A última parada de ônibus – Conto

Venâncio tem uma vida decente e um nome de merda. Não seria tão merda se Venâncio pertencesse à geração dos filhos da Angélica, que tem nomes escrotos, assim como todas as crianças de sua geração. Venâncio tem 25 anos em 2017 e isso significa que ele era o único da sala com nome de avô com os bagos de fora. Venâncio era porém mais politicamente correto que qualquer avô com os bagos de fora. Vinha de uma cidade pequena do interior do estado e fazia as atividades físicas desinteressantes que a sua cidade lhe provia: caminhadas.

Venâncio se formou em engenharia com um C.R. decente, algum contato profissional com os professores e, talvez por isso, ingressou diretamente no mestrado. Seu pai lhe disse “é assim que se faz” e lhe deu um aperto nos ombros. Venâncio era alto e seu pai era mais alto. Venâncio puxou o pai em altura e a mãe em cabelos. Puxou o pai em sorriso e a mãe em olhos. Venâncio era isso, não tinha muita coisa pra contar sobre ele, até o dia de ontem, quando Lisa, sua namorada de cinco anos, lhe contou que é atriz pornô.

Lisa conheceu Venâncio na escola. Ela era da turma da última sala do corredor e eles se conheceram na festa de uma amiga em comum de uma das salas do meio. Lisa tinha quase meio metro a menos que Venâncio e uma risada insuportável, mas o som na festa estava alto e o segundo encontro dos dois foi no cinema para ver um filme do 007 que tinha saído recentemente, de maneira que Venâncio só soube de sua penitência quando já era tarde demais. Lisa era tradicional e Venâncio namorava de mão na cintura. Demorou muito tempo para que alguma coisa acontecesse e quando finalmente aconteceu, Lisa ganhou um devoto.

Lisa estudava direito numa cidade diferente da de Venâncio. Eles se encontravam nos feriados e, eventualmente, em finais de semana, na cidade natal de ambos, que ficava no meio do caminho das cidades atuais de ambos. Quando eles se encontravam por lá, brincavam de fazer as coisas da época da escola como as caminhadas, ou sentar na mesa da janela de uma lanchonete do lado do campo de futebol e assistir as pessoas passarem. Eles assistiam o amadurecimento um do outro e isso às vezes causava estranheza. Venâncio ficou bonito, Lisa ficou feia, mas gostosa.

No mestrado Venâncio tinha mais amigas que amigos. Ele gostava do sentimento de macho alfa, líder da matilha. Enquanto na faculdade de engenharia não havia quase nenhuma mulher, as poucas que haviam andavam ao redor dele e isso era regozijante – ou enaltecedor – qualquer palavra que combine com Venâncio. Enquanto isso, Lisa era apenas mais uma de um curso que não costumava ter qualquer disparidade de gênero. Lisa tinha alguns amigos e amigas e em muitas ocasiões sentiu inveja de Venâncio, não ciumes como se espera, mas inveja porque ela mesma gostaria de ter o seu próprio harém na faculdade.

Em um final de semana desses de encontro no meio do caminho, Venâncio e Lisa voltavam de ônibus para a casa dos pais dele, depois de um dia inteiro dando voltas no centrinho da cidade. Lisa estava sentada na janela e pegou a mão de Venâncio, que estava cada dia mais adornada. Venâncio achava que mulheres gostam de homens com muitos anéis. Venâncio não sabia que mulheres preferem homens sem nenhum anel. Lisa apertou sua mão por cima e com a outra que lhe sobrava, fechou o punho de seu companheiro como tentando protegê-lo do que estava por vir. Ela olhou nos seus olhos com serenidade e disse que era atriz pornô.

Os próximos minutos foram tomados por um silêncio. Venâncio não disse nada e Lisa não esboçava qualquer tipo de sentimento, esperando primeiro para ver o que ele achava disso. Ele então disse que não acreditava e ela lhe passou seu nome artístico, Kitty Khaleesi, e Venâncio entendeu o atual cabelo platinado da namorada. Ele procurou rapidamente pelo nome e encontrou uma sequência de vídeos da Khaleesi amordaçada sendo violentada por um Dothraki, Khaleesi montada em um cara fantasiado de dragão, Khaleesi fazendo sexo oral em um anão e Khaleesi usando uma cinta em um outro rapaz que aparentemente era para ser o bastardo dos Stark.

Venâncio sentiu inveja e não ciumes. Sentiu inveja da namorada por levar a vida que ele fingia levar com o seu harém de mentira, sentiu inveja porque os pênis de todos aqueles caras tinha o dobro da espessura do seu e ele claramente não satisfazia a namorada com aquele pau fino do qual ele tinha tanto orgulho. Quando Venâncio recuperou sua sobriedade, estava sentado no ônibus desligado no ponto final há mais de duas horas, a Khaleesi não estava mais lá e nunca mais apareceu, mesmo com todas as tentativas de contato de Venâncio. Com toda a sua vida sem graça e com o prognóstico de um futuro sem graça, Venâncio alcançou o ponto mais interessante da sua vida com um namoro de adolescência com uma atriz pornô.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s