Uma noite e 8 anos

Uma noite:

Eu, Maria, Martina e Sofia estávamos sentadas no lobby de um hostel na Cockburn street, próximo ao centro de Edimburgo. Havia sido um dia de inverno típico à ilha britânica: nublado, ameaça de chuva, não chove, abre o sol, nubla de novo e duas horas depois que amanheceu escureceu porque inverno é assim mesmo. Passamos o dia inteiro caminhando e estavamos todas grudadas nos sofás poídos da recepção. Sofia cochilava, Martina escutava música, eu verificava meus emails e Maria lia uns panfletos de propaganda que ficavam no frontdesk.

– Precisamos decidir o que vamos fazer de noite. Se eu ficar mais meia hora aqui vou dormir!

Sofia acordou assustada com o meu tom, Martina levantou a sobrancelha e tirou o fone de um dos ouvidos e Maria suspirou:

-tá frio… vamos ficar por aqui mesmo, o que você acha? talvez chegue alguém mais tarde com cerveja e a gente pode ficar tomando alguma coisa na cozinha mesmo.

-Não! Não, não, não! Temos duas noites aqui, você ta doida? Vamos sair, vamos encher a cara e vamos voltar com história pra contar pros outros! A gente tá na Escócia, caralho! Nós quatro! Isso só acontece uma vez na vida!

Sofia soltou um muxoxo “exagerada” e voltou a dormir. Martina disse que preferia descansar também, mas Maria decidiu comprar minha briga. Fomos tomar banho e nos arrumar, e quando estávamos pronta as outras duas eram quase que uma só com seus respectivos sofás: “boa noite e boa sorte.”

Decidimos fazer um pub crawl que estava anunciado num dos panfletos que Maria leu e apressamos o passo pra encontrar o grupo antes da largada. Não posso dizer com muita consistência o que aconteceu no entremeio, mas posso explicar como essas coisas funcionam em geral: vamos de pub em pub, ganhando shots na entrada de cada um e desconto para bebidas futuras. Dependendo da sua resistência ao álcool e a longas caminhadas você chega ou não ao último destino que é uma boate.

Minha resistência ao álcool tende a ser boa, mas a minha memória falha. Sei que em algum pub entre o segundo e o quinto, Maria se interessou por um americano, loiro, alto, que estava num grupo de outros americanos, também altos mas feios. Eu solidariamente distrai os amigos feios enquanto Maria tratava de encantar ao yankee, que não demorou nada a convidá-la a tomar algo separadamente. Vendo que meu papel naquela congregação já não era necessário, me retirei e fui rodando pelos outros grupos de outros tantos estudantes intercambistas, conversando, rindo, dançando, até ser interceptada por um carinha que já estava de olho em mim desde o inicio de nossa procissão.

Resolvi dar bola: O nome dele era Mikko, ele tinha dois anos a mais que eu, estudava economia e estava fazendo intercâmbio em Birmingham. No seu grupo tinham um alemão, uma japonesa e uma tcheca – todos bêbados, eu inclusive – e eu não lembro o nome de mais ninguém. Mikko era finlandês, de Helsinki, e estava horrorizado com o fato dos britânicos não usarem casaco no inverno: “pra que isso? tá zero grau, tá ventando, não é possível que eles não sintam frio!”. Mikko era normal. Mikko era gente boa e divertido, mais baixo do que eu esperava para um nórdico, cheio de sardas e com um nariz largo. Juntei esse grupo ao grupo ao qual Maria agora pertencia como se fosse amiga de infância dos companheiros de seu pretendente e conseguimos finalizar o pub crawl em estilo – alguns com mais estilo que outros.

Chegamos de volta ao hostel lá pelas quatro da manhã, com a Maria completamente louca, pulando porque tinha que ir ao banheiro. Mikko me beija carinhosamente e me pergunta como seria o meu dia seguinte. Nossas agendas não batiam então trocamos contato, nos despedimos e nos desejamos boa viagem.

Oito anos

Eu e Mikko nunca fomos absolutamente nada além daquela noite. Por muito tempo mantiveram-se os contatos pegando poeira nas redes sociais, sem nenhum motivo para sê-lo. Também trocamos contatos de telefone, que obviamente se perderam no momento em que cada um voltou para o seu país. E mesmo assim, durante o nosso tempo de permanência na Inglaterra, em nenhum momento chegamos a trocar mensagens mais além do “chegou bem? boa viagem!” educado de sempre. No facebook trocavam-se mensagens de aniversário e joinha a cada clip publicado. Até que um dia alguém iniciou uma conversa. Honestamente, não sei dizer quem foi.

Mikko era mais interessante do que parecia: tinha uma coleção de vinis e era extremamente cuidadoso com seu equipamento de som. Entendia um pouco de eletrônica com o único propósito de ter a melhor experiência sonora possível e passava o seu tempo livre ouvindo música e lendo. A essa altura de nossas vidas ele já estava formado e eu por me formar. A gente trocava música pelo facebook como se fosse um contrato silencioso. Ele postava coisas na minha timeline, me mandava foto de coisas da sua vida – casa, cachorro, discos – e eu mandava fotos da minha vida pra ele.

Nós passávamos longos períodos sem se falar e ambos iamos entrando e saindo de relacionamentos, o que interferia na periodicidade das nossas conversas. Quando ele estava solteiro se sentia mais confortável para compartilhar os seus sentimentos e me dizia que ninguém mais sabia das coisas que ele me contava. Eu contava dos meus sentimentos pra todo mundo, mas guardei o Mikko por muito tempo pra mim, sem deixar que as pessoas soubessem desse cara que eu conheci naquela noite, naquela cidade já esquecida.

Mais ou menos três anos depois que a gente se conheceu, Mikko conheceu Ellie e manteve com ela um relacionamento a distância pois naquela época ele estava fazendo um trainee em Singapura. Eu estava me formando e não vi que nós ficamos um ano sem nos falar, até o dia em que ele me escreveu bêbado. Eles estavam então há dois anos juntos e ela resolveu contar a ele que o tinha traído algumas vezes, com alguns caras. Ele reapareceu então me contando o ocorrido e disse que não sabia o que fazer. Nos reaproximamos e eu passei a ser uma parte mais frequente da sua vida.

Com a diferença de fuso, acabamos nos pegando de surpresa um ao outro com SMS’s aparecendo junto com o alarme do celular pela manhã. Eventualmente pipocava um email com um clip de alguma banda semi desconhecida ou um link com alguma piadinha em alguma de nossas redes sociais. Nos falávamos como podíamos e nos motivávamos sempre com as nossas dificuldades. desejávamos estar mais perto porque seria bom se encontrar para tomar um café, mas no fundo sabíamos que a distância era uma medida de segurança.

Mikko e Ellie terminaram. Mikko e Ellie voltaram e eventualmente terminaram de novo. Mikko me escreveu dizendo que não sabia perdoá-la. Eu lhe disse que não era obrigação dele perdoar se ainda doía. Eu lhe disse que se ele não podia esquecer o que ela fez não fazia sentido continuar junto dela. Eu lhe disse que ele era especial e lembrei a ele que a gente se viu uma única vez na vida e mesmo assim ele era importante pra mim.

Mikko esteve lá durante a maior parte dos meus namoros, empregos, decepções, graduações. Fizemos planos que nunca se concretizaram, como sempre acontece. Eventualmente me apareceu uma oferta de emprego na França e eu resolvi ir. Ele disse que ia me ver e que eu tinha que ir visitá-lo em Helsinki – no verão, pra aproveitar mais.

Nunca nos encontramos. Mikko conheceu Julia antes daquele verão e mais uma vez se afastou. Ele mostra ainda a sua maneira que não esqueceu da nossa amizade, dando sinais distantes e ainda mandando mensagens de aniversário. Eu sabia, assim que vi a primeira foto deles juntos, que Mikko dificilmente viria me visitar e muito provavelmente não iria me ver, caso eu fosse a Helsinki. Eles se casaram mês passado e hoje eu recebi uma mensagem, numa das tantas redes sociais que compartilhamos: “Se eu tivesse te convidado eu sei que você viria, mas eu não teria me casado. Obrigado por tudo.” Oito anos depois, e tudo por causa de uma noite.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s