Laura – Conto

Eu vinha completamente intoxicado de um namoro relâmpago que durou menos que um reality show e que só tinha acontecido por eu ser turrão. Quando terminou, quase como uma sessão de descarrego eu sentei na minha cama e disse pra mim mesmo:

– Chega. Chega de namorar só por namorar. Agora você vai aprender a ser feliz sozinho na porrada.

São essas mentiras que nós fingimos que acreditamos, não é mesmo? Desde que acabou esse namoro eu me enclausurei indo da academia pro trabalho e do trabalho para um curso de mandarim que estava fazendo na época. Me restringi a uma rotina quase militar, indo dormir o mais cedo possível, para acordar antes das cinco da manhã. Organizava religiosamente minhas tarefas, inclusive as que envolviam o lazer. Estas eram as seguintes: ler jornal pela manhã, ler um livro do metrô para casa, visitar algum centro cultural no final de semana e uma atividade ao ar livre.

Um dia um dos meus amigos da época do colégio – vamos chamá-lo de Pedro – me liga ao lado de outro amigo dizendo que se eu não os acompanhasse num Pub naquele final de semana eles não apareceriam nem no meu enterro. Concordei em ir para não perder a amizade.

Na sexta feira, quando nos encontramos, Pedro avisou que viria uma amiga acompanhada de algumas colegas de trabalho. Todas recém contratadas por uma estatal que não irei nomear e vivendo uma euforia semelhante à primeira semana de aulas na faculdade: novos amigos, barzinhos, morar sozinho pela primeira vez, etc. Elas entram no Pub quase que sincronizadamente, como se estivessem usando touca de flores e fazendo balé aquático: todas vestidas com a mesma roupa, mudando apenas a cor da blusa ou da saia. Me pareceu um grupo imbecil, uma nova formação super feminista dos power rangers. De maneira congruente com as roupas, elas falavam no mesmo tom de voz esganiçada, e tinham as mesmas idéias idiotas. Elas não eram burras, mas eram idiotas. Apoiei-me no balcão e Pedro vem ao meu resgate:

– Você precisa escolher uma, cara! Não é possível que você vai passar a noite que nem um bêbado de boteco.

Olhei pra cara dele com vontade de mandar ele se foder porque eu nem queria estar ali, quando vejo do outro lado do bar entrando uma mulher com um sorriso lindo. Ela vem e cumprimenta meus amigos e Pedro me apresenta ela, Laura, mais uma das mínions, sem roupa e nem idéias de mínion – uma rebelde.

Laura trocou duas frases comigo, sendo simpática. Eu a respondi seco porém educadamente e ela se juntou ao grupo de amigas. O resto da noite se resumiu a quatro ou cinco cervejas, nachos, e um show ao vivo de uma banda horrível que fazia cover de Cazuza e Engenheiros do Hawaii. Lá pelas duas da manhã, decidi que minha presença já tinha sido o suficiente desagradável para todos os participantes daquele encontro e resolvi ir pra casa. Laura me intercepta no caminho da minha despedida e me pergunta o que aconteceu para eu estar com a cara que estava. Eu desconversei e ela sorriu e disse:

– vou te contar uma história de merda. Hoje eu estava feliz, muito feliz e fui à praia sozinha. Levei minha mochila e deixei ela na areia para dar um mergulho. Quando eu voltei do mergulho tinham levado a minha mochila com tudo o que eu tenho: carteira, chave de casa, celular e roupas. Voltei pra casa de chinelo e biquini, totalmente humilhada. Mas tudo bem, to feliz ainda e to aqui. Eu duvido que você não tenha uma coisa boa pra me contar. Se você me contar uma coisa boa eu te conto uma coisa boa minha.

Eu contei a ela que havia ganhado uma bolsa para um curso de férias em uma das faculdades da Ivy league. Havia apenas 6 bolsas e uma era minha. Entretanto com o meu mundo totalmente acinzentado eu não tinha parado para admirar esse pequeno feito pessoal. Ela ficou eufórica, me parabenizou, se levantou e voltou rápido com dois chopps: “temos que brindar isso!” e eu sorri o meu sorriso mais honesto dos últimos meses. Ela me contou que tinha passado no concurso da mesma estatal das outras meninas, porém em outra área: “só tinham duas vagas e uma é minha!” e eu me levantei e voltei com um par de cervejas mais para comemorar novamente.

Saimos do bar com o céu já de cor índigo, passamos num boteco e ela agarrou dois guardanapos e sacou uma caneta da bolsa:

– Vou te dar o meu email porque o meu celular foi roubado, lembra? Mas você me dá o seu telefone e eu te ligo pra gente fazer alguma coisa. Mas você tem que me mandar um email primeiro tá?

Eu mandei o email como prometido e desse dia em diante seguiram-se jantares, idas à praia, cinema e encontro com os amigos. Laura é a personificação do otimismo, sempre sorrindo, sempre tranquila. Enquanto não era chamada para a vaga que havia conquistado ela trabalhava em um café e eu passava às vezes no fim do turno para vê-la.
A gente não se via tão frequentemente como parece e nem com muita regularidade. Eu gostava da sua presença mas também queria ficar sozinho de vez em quando. Ela ia e vinha, às vezes se distanciando e outras reaparecendo com ternura e o mesmo sorriso.

Um dia em setembro, mais ou menos um mês depois de conhecê-la, Pedro me chama para viajar. Iriamos para uma praia quase deserta onde o parente de um amigo de um companheiro de trabalho de Pedro tinha uma casa. E ainda assim de alguma maneira e por diferentes pessoas eu e Laura fomos convidados. Fazia algum tempo que não nos viamos – não muito tempo, mas mais que o normal – e ela me mandou mensagem para a gente combinar de ir juntos pra rodoviária. Me perguntou o que eu ia levar e disse que vinha dormir na minha casa pra não chegar lá sozinha.

Chegamos no nosso destino final quase quatro horas depois de sair da cidade e nos deparamos com uma casa meio abandonada, pequena e sem muitos recursos. Laura riu, entrando na sala sem cerimônias, se dirigindo até a cozinha e gritando lá dos fundos para avisar que tinha achado uma vassoura.

Mais tarde fomos a um restaurante que se via solitário na ponta da praia e sentamos para beliscar algo e tomar uma cerveja. Ficamos por lá quase três horas até o fim da tarde, quando decidimos voltar para a casa e terminar de arrumar as coisas. No caminho, Laura aperta o meu braço e me desafia a uma corrida até o inicio da praia, disparando na minha frente. Eu reajo quase que impulsivamente, correndo atrás dela até chegar no nosso ponto final, onde a puxei pela cintura e caímos os dois gargalhando na areia. Ela me pergunta se eu gostaria de assistir o pôr do sol com ela e nos sentamos em silêncio em uma pedra. Estivemos quase cinco minutos calados, até ela interromper aquele remanso:

-Acho que é melhor a gente parar de ficar. Eu não quero namorar e eu também não quero me apaixonar.

Eu estático, olhando pra ela, tentava assimilar a situação e o ambiente com o que ela acabava de me dizer. Estávamos os dois, numa praia deserta, numa ilha isolada, assistindo um pôr do sol vermelho sangue, o qual ela me havia convidado para ver. Em que ponto eu me perdi? Eu ri, porque não havia mais o que fazer e disse que tudo bem. Nos dias seguintes ela ainda me procurava para dar um beijo ou fazer um carinho, mas estava claro que, assim que terminasse a viagem, terminava meu breve romance com Laura.

Depois dessa viagem passei dois anos sem me envolver com ninguém. Não por medo, nem por trauma. Mas a última porrada que eu levei para aprender a ser feliz sozinho tinha o nome Laura tatuado nas falanges dos dedos e foi extremamente bem dada.

 

 

 

 

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