Uma nova dor – Conto

Chorou sem jeito, pois nunca tinha visto um homem igual a ele chorar. Se envergonhava de cada lágrima que molhava o lençol. Ela ficou desesperada. Nunca imaginaria que pudesse fazer alguém chorar daquela forma. “Para, por favor”, ela gritava “me desculpa, me desculpa”, pedia enquanto o via soluçar e engasgar com o próprio choro. Ele pediu, quase implorou para que ela se fosse. Quando deu o primeiro grito que ela ouvira dele, pegou suas coisas, com medo, não só dele, mas com o que ele pudesse fazer ali sozinho, e se foi.

De madrugada acordava, como um menino de um pesadelo, chorando. Lembrava de todas as cenas que tinha montado em sua cabeça. Não tinha raiva. Era tristeza que tomava conta do seu corpo. Com os ombros caídos, sentado, deixava as lágrimas escorrerem no colo e gemia involuntariamente enquanto amolecia e tremia, cada vez que soltava o ar. “Só quero dormir, por que essa noite não acaba?”, perguntava em pensamento para alguém, que não sabia quem. Talvez a si mesmo. Àquele Fabrício que sempre demonstrou força nos momentos difíceis. Que nunca chorou daquela forma, nem mesmo quando perdera Olívia, ou seus melhores amigos na infância marcada por caos e violência. Apanhou tanto na infância, em casa e na rua, que achou que tinha desaprendido a chorar.
A dor do nascimento do primeiro dente de um bebê, a dor do primeiro parto, a dor que Fabrício conhecera pela primeira vez, a dor do nascimento de algo desconhecido. O primeiro sentimento do qual não pôde esconder. O amor real e, então, a decepção. A dor da traição, do abandono, do arrependimento. Voltou o filme em sua cabeça em todos os momentos em que errou, que falou demais ou de menos. Quando deveria ter elogiado e se calou. Quando deveria ter se calado e criticou. Quando não disse “eu te amo”, porque achou que não importava, que eram apenas palavras. Arrependeu-se de ter se escondido na hora em que ela mais precisou. Botou a culpa em si, e chorava e dormia a cada três horas, por três dias, e, então, secou, de repente, levantou-se e recomeçou a tocar a vida, bem, calejado, forte. Não chorou mais, não sofreu mais, não se decepcionou mais, não amou.
Então, 2 anos depois, conheceu Lorena. Fabrício morreu, e nasceu de novo, e escondeu, e se calou, e tarde demais amou, e se arrependeu e chorou. Faz dois dias. Fabrício quer apenas que o sol do terceiro dia nasça logo, mas sabe que a noite será longa.

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