A emancipação do cu – Crônica

Cu nasceu junto com seu pai. Cus, em geral, nascem junto com seus pais. No começo de sua existência, tinha dificuldade de aceitar quem era. Não gostava de ser Cu. Preferia que o chamassem de Fuleco, ou variações. Seu pai o chamava de Fulequito.

o Cus estão presentes na humanidade desde sua origem. Com altos e baixos, ganham hoje, notoriedade, liberdade e certa fama. Coisa que não acontecia na época em que Fuleco nasceu. Muitos intelectuais, poetas, músicos e própria população em geral, ajudaram muito para que fuleco e sua classe, tivessem mais tranquilidade para serem o que são, sem vergonha.

Recentemente foi achado um poema de Roberto Piva que mostra bem a liberdade com que tratava o Cu. Publicado recentemente, alguns anos após sua morte, o POEMA ELÉTRICO DO CU começa assim:

músculo de veludo na boca de todos os feirantes
            torpedeiros    meninas de internato
            negociantes   padeiros    farofeiros
            torcidas    exércitos de humanocultura
            onde você habita alucinante como
            promessa derradeira
cu boquiaberta entrada franca dos demônios
            pesadelo dos adolescentes    fogueira da
            solteirona em férias    árvore genealógica
            da Cloca Mater onde foi chocado
            o ovo humano numa temperatura
            de 300 sóis(…)”

Talvez o grande difusor do cu, no meio artístico, nessa nova fase da emancipação do cu como ser livre, pela sua fama, ainda mais por tê-lo escrito em exílio, devido à represália do regime militar, tenha sido Ferreira Gullar. Seu poema mais famoso e mais importante, o POEMA SUJO, era livre em seus versos e vocabulários. Falava de cu, boceta e bosta de porco abertamente, como no trecho:

“azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu

tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu”

Já na literatura norte-americana, temos o exemplo do Escritor Charles Bukowski e uma passagem que gosto de chamar de “os 13 cus de Bukowski”, no romance “CARTAS NA RUA” de 1971:

“O que há de errado com os cus, baby? Você tem um cu, eu tenho um cu! Você vai ao mercado e compra um pedaço de filé, que é parte de algo que um dia teve um cu! Os cus cobrem a Terra! De certa forma até as árvores têm cus, mas a gente não os vê, elas apenas deixam cair as folhas. Seu cu, meu cu, o mundo está cheio de bilhões de cus. O presidente tem um cu, o garoto que lava carros tem um cu, o juiz e o assassino têm cus… até o Alfinete Roxo* tem um cu!”

*Alfinete Roxo é um dos personagens do romance.

Os 7 gatinhos, filme de 1980, baseado na obra do grande Nelson Rodrigues, tem uma cena cômica e emblemática, onde Arlete (Regina Casé), corre em volta da piscina pelada fugindo do deputado enquanto grita:

“Você é deputado? Eu sou Arlete, caguei. Não vai me cumê”

“Não vai me cumê não, você é um babacão”

Essa parte não tem nada sobre cu, apenas o cu da Regina Casé de fora, mas eu gosto dela, então foda-se.

O poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) teve em 1992 alguns poemas de cunho erótico publicados. Um deles é “A bunda, que engraçada”

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na caricia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
redunda.

Eu diria que Carlos Drummond foi o grande introdutor do Cu na sociedade, de forma mais branda, claro, por se tratar de uma época em que apenas falar seu nome, era motivo de repulsa, mas vamos deixar as referências um pouco de lado, pois existem diversas, como na música, seja com o funk do Mr Catra ou com o rock de Rogerio Skylab ou os termos na boca do povo como “Teu cu”, ou diversas paródias de músicas ou de desenhos infantis. O cu nunca esteve tão presente na vida do brasileiro como agora. O Cu está agora emancipado como ser vivo e independente.

Cu, Fuleco, saiu de casa cedo para trabalhar. Seu pai o levou para um restaurante no dia anterior e ele não parava de soltar arrotos pela manhã. Eram incontroláveis. Ficava um tanto sem graça, pelo cheiro forte que subia toda vez que abria a boca para deixá-los sair. Trabalhava com o pai. Eram estivadores na região do Porto Maravilha do Rio de Janeiro. Um trabalho duro, com muita força e suor envolvidos. Às 18h terminavam o expediente e sempre iam para casa de trem até a estação de realengo. Sentados na barraquinha do Jonas, comendo um hot dog e bebendo umas itaipavas, Cu sempre pedia para seu pai que o dele fosse sem milho, mas seu pai não o escutava. Na verdade, quase nunca o fazia. A relação entre os dois sempre foi difícil. De pouca conversa e contato físico, Cu sofria. Nunca tinha ganhado um carinho sequer de seu pai. Apenas de sua mãe, quando ele deixava, pois só era possível quando seu pai estava bêbado demais para impedi-la. Cu lia e ouvia muitas dessas referências que colocavam sua classe como uma classe livre, independente. Quando seu pai dormia, cantarolava aquela canção do Dedo, língua, cu e buceta do Rogério Skylab:

“Dedo, língua, cu e boceta,
Dedo, boceta, língua e cu.
Dedo na língua, língua no dedo,
Cu na boceta, boceta no cu.
Dedo na boceta, língua no cu,
Língua na boceta, dedo no cu,
Dedo, língua, cu, boceta também,
Boceta vezes dedos, noves foras CU
Língua, língua, língua, dedo no cu,
Dedo de boceta, língua do cu.
Dedo, língua, cu e boceta,
Dedo, boceta, língua e cu.”

ou seu outro grande clássico “Câncer no cu“:

“Qual a diferença entre eu, Ana Maria Braga e Mario Covas?
Qual a diferença entre eu, Ana Maria Braga e Mario Covas?
É que o Mário Covas já morreu
Ana Maria Braga tá morrendo
e eu também um dia vou morrer
De quê? 

Câncer no cu, Câncer no cu
Câncer no cu, Câncer no cu
Câncer no cu, Câncer no cu
Câncer no cu, Câncer no cu”

Numa de suas entrevistas, disse: “Como um ser humano vai passar pela sua existência sem dar o cu?”. Skylab não foi um pai tão libertário. Demorou alguns anos para emancipar seu filho, mas era uma grande referência para Cus presos. Em 2016 escreveu um grande relato, que Cu guarda emoldurado na parede do seu quarto:

“Agora eu quero falar uma coisa muito séria. uma das mais sérias que eu já falei em toda minha vida. Você já deu o cu? É isso mesmo, o cu. Eu gostaria, inclusive, que o meu interlocutor fosse um pai de família. Então eu volto a perguntar: você já deu o cu? Eu já dei duas vezes. Na primeira, estava completamente bêbado. Não foi bom. Mas na segunda vez, me encontrava lúcido. Doeu pra caralho. Acho que todo mundo deveria dar o cu pelo menos uma vez na vida. É um remédio infalível para os moralistas. Dói um pouco, não vou negar. Mas é uma terapêutica que deveria ser estendida a toda comunidade.”

O Cu ta na boca do povo. O Cu se liberta na comunidade LGBTQI+, o Cu se liberta, pouco a pouco, com os heterossexuais também. O Cu, parte integrante do corpo, rejeitada por gerações passa a ser aceita como parte ativa do corpo, e não só algo de importância fisiológica. Alguns poetas provocam, como Abhiyana em um trecho de um de seus poemas no livro Textos putos e ilustrações pornográficas aleatórias:

“Cu é feito para dar
Cagar é consequência” 

Cu se orgulha de alguns pais e de outros não. Cu se orgulha de alguns cus, que romperam a barreira do moral e ético de sua época. Cu se arrepende de não ter estado sempre pronto, sempre ali. Cu se arrepende de nunca ter se rebelado. Cu não teve carinho, não foi quisto, não foi visto, mas sabe que isso não adianta de nada. É só lamentação. Cu precisa andar com suas próprias pernas e se emancipar. Precisa ser tratado como um ser único, independente e não parte de outro ser. Cu trava quando ouve I Put a Spell On You” e fantasia com um mundo que talvez não veja. Um mundo livre, pois sabe que tudo tem um fim, mesmo que não alcance seu ápice potencial. Porque toda liberdade artística e cultural é, em algum momento, freada por algum fenômeno. O cu foi tão livre nos primeiros séculos depois de cristo, mas logo foi inibido pela igreja. Passou por tempos escuros, teve que se esconder. Fazendo o mínimo para ser percebido. Foi-lhe negado até o direito à saúde. Ouviu histórias de seus antepassados, de tempos livres. Até os imperadores romanos dos mais poderosos tinham orgulho dos seus. Deixavam-nos livres, como Cu fantasiava estar, ouvindo aquela música que o travava todo e cantava junto, bem baixinho:

“You know I can’t stand it
You’re runnin’ around
You know better daddy
I can’t stand it ‘cause you put me down
Oh no
I put a spell on you…”
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