Avenidas – Conto

Não sei como aguento ficar acordada nessa aula todos os dias. Ficaria a manhã inteira olhando para o Gustavo. Ele não parece ligar para mim e eu preciso muito passar em biologia, porque estou longe de ter uma média folgada na matéria do Jorge, que nunca perde a oportunidade de pegar no meu pé. É um mala!

Depois da aula, Gustavo sempre fica pelos corredores da escola conversando com uma menina. Acho que o nome dela é Vitória. É um dos poucos meninos que não ficam enchendo o saco dos garotos do segundo e primeiro ano. Gostaria que ele me notasse um dia, como a Vitória. Poderia ser um apelido, ou um nome, não sei, afinal, infeliz coincidência (pra mim, claro) a Vitória ser capitã do time de vôlei que ganha todos os intercolegiais, todos os anos, e ter esse nome.

Gustavo não pratica esportes, sempre está tocando violão pelos cantos da escola. Ele toca tão bem… Adoro os meninos que tocam violão. Pena que eles não gostam de mim.

Sempre estou observando tudo, apenas observando. Queria conseguir ser mais ação do que observação. Queria mais momentos de Vitória e menos de Roberta. Ele parece ser um menino tímido, como eu, mas as meninas sempre vão puxar assunto ou pedir para que ele toque alguma música no violão. Ele sempre toca com a cabeça baixa e parece se incomodar com os aplausos ou quando alguma menina alisa seu ombro rindo. Nos intervalos eu fico só. Eu e meus headphones. Tenho ouvido Can’t Pretend do Tom Odell umas 5 vezes por dia. No ônibus vindo para a escola, nos intervalos e na volta para casa. Parece que sua música sofre junto comigo, solitária, viajo ouvindo aquela voz rouca. Poderia viajar de verdade; juntar dinheiro, comprar passagens e simplesmente ir, por alguns dias conhecer lugares, ninguém notaria… Bem, talvez eu tivesse que avisar minha mãe. Ela nunca me deixaria viajar sozinha. Não posso fazer nada. Mesmo com 18 anos, tudo parece quando eu tinha 12. Ainda tenho que avisar quando vou sair e que horas voltarei, com quem vou e como voltarei. Esquece Roberta.

Faz tempo que não escuto o silêncio da noite. Desde que me mudei, só ouço o ronco dos caminhões e carros na avenida. Queria dormir ao som do violão do Gustavo.

Sempre mudava meu despertador e sempre escolhia alguma música que não gostasse demais para não passar a odiá-la, mas 21 Questions do 50 cent já tinha passado de todos os limites. Acordei de mau humor, tomei café puro. Minha mãe dizia que fazia mal, sempre colocava leite no meu café quando via que estava tomando. Hoje ela não percebeu. Por que ela continua me tratando assim? Não vejo a hora de sair de casa e conhecer lugares e pessoas novas… Por enquanto tenho que me apressar e pegar o ônibus ou chegarei atrasada na aula do Jorge e não tô afim de ouvir gracinha dele. Quem será que foi o abençoado que decidiu botar biologia com Jorge as 7h da manhã no último ano do colégio? Aposto que foi ideia do próprio. No caminho peguei meu celular e mudei o despertador para Heart Attack da Demi Lovato.

Geralmente sou uma das primeiras a chegar. O ônibus sempre está muito mais vazio quando saio 10 minutos antes do necessário para chegar no horário. Não cheguei tão cedo, mas cheguei antes do começo da aula. Fui para meu lugar de sempre, encostada na parede, no fundo, no canto oposto da porta de entrada. Gustavo entrou. Um pouco depois das meninas. Ele passou por elas, deu ‘bom dia’ e veio para meu lado. Vitória olhou com uma cara. Como se tivesse sido traída. Ele nunca vinha pra esses lados.

— Dizem que esse lado é mais quieto — Disse, botando a mochila no chão, perto do pé da cadeira.

Sorri, um pouco sem graça. Não consegui falar nada.

— As meninas falam demais. Tô precisando prestar atenção nessa aula. Tô mal nessa matéria. — Rompendo o silêncio do meu sorriso mudo.

— Sei como é, mas é difícil ficar acordada.

Ele estava falando comigo. Por que? As meninas me olhavam e comentavam algo. Logo depois ficavam rindo.

— Não liga pra elas. — disse Gustavo. Acho que estava na cara que estavam me sacaneando. — Só falam de jogos e festas.

— E você não curte?

— Olha… De festas não mesmo, de esportes gosto muito, mas elas só sabem falar disso o dia inteiro. Adoro assistir os jogos. Lembro no primeiro ano que vocês ganharam o campeonato interno de Handball.

— Ah sim… Que vergonha… Foi sorte. Não somos boas que nem a galera da equipe, tipo a Vitória.

— Que nada. Você fez o gol do título na disputa de 7 metros. 

Nossa. Como ele lembra disso? Achava que nem sabia quem eu era.

— Nossa! Como lembra disso?

— Você carregou o time nas costas, Roberta.

— Bom dia, sofredores. — Interrompeu Jorge. Botou sua mala caríssima de couro em cima da mesa e começou a aula.

Vitória saiu. Ela não era da minha turma, mas ficava todo dia sentada em cima da mesa das meninas conversando, esperando o Gustavo sentar entre elas.

Nossa… Ele sabe meu nome.

O Jorge finalizou a aula, pegou sua mala de couro, pôs no ombro e saiu.

— Boiei — Disse, rindo.

— Eu também, haha… Mas você manda bem em biologia, não? —  Gustavo perguntou.

— Nem um pouco. Preciso de 7,9 na última prova.

— Preciso de 8,1. Poderíamos estudar juntos, né? — Baixou a cabeça, parecia envergonhado. Pegou sua mochila e levantou, como se tivesse medo da minha resposta.

— Vamos.

Ele sorriu, mas continuava olhando para baixo.

— Sem violão hoje? —  Perguntei pra quebrar o gelo.

— Não… Preciso estudar. Com ele é impossível. Perco a noção do tempo. Er… Você… quer ir lá na biblioteca?

— Vamos.

Ficamos lendo o intervalo inteiro, dentro da biblioteca. Não dava pra conversar e, como estava em época de prova, a biblioteca estava lotada. Não sentamos nem perto um do outro, mas gostei de ficado ali ao mesmo tempo que ele.

Depois não nos falamos muito. Ele foi para uma aula diferente. A turma de filosofia e sociologia não podiam ter mais de 15 alunos por regras da escola, então metade da turma fazia sociologia e a outra filosofia no primeiro semestre, depois invertia. Eu já tinha feito sociologia e tinha aula com um cara que tremia durante toda a aula. Era algum tipo de abstinência, diziam, mas ele era um cara legal, viajava muito. Parecia eu, toda vez que encostava a cabeça na janela do ônibus ou na parede do canto da sala de aula.

Voltei andando. Era perto, mas um pouco perigoso. Na ida minha mãe não deixava que eu fosse andando. Tinha que pegar o ônibus. Morava perto da Av. Itaóca, perto do colégio em que fiz o primário. O Alcide de Gasperi podia ser zoneado, mas me preparou pra muita coisa, inclusive professores malas. Na ETEERJ (Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro, onde estudava) muita gente reclamava da organização e infraestrutura. A maior parte dos alunos é um bando de riquinhos que fizeram cursinho pra passar na prova, vinham de todos os cantos. A maioria de carona com os pais ou no ônibus dos condomínios classe-média-alta da Barra da Tijuca. A escola técnica era em Maria da Graça. Andando rápido, chegava em 20 minutos. De ônibus também.

Estou no último período do meu técnico. Meteorologia. Gustavo largou o técnico de telecomunicações logo no começo, ficou só fazendo o ensino médio. O resto do tempo ficava pelos corredores tocando violão. Pergunto-me se sua mãe sabia que não fazia mais o técnico. Será por isso que ele passa tanto tempo lá? Ah, se fosse minha mão… Ela sempre foi dura com as palavras. Como se toda vitória — como odeio essa palavra — fosse obrigação. Quando passei pra escola técnica, ela criticou minha colocação. Fui a 30ª de 30 vagas. Mas na realidade, isso não importa lá dentro, 1ª ou 30ª, nada muda. Às vezes acho que ela quer o melhor pra mim, outras, que só quer me machucar. Por outro lado, nunca me bateu, mas teria doído menos em muitos momentos em que apenas me criticou.

Nos dias seguintes ele fez o mesmo. Sentava ao meu lado, conversávamos sobre música e até biologia, arranjava desculpas para ir a biblioteca, até o dia que conseguimos sentar juntos para estudar. Ele lia um glossário ecológico que tinha feito. Servia como trabalho extra, caso precisasse de ponto no final do ano. Eu deveria ter feito também. Sei que o Jorge só inventou isso para não ter que dar nem um décimo de ponto para ninguém. Apontei para uma palavra, no caderno dele, “epifitismo”, perguntando o que era. Ele explicou sem muito domínio. Apenas decorou algum significado que tinha lido no livro. Não prestei muita atenção. Só observava sua boca mexendo e do jeito que coçava a têmpora quando estava sem graça. Fingi que entendi, antes de terminar a explicação, cobrindo sua mão, no caderno, com a minha. Pausando-o. Ele me olhou. Acho que nunca tinha olhado para alguém por tanto tempo, ele ou eu. Devo tê-lo encarado por uns 3 segundos. Pareceu muito. Ele desviou o olhar e buscou algo na mochilha, no chão, do outro lado. Eu gelei. Será que tinha passado do limite? Nunca fui tão atirada assim. Ele deve pensar que sou mais uma Vitória na sua vida, enchendo o saco. Continuei apenas de olho no meu caderno estudando até dar a hora do final do intervalo. Descemos e fomos para a aula de educação física. Eu fazia handball, ele natação.

Haviam três quadras. Uma coberta, onde os meninos que faziam futsal praticamente tomavam posse e duas do lado de fora. Uma de vôlei e outra poliesportiva, onde jogávamos. Era bem do lado da piscina, mas a parte da piscina era um pouco mais elevada, talvez a um metro. Dava pra ver as pessoas passando correndo no aquecimento quando estavam do lado mais perto da quadra. Gustavo era um pouco mais alto que eu. Tinha perna grossa. Quando batia o pé no chão, correndo, sua coxa vibrava e logo depois ficava dura como pedra. No final da passada dava pra ver seu quadríceps se definindo, saindo da coxa. Ele corria tão durinho. Com uma postura de lorde. Meu professor sempre me dava esporro porque eu corria inclinada pra frente. “Como vai jogar handball correndo olhando pra baixo?”, ele sempre falava. “Abre esse peito, PEITO”, era a aula inteira isso.

Chegou a semana de provas. Fiz a prova de biologia. Ele corrigiu na hora. Passei. Precisava de 7,5. Tirei 8. Gustavo precisava de 9,5 e tirou 9,7. Não sabia que ele precisava de tanto. Estava bem tranquilo pra quem precisava praticamente gabaritar a prova. Fiquei sabendo de um menino em 2006 que precisava de 6,1. O Jorge fez uma prova múltipla-escolha de 10 questões, ou seja, precisava tirar 7. Ele tirou 6 e repetiu. o Jorge sempre conta esse caso com orgulho. O menino foi para o supletivo que tem aqui na rua e se formou no ensino médio em 6 meses. Perdeu a inscrição na UFRJ, mas no ano seguinte passou para Engenharia na UERJ. É um atrasa vidas mesmo.

A última prova era a de história. Eu já tinha passado, mas Gustavo não; precisava de uns 7. Fiquei no pátio esperando por ele. Sem combinar. Caso perguntasse, estava ali esperando qualquer coisa. Ainda não tinha pensado em nenhuma desculpa. Talvez não devesse dar nenhuma.

Enquanto esperava, recebi uma mensagem no grupo da turma, avisando que a nota da primeira fase da UERJ tinha saído. Procurei a lista e lá estava eu, com um B! A primeira fase valia 20 pontos. O ‘B’ me daria 15. O que me deixava a 40 pontos da nota de corte do anos passado em Geologia. Precisava, na segunda fase, fazer mais ou menos 40 dos 80 pontos restantes, sem zerar nada e estaria dentro. A universidade das greves e suicídios estava me esperando.

Gustavo ficou conversando comigo depois da prova. Disse que estava aprovado, mas algo o incomodava.

— Tô indo embora. —  Ele disse.

— Pra casa?

— Não. Meu pai foi transferido para São Paulo. Em Janeiro vamos para São Paulo.

— Hmm… E você gosta de lá?

— Não sei. Fui algumas vezes, mas não conheço nada lá. Vamos morar na Vila Madalena.

Ficou um clima chato, nós dois ficamos calados por um tempo. Depois fomos embora. Quando saímos pela porta do colégio, ele pegou minha mão e me deu um beijo no canto da boca. Eu fiquei olhando pra ele, ele pra mim. Pedindo por dentro para que ele voltasse seu lábio na direção do meu. Olhei pra sua boca. Passou a mão em volta de mim, me apertou. Apertei de volta. Ele veio em minha direção e nos beijamos. Ele beijava bem, tinha a língua leve. Não forçava demais o contato dos lábios contra os meus. Sua boca descolava lentamente da minha no final de cada beijo enquanto passava a mão nas minhas costas subindo em direção à minha nuca enquanto apertava o meu cabelo entre os dedos.

— Tenho que ir. — Eu disse, enquanto me distanciava o suficiente para olhar seu rosto.

— Tudo bem.

Eu não precisava ir embora naquele momento. Mas ele precisava ir para outra cidade em breve e eu precisava não me apaixonar por ele naquele momento. Eu queria que ele ficasse. O beijo, o toque, a língua que se movimentava na minha boca, era tudo tão gostoso. Senti um pouco de raiva quando me vi naquele momento tão bom sabendo que ele iria embora e provavelmente nunca mais nos veríamos.

A volta pra casa nunca foi tão rápida. Pouco vi ou senti da caminhada pela Avenida dos Democráticos. Fui pelo caminho mais longo dessa vez. Andando era único o momento em que tinha paz para fantasiar um pouco nessa vida. Ano que vem, provavelmente estarei na Av. Radial Oeste, estudando geologia, enquanto Gustavo desbrava São Paulo com seu charme carioca. Eu sinto inveja dessas meninas. Vão encher de Vitórias em volta dele, mas espero que ele volte um dia.

Cheguei em casa. Minha mãe falou que meu cabelo estava horrível. Parecia uma boneca de pano. Sim, eu estava descabelada, e muito feliz pelo motivo.

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