O que há com meus móveis? – Crônica

— Toda vez que venho aqui os móveis estão em lugares diferentes. Quando arranja tempo pra fazer isso?

— Madrugada.

— Os vizinhos não reclamam?

— Às vezes. O de baixo normalmente reclama com o porteiro, que me liga. Não tem culhão pra ligar pra cá.

— Hum… Você não gosta de ninguém mesmo. Aposto que muda os móveis para ninguém se sentir a vontade aqui.

— Seria bom se funcionasse.

— Idiota.

— Sempre voltam e sempre ficam bem a vontade no sofá, onde quer que ele esteja. Tipo você aí, jogada nele.

— Gosto dele. Gosto de ficar te vendo sentado aí escrevendo merda e bebendo vinho em copo de plástico. Um filme de terror gratuito.

— Copos de plástico não quebram. Cansei de caçar microcacos de vidro.

— Por isso o chinelo?

— Não… É pra economizar banho mesmo. Tá sempre imundo o chão.

— Vem cá.

— Bebi demais.

— Chupo.

— Ok. Vou dar uma mijada. Deixa essa lixeira aí por perto. —, disse, chutando a lixeira pra perto dela.

— Traz água na volta!

— Tá bem à vontade mesmo…

       Voltei pelado, só de chinelo e sem água. Não era Flávia, nem Lorena. Não fazia questão de deixá-la a vontade… Nem sabia mais seu nome. Talvez Clara, Lurdes ou solidão.

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