Maduro

Comprei um abacaxi verde por três euros num supermercado perto de casa. Na sua etiqueta dizia “Sweet Ananas” e eu vislumbrei meu futuro próximo: Uma mão firme no seu topo e a outra deslizando a faca serrilhada do pão naquela casca já amarela ouro enquanto escorre o suco daquele sweet ananas.

Cheguei em casa e repousei aquele fruto coroado sobre a mesa do café da manhã, em uma posição um pouco acima das outras frutas para dar-lhe destaque e ressaltar sua grandeza. Esqueça as bananas e esqueça as maçãs, prostitutas da terra. Na minha mesa reina agora um jovem, esplendoroso e estrangeiro abacaxi.

Passaram-se dois dias desde que acolhi este abacaxi e ele parece ter encontrado o seu conforto próximo às outras frutas. Levemente tombado para a esquerda, busca uma aproximação às bananas, que começam a ganhar seus primeiros sinais de madurez com efélides de cor marrom escuro. Com sua alma brincalhona, o imperador de minha cozinha prefere manter-se com sua aparência de recém saído da colheita, ainda expondo seu verde bandeira de maneira patriótica.

Nascido em Gana, aquele filho da família das exóticas bromélias embarcou algum dia não há muito tempo em um navio em busca de experiências em um outro continente. Afundado num container ao lado de seus muitos irmãos, ele voltou a ver a luz do sol apenas alguns dias após ser encarcerado naquele cargueiro. Um fiscal lhe afagou a pele e surrupiou um de seus irmãos, dando o aval para que aquele grande caixote fosse em frente. Desta vez pelas linhas férreas, saindo de Hamburgo em direção ao sul, aquele jovem fruto veio a encontrar seu lar numa pequena casa ensolarada, numa cidade média que fica ao sul de um país bem frio.

E o protagonista de minha história recente se recusou a crescer. Todos os dias eu tomava meu café arábica encarando-o de maneira desafiadora. Ele, com despeito, olhava em outra direção. Eu cresci, envelheci e morri esperando ver aquele desgraçado madurar e ele, em um ato de bravura, negou-se. Perdi as esperanças de ver a cor de sua carne e aceitei-o em minha vida como um objeto de decoração de uma casa de subúrbio carioca.

O abacaxi testemunhou minha rotina como nunca nenhum outro o fez. Conheceu framboesas e amoras, se enturmou com tomates que iam e vinham e convenceu uma batata doce a criar raízes e se proliferar por este mundo. Quando chegou um dia em que o abacaxi se deu conta de que já era hora de cumprir seu destino. Depois de compartilhar sua sabedoria ancestral africana com aqueles frágeis frutos europeus, ele decidiu trocar sua casca.

Fui acordada no meio da madrugada por um brilho intenso que vinha da cozinha. Fui caminhando, ainda um pouco cega, com os olhos quase fechados, sendo guiada por aquela luz. Parei em frente à mesa e lá estava ele, brilhante e amarelo, chamando-me para degustá-lo. Ignorei a hora incomum da madrugada para refeições saudáveis e iniciei o ritual que tantas vezes havia imaginado: lentamente descascando aquele abacaxi dourado, que jorrava seu suco por entre meus dedos, lambuzando toda a bancada da pia.

Organizei os pedaços já cortados daquela fruta deslumbrante de maneira piramidal em um prato verde – talvez uma homenagem às duas semanas de convivência – e peguei um garfo, mas rapidamente coloquei-o de volta no jarro de talheres: era merecido que eu o degustasse de maneira primitiva, reproduzindo de dentro de mim os sons guturais do prazer de comer um sweet ananás. O primeiro pedaço desmanchou-se na minha boca e eu fechei os olhos. O segundo pedaço já se desfazia em minhas mãos, escorrendo seu sangue adocicado de frutose pelos meus braços, até que eu o detivesse com minha língua. Uma mordida e outra, e outra, e outra e de repente sinto em mim a vingança de meu refém tropical: mil aftas explodem em minha boca, tornando aquele momento de deleite em sofrimento e dor. Eu insisto e sigo comendo, mas a dor da pele de minhas bochechas rompendo-se em carne viva me impede de seguir adiante.

Enfurecida, guardo o que restou daquela carne amarela pálida em um tupperware de tampa verde e corpo translúcido, prometendo revanche àquele abacaxi de pH beirando ao zero, semelhante ao ácido de bateria. Eu fui inocente e deveria ter imaginado que isso iria acontecer. Esse abacaxi, aventureiro e selvagem, nascido em solo africano e morto em minha boca: ele não deixaria o mundo sem mostrar o infausto gosto de seu adeus.

 

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