Travesseiro de carne.

O último encontro tinha sido bem legal. Tanto que marcamos mais um. Flávia me chamou pra sua casa. Combinamos no domingo às 18h. Falou que cozinharia algo para a gente.

Estava começando a acreditar que a clonagem do meu cartão de crédito tinha sido apenas uma coincidência, apesar da mensagem que tinha recebido no dia anterior de um número de são Paulo, dizendo que eu tinha desativado meu cartão de senhas —  o que era verdade — e precisava entrar no portal para fazer sei lá o que. O site não tinha nada a ver com o banco. Preferi acreditar que era só uma coincidência de novo.

Cheguei lá, ela me levou para a mesa e começamos a fazer a massa de um tal de dumpling. Ela já bebia vinho e encheu uma taça para mim. O lance do dumpling parecia muito a ideia do gyosa, mas não disse nada. A receita era da avó chinesa e acho que gyosa é coisa do Japão. Não queria ofender ninguém. E cara, cozinhar não é meu forte. Preferi ficar calado. Mas, na boa. Era um pastelzinho, ou melhor, um travesseirinho de carne de porco.

Ela perguntou se eu não comia alguma coisa. Respondi que comia qualquer coisa, mas que era alérgico à pimenta do reino, mas nem tanto. Era só não exagerar na dose.

No final, ela tinha feito uns quinze pasteizinhos e eu só um, com muita dificuldade.

Comemos bastante e fomos ver um filme de terror no Netflix. Era uma história de assombração, casa mal-assombrada, algo do tipo; não prestei muita atenção. Estava me sentindo muito sonolento.

— Dorme aqui — Ela disse.

Não lembro nem de ter respondido.

Acordei na cama dela, estava tudo escuro, e ela estava do meu lado. Levantei um pouco a cabeça e vi um relógio no criado mudo. 02:56. Ela virou, me deu um beijo e me abraçou, virando pra mim.

—Adoro ficar assim. Eu tinha um travesseiro desse tamanho — fez com a mão o tamanho dele. Grande, de mais ou menos um metro —. Tive um namorado que falava que tinha ciúmes do meu travesseiro, mas nem sei mais onde ele está.

—Hmm, que delícia… — respondi a abraçando, cheio de sono.

Comecei a sentir uma ardência no nariz, mas o sono era forte. Pisquei o olho, sentindo o corpo bem pesado. Acordei de novo. No relógio 03:14. Estava morto, algo não me deixava dormir. Meu nariz estava todo entupido. Fungava bem de leve pra não acordá-la. Não queria fuder a noite dela na primeira vez em que dormiríamos juntos. Seguia abraçada e fazia uns carinhos rápidos em mim. Mudei minha posição, ficando de barriga pra cima e senti uma forte pontada na barriga. Uma vontade fudida de peidar, mas não queria peidar ali, logicamente. Fui segurando e, depois de uns minutos, parecia que não tinha mais espaço, ironicamente, nem pra um peido. Ouvia minha barriga roncando. Achei uma posição boa, pois de barriga pra cima produzia peido em massa e de lado, meu nariz começava a arder, talvez por alergia a algum fungo ou alguma coisa no travesseiro. Fiquei na diagonal, digo, o corpo na diagonal, sem estar de barriga pra cima nem de lado. No meio termo, inclinado, e consegui dormir mais um pouco.

03:35. Resolvi levantar. Impossível conseguir ficar ali mais tempo com essa quantidade de gases dentro de mim. Ela disse que o banheiro principal estava ruim, “vai no da cozinha”, disse. Banheiro simples, não tinha espelho nem nada. Sentei e senti que os peidos seriam bem altos. Peguei um pouco de papel higiênico e tentei abafar meu cu enquanto peidava. Mesmo assim era um barulho foda. Nunca tinha ficado com tantos gases assim. Doía a barriga de tanta coisa que tinha dentro de mim, mas mesmo assim, estava morto de fome. Comemos pra cacete, mas parecia que não comia há dias. Voltei e procurei meu celular na sala. Achei-o desligado e tentei liga-lo. Estava sem bateria. Esse celular tava foda, mas jurava que tava 100% antes de sair de casa. “Foda-se”, pensei, e voltei pra cama. Ela me abraçou forte e disse: “Que travesseiro gostoso!”; dormimos.

Acordei novamente com o nariz todo entupido, boca seca e com uma vontade louca de peidar. Às vezes acordo com meu próprio peido, mas sempre na dúvida se estava sonhando, ou se realmente tinha acordado com o barulho do meu próprio cu. Cocei a bochecha e, puta que pariu, que barba já tava escrota! Esquisito porque geralmente demora uns dias pra crescer. Tinha aparado anteontem, mas já estava uma merda. Deveria ter aparado mais. Não queria levantar de novo, já eram 04:11 e decidi que esperaria até às 6h e iria pra casa. Dormi. Dessa vez pesado.

Acordei babando um pouco pelo canto da boca. O ar não estava mais seco. Parecia até que estava chovendo do lado de fora da janela, que estava fechada. Fazia um pouco de frio. Esquisito pois estava quente e seco há pouco. Não pareceu mais tão esquisito quando resolvi olhar o relógio. 02:35. Estava de noite, não tinha como ser 2 da tarde. O relógio devia estar louco. Olhei alguns minutos passando para ver se estava ‘caminhando’ normalmente e, até as 2:41, ele estava normal. Era um relógio com fio. Talvez tivesse acabado a luz e ele tenha zerado em algum momento. “Mas, se fosse isso, já deveria estar claro”, pensei. Seria no mínimo 06:52 da manhã e não tinha um feixe de luz, sequer, por trás da cortina.

Quando minha visão se acostumou com o escuro, vi um granulado bem fino, um pó mesmo, preto, no meu travesseiro. Peguei um pouco com o dedo e cheirei de leve. Espirrei na hora. Flavia se mexeu um pouco e começou a se revirar. Fiquei quieto e a esperei voltar a dormir normalmente. Peguei um pouco mais daquele pó e provei. Era pimenta. Pimenta do reino.” Que porra é essa?!”, pensei. Levantei bem lentamente, saí da cama e fui para a sala. Procurei meu carregador dentro da mochila e pus meu celular pra carregar. Nada acontecia. Testei em umas 3 tomadas e nada. Resolvi abrir o celular. Tirei a capa de proteção, a capa traseira e o bizarro: estava sem bateria. Me senti tonto. Minha visão foi fechando e cada vez via menos coisas no canto da visão. Senti que ia cair e fui pra perto do sofá, mas antes de cair, vi Flávia parada na minha frente me encarando e sorrindo.

Acordei sozinho na cama. Já era de manhã, mas não consegui me mover. Apenas mexia os olhos e não sabia mais o que era real. Parecia uma coisa que tinha lido uma vez: paralisia de sono. Quando acordamos sem conseguir nos mexer por algum motivo. Olhei para o lado e o relógio marcava 10:34. Fiz um esforço para me mexer. Em vão. Senti novamente uma forte sonolência. Pisquei os olhos e já eram 13:11. Mas já conseguia mexer meus dedos, bem de leve. Fui começando a sentir meu corpo e me levantei. Já eram 15:02.

Em cima da mesa estava meu celular e, ao lado, um potinho de vidro escrito “extrato de beladona”. Peguei minhas coisas, abri o celular e ele estava com a bateria, porém, sem carga. Guardei tudo e saí de lá.

Chegando no meu prédio, o porteiro me chamou enquanto eu passava pela guarita:

— Ow Campeão! — me chamando.

— Fala! — respondi.

— É… A síndica que falar com o senhor. Depois toca lá no 42.

—Beleza.

Entrei em casa. Um cheiro de podre fudido, mas nem fui ver a cozinha. Devia ter deixado alguma comida do lado de fora.

Liguei meu computador.

“Olá, Fernando

11/10/2017”

Que porra de computador louco. Hoje é 04/9, segunda. Deve ter acabado a luz aqui também e essa porra ficou louca de vez. Pluguei meu celular na porta USB e o liguei. Aí a coisa ficou esquisita. Meu celular estava sincronizado com essa porra. 04/09/2017, 17:34.

Começaram a entrar centenas de mensagens de SMS, whatsapp, notificações de instagram totalmente desproporcionais para um não-blogueiro como eu, e-mails, 76 ligações perdidas. Não abri as mensagens, mas dava pra ver que todas tinham algo como “cadê você?”. A mensagem mais recente era da Flávia, que tinha acabado de entrar.

Abri. Ela dizia:

“cadê meu travesseirinho?”

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