trabalhava foi demitida e eu, graças a Deus, nunca mais a vi na minha vida.

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