Melodia de Embalo (parte II) – Crônica

Virei o rosto para ver o contorno dos seus cabelos encaracolados e desgrenhados escapando pelos ombros. Olhei mais uma vez para conferir a hora e me levantei quase que flutuando, sentindo meu corpo desencostar milímetro a milímetro do lençol. Comecei minha vida como se ele não estivesse ali, mas pensando em toda a trama que, como diria Drexler, me levava àquele desenlace.

No dia anterior às cinco da tarde havia saído com uma de minhas amigas, sabendo que algumas horas depois começaria o show da tal banda que eu não queria ver. Saímos ziguezagueando pelo centro da cidade, numa tarde morna de brisa leve, que talvez fosse ele já anunciando sua chegada, e que elogiava meu vestido verde de borboletas da mesma maneira que ele um fez um dia depois. Nos contentamos as duas em não comprar nada além de um café gelado. Nos sentamos na praça para ver a gente passar e deliberavamos sobre o horário de reencontro para a noite que já se aproximava, ao mesmo tempo em que maldiziamos nossa infeliz escolha de vir a um país tão distante de nossas almas. Numa cidade não cosmopolita se sente na pele e de maneira dura as diferenças culturais que causam esse abismo que chamamos de oceano atlântico. Não é uma casualidade apenas física senão espiritual este charco separador de continentes.

Naquela manhã eu me banhava mais lentamente que na tarde anterior, não porque não tivesse compromisso, mas senão porque já não me importava o atraso. O relógio dos músicos não tem ponteiro e nem as horas, ele marca compasso e eu já me movia no seu embalo. Na noite anterior eu cronometrava os minutos e planejava quanto tempo precisava para cada tarefa, saindo, para variar, atrasada e aos galopes para reencontrar minha amiga na frente do mercado. Dali saímos em direção ao pub, onde outra amiga nos encontraria depois. Entramos desatentas, seguindo a música que já se escutava desde a esquina da rua anterior à entrada do pub. Fomos surpreendidas por um silêncio quase que súbito e concomitante com a nossa aparição. O flautista silenciou a banda e nos deu as boas vindas, convidando-nos para entrar e apresentando os membros da banda. Nos olhamos e demos o veredito de que aquela noite sem expectativas seria uma boa noite.

Preparando a comida do dia naquela manhã, deixei cair uma panela e ele se despertou assustado. Fui até ele e disse para continuar dormindo. Sempre me incomodou esse tempo extra, dedicado a um relacionamento que nunca seria. Entretanto com ele, que era tudo o que eu não desejava para mim mesma, eu me sentia em casa na minha própria casa. Ainda dormido, Niels me abraçou pela cintura e me puxou para junto dele, como em muitas outras ocasiões no nosso curto tempo de contato ele fez. Eu disse que não dava pra ficar assim, ele disse que casava comigo para poder dar. Eu ri e me desatei dos seus braços, e disse novamente que ele poderia continuar dormindo, mas ele decidiu se levantar. Dançamos a nossa valsa ritmada, numa sintonia que eu nunca havia visto. Compartilhamos carinhos, opiniões secretas e nossos desejos mais íntimos enquanto quebravamos o jejum. Quando acabou a música, nos despedimos e ele partiu com um sorriso que estava em harmonia com o meu.

Segui a minha vida, como num domingo normal, revendo as mesmas pessoas dos outros tantos domingos que passei de maneira similar – café, livros, sol ou chuva – e rapidamente todas as lembranças daquela manhã já estavam no fundo da memória, ainda que eu estivesse vivendo de acordo com um relógio levemente descompassado.
Já em casa, um pouco adormecida por conta daquela noite mal dormida, escuto meu telefone tocando ao fundo dos meus pensamentos. Acordo um pouco ébria do sono e atendo um tal Niels, que a menos de doze horas do nosso último encontro já era criatura da minha mitologia pessoal. Ele disse que ainda estava na cidade e que queria me ver e meu coração esqueceu de bater por um segundo. Meia hora depois estava de volta, meu amante e confidente, que eu nunca mais deveria ver na vida. E dessa vez nós nos deixamos apaixonar como velhos conhecidos de um passado distante, que se reencontram depois de uma longa ausência. Nos infiltramos em nossas peles, rimos de recordações do dia anterior, como se houvesse passado muito tempo. Compartilhamos nossas músicas de estimação, nos apresentamos nossas famílias, nossas cidades, nossa história e nossa herança até a noite ir embora. O dia ressurgiu e nós celebravamos o nosso tempo juntos. ele me abraçava e me olhava enquanto eu escovava os dentes, eu o observava atentamente com o queixo apoiado nas mãos, enquanto ele percorria o quarto discutindo qualquer coisa do trabalho que havia deixado em Londres. E chegou a hora de se despedir mais uma vez.

Ele não queria se virar porque sabia que isso significava a ultima vez que nos veriamos, e me abraçava escorrendo lentamente na direção contrária. Se afastou da estação para embarcar, esperando qualquer indicação minha de que aquilo tudo não foi só na sua cabeça. Eu o olhava sorrindo mas distante, revivendo aquela cena do dia anterior e desejando-lhe sorte pelas cidades que ainda lhe restavam. Ele virou de costas sabendo que era isso, um ponto final de uma vida inteira que durou dois dias, seguiu na estrada e com sua vida, bem como era até antes daquele fim de semana. Eu não virei as costas – ao contrário, segui contemplando-o enquanto ele voltava ao encontro da banda e, dessa vez, não consegui afastar aquela memória recente para seguir minha vida normal. Talvez o tivesse logrado se eu tivesse virado de costas mas, sem poder reviver aqueles dois dias, passei a me mexer no embalo daquele ritmo folk, meio inglês, irlandês, dinamarquês e alemão, e ligeiramente diferente de tudo o que eu já havia escutado.

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