Vanessa Travesti, 29

A primeira lição de mundo real que Vanessa aprendeu foi que não se podia controlar o que as pessoas pensavam sobre as outras e, além disso, não podia mudar as vontades delas de acordo com as suas. Por mais que alguém amasse outra pessoa, estar junto não era um trabalho independente de duas pessoas e, o que ela era para si mesma, dificilmente seria o que ela era para qualquer outra pessoa.
A segunda lição era que não dava para viver das coisas que se tinha feito no passado. O respeito é algo passageiro. As pessoas crescem e se esquecem, mas quem morre, de fato, é quem fica parado, sem novas realizações.

Um grito vinha ecoando em sua mente todos as manhãs dos últimos meses: “Vamos em frente!!!”. Resolveu parar de tentar tampar seus ouvidos metafóricos e ouvi-lo. Resolveu se livrar de toda a farsa, o figurado, o irônico e ir em busca do real. Levantar seu cu daquele sofá metafórico que era a vida arrastada que vinha levando, pensando na vontade e opinião alheia, e seguir. Esse sofá tinha que ir para o lixo para que pudesse ser realmente feliz. Não importava o que ela fizesse. Se transvestia-se, ou se prostitua-se. Antes de ser o que ela fizesse, ela era o que ela escolheu ser: Vanessa.

Pegou uma toalha que já estava fedendo demais para estar pendurada no box. Secou-se e a jogou no cesto de roupas sujas. Sempre tinha boas reflexões durante o banho. Estaria a salvo de muitas merdas se o mundo fosse uma grande ducha de água quente.

Das 14 às 22h trabalha de saladeira no restaurante Balada Dix. Adora conversar sobre as coisas da vida. Até mais do que fazer sexo, “sexo também é bom, mas dificilmente consigo fazer uma comunicação aos pés de uma boa conversa olhos-nos-olhos tomando um suco de açaí”, disse uma vez para um rapaz do tinder com quem marcou um encontro, mas nunca apareceu.

Faz dois anos que começou seu processo de mudança de sexo e a cirurgia já está marcada para daqui a dois meses. Ainda é possível ver traços de João Pedro Alcântara nela. Quer completar essa mudança, deitar na mesa de cirurgia, quando não o ver mais em nenhuma parte do seu rosto.

Gosta de funk. Dançar… Até o chão e, algum dia, não a olharão do jeito que a olham. Não por estar mais Vanessa e menos João Pedro, mas porque acredita que o mundo está sempre ficando mais tolerante e carinhoso com a diversidade. Vanessa é uma pessoa otimista, gosta de ver o mundo sempre pelas boas atitudes das pessoas a sua volta, não assiste programas sensacionalistas, nem lê jornal, que estampam a cada dia mortes e tragédias sem fim. Diferente de Luciano, nascido em irajá, gosta de assistir o programa do Marcelo Rezende todos os dias e já não vê como uma coisa estranha e ridícula a voz que ele faz.

Nunca gostou de tendências. Evitava ao máximo fazer o que a massa fazia. Recusava-se a botar no seu perfil que era uma CDzinha (crossdresser). Sentia-se e orgulhava-se de ser Vanessa Travesti, 29 anos, como estava em seu perfil.

Não foi uma criança que vestia as roupas ou maquiagem de sua mãe escondida. Sempre as comprou. A primeira vez que usou um vestido foi aos 19 anos, quando já tinha saído de casa. Aprendeu sozinha a se maquiar e nunca teve namorado ou namorada. Na adolescência se envolveu com algumas mulheres, mas ainda não entendia por que não se sentia a vontade. Atualmente sai com homens e mulheres, mas só conseguiu ficar a vontade com outra pessoa, quando descobriu quem era, de fato. Só conseguiu amar, como Vanessa. Nunca amou como João Pedro.

Luciano entrou no tinder numa noite enquanto estava na sua escala de folga. Trabalhava embarcado em Houston, Texas, pela empresa Beiróz Calvão, mas ficava em Irajá com a família nas folgas.

No seu perfil, Luciano, 27. Deixava a descrição: “Sem signos, Osho, ou coisas de golpe. Meu nome é Luciano, do latim LUCI+ANUS, ou seja, ânus luminoso, de luz própria: ânus estrelar.” Quando comentavam sobre isso ou o criticavam pelo chat, Luciano rebatia: “Na verdade esse não é meu verdadeiro nome. É Luciabo. Do latim Luci + abo, ou seja, enrabador anal. Mas seria muito agressivo. Vocês não estão preparados”. Tinha até essa resposta guardada no bloco de notas, para copia-la e cola-la quando preciso.

Passava freneticamente os perfis. Escolhia-os apenas pela foto principal, quase nunca abria o perfil para ler seu conteúdo. No final da noite tinha dado 3 matches, mas olhando no perfil achou algumas citações de OSHO e coisas como “Leonina, com lua em áries Hihihi”, #FORATEMER e desistiu.

Foi para um bar na lapa. Tinha chamado mais cedo três amigos: Ken “O mano”, Felipinho Diaz e Iane Macedo. Beberam uma cacetada de cervejas, como sempre e também insultaram o garçom, como era de costume, até deixa-lo puto o suficiente para mandar todos para puta que pariu e não trazer mais nada na mesa deles. Durante a noite, passaram por 3 bares, até chegarem à barraquinha do Jonas, em realengo. Era um tour que sempre faziam. Felipinho Diaz morava em Realengo, junto com Ken. Sempre tinha algum show de rock por lá, seja na lona cultural, ou na casa de algum vagabundo da região.

Sentados comendo, ouviram uma notificação do celular de Luciano. “You and Vanessa Travesti have liked each other”, acusava o Tinder. Começou a rir e mostrou para os amigos, que o zoaram bastante. “Nem vi lek, juro”, ele disse. Guardou o celular e voltou a comer seu doggão. Não descombinou o match.

Acordou com a boca seca e uma urgência para mijar. Levantou, mijou, se inclinou com a boca debaixo da torneira, bebeu água da pia mesmo e voltou a deitar. Olhou seu celular para ver a hora. Ainda eram 10h34. O ‘foguinho’ do tinder estava no no topo da tela, acusando algum match novo ou nova mensagem. Não abriu. Apenas voltou a dormir.

Uma poça de vômito confortava o rosto de barba mal feita de Luciano. Acordou com dor de cabeça por volta das 14h. Tomou banho, passou um desinfetante spray em cima do vômito e tirou o excesso de comida que tinha nele. Sentou no sofá esperando o mal estar passar e logo já eram 18h, anoitecia quando resolveu olhar seu celular. Tinha algumas notificações de marcações de fotos das quais pouco se lembrava. Entendeu o milho do seu vômito, quando viu uma foto na barraca do Jonas, que nem se lembrava de ter ido. “Como voltei?”, pensou.

Já recuperado, botou 2 latinhas de itaipava no congelador e foi assistir o programa do Bial.

Luciano entrou no Tinder e respondeu a mensagem que Vanessa tinha deixado. Um “oi, rs”. Ele decidiu conversar normalmente, para ver o que rolava, mas estava de sacanagem. Não tinha interesse algum, só de contar a história para os amigos depois. Até falou de signos com ela e de coisas banais. Vanessa perguntou sua data e hora de nascimento. “Vou fazer seu mapa astral”, disse, e mandou:

LIBRA com Lua em SAGITÁRIO

O libriano ganha maior equilíbrio interior, capacidade de escolha e intensa inclinação artística. O casamento não é mais um antídoto contra a solidão, mas uma opção, devido aos valores da tradição. Poesia e erotismo coexistem, e o amor é concebido como a busca da harmonia.

“Você é libra com ascendente em libra e sua lua é em sagitário. Tem forte inclinação artística. Tipo o Van Damme”, ela disse. Luciano gostou de ser alguém parecido com Van Damme, mas achou muito sem sentido a definição que mandara. “Olha. Esse ‘poesia e erotismo que coexistem’ não tem nada a ver comigo, mas lembra muito de um amigo meu chamado Filipe.”

“Posso passar seu whatsapp pra ele? Ele curte CD”, perguntou. “humm”, Vanessa escreveu. “ok”, completou alguns minutos depois.

Foi assim que conheci Vanessa. Luciano me disse que tinha mandado meu número pra uma CDzinha que tava interessada em mim. Eu, como ele, também era Libriano, com lua em sagitário. Nem fazia ideia.

Saímos quatro vezes. Nesse momento, estou do lado dela, na minha cama. Todas as vezes que saímos, terminamos aqui. Ela se sente bem, acolhida. Na rua ela fica a vontade, mas ainda fico incomodado da forma em que as pessoas me olham. Não deveria. Tenho muita coisa a aprender com ela.

Fiz um carinho leve em sua coxa e olhei para sua nuca cheias de arranhões. Essa noite foi a primeira vez que fui passivo em minha vida. Estou soltando uns peidos de porra, mas não senti dor. Ela foi maravilhosa, fudemos olhando um no olho do outro. Espero estar pronto para dar de quatro na próxima vez. Dar de quatro é dar de verdade. é se soltar, ficar vulnerável. É entrega. “Dar de quatro é entrega”, frase dela. E pensar que ela quer se livrar desse pau maravilhoso. Uma pena.

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