Frango Assado – Conto

Leonardo, o Bola, sempre pegava o refrigerante, enchia um copo pra ele, bebia, depois enchia de novo, ficava com o copo e, aí sim, servia os outros.

A explicação do seu apelido não é tão simples, ele nunca foi gordo nem nada. Com certeza a mãe dele escolheu com muito carinho o nome Leonardo, mas sempre disseram que ele parecia o Leandro, da dupla Leandro e Leonardo, então começaram a chama-lo de Leandro, que virou Leandrow, que virou drow, que virou dragon, que virou dragon ball z, que ficou muito longo, logo virou Ball, que, finalmente virou, bola.

Não era só no refrigerante que ele mostrava o significado da rataria carioca, o Bola era a mão mais leve do colégio. A gente era fudido, tava sempre fazendo uma vaquinha pra comprar pão e presunto no extra. Com a mão mesmo abríamos o pão, botava o presunto, que normalmente era apresuntado, dependendo do sucesso da vaquinha e comíamos. Numa quinta-feira ele saiu da padaria perguntando:

— Cês não vão beber nada não?

—  Não deu pra comprar nada

—  Eu compro

Entrou e saiu com um convenção limão. Uma escolha merda, mas não reclamamos, já que ele tinha bancado. Depois que comemos, voltamos para o colégio e perguntei para o Bola:

—  Ow, por que tu comprou convenção limão?

— Quem disse que comprei? HAHAHHA

Ele sempre roubava as coisas. Limão pra fazer caipirinha, refri pra misturar na cachaça e teve um dia que ele roubou um frango assado. Entrou na padaria — engraçado que era sempre na mesma padaria, que tinha umas 4, 5 câmeras —, falou “quero um frango assado”, o cara abriu aquele forno lá que os frangos ficam girando e perguntou:

— Qual cê quer?

— Aquele —  Apontando pro mais moreno.

—  Quer que corte?

—  Sim, por favor — Ele era um cara educado.

— Quer farofa?

— Pode pôr aí, comandante.

— Ta aí —  entregou a quentinha na mão dele e escreveu num papel “R$ 11,90”

— Beleza. Vou pegar um refri.

— Sem problema, lá na geladeira do fundo tão os gelados

— Valeu.

Pegou um convenção sabor guaraná e passou direto pelo caixa que tava meio confuso, cheio de gente pagando, e se foi. Voltamos para o colégio, armamos a mesa com o frango, o refri e umas batatas que o Uri tinha trazido de casa e fizemos nossa ceia.

Em 2005, quase não tínhamos aula, os professores estavam em greve, mas a gente ia, na esperança que pelo menos aplicassem alguma prova pra gente não ter que ficar em janeiro estudando. Tinha uma obra parada, perto do ginásio, cheia de tijolos. Combinamos, eu, Uri, Ken e Bola, de cada um botar 2 tijolos dentro da mochila, que sempre estava vazia mesmo, e levar pra rua perto da padaria, que era vazia. Levamos até lá, em frente tinha um mercadinho e o Bola foi lá e comprou um saco de carvão. Não era muito normal vê-lo comprar as coisas, mas ali era um lugar que não queríamos ter problema. Esse mercadinho era tipo um bar também, chamavam de Bar do Foda-se. Não sei o motivo, mas era ‘foda-se’ o bastante pra vender cachaça pra gente sem pedir documento. Começamos a acender o carvão e falei pra arranjarem alguma carne, dei 3 reais.

Eles voltaram depois de uns 5 minutos com uns pedaços de carne e uma cestinha de metal do Extra. Usamos ela como grelha. Comemos numa boa, ninguém encheu nosso saco, nem os vizinhos. Tínhamos a nossa churrasqueira. Os tijolos ficaram inutilizáveis, mas ainda tinha muito na obra. A grelha ficou preta na parte de baixo. O Uri deu um chute segurando as alças e soltou o fundo. Pronto, nossa grelha portátil. Botei dentro da mochila e voltei pro colégio.

A greve acabou e estávamos fudidos. Aulas até fevereiro e o outro ano letivo começaria em Março. 2 semanas de férias, apenas. Verão. Todo dia uns 40 graus. Pelo menos só precisava fazer as provas, não teria tempo passar matéria.

O Gustavo era um cara meio chato, mas sempre tava com a gente, perseguindo e fazendo perguntas. Era calouro, tava no primeiro ano ainda, nós estávamos no segundo. Já tava quase na hora do almoço. Dei um cutuque nele:

— Cara, vamo na sala do Uri, ver se a aula dele já acabou.

— Tá… Ow, Cabrito, por que vocês chamam o Eduardo de Uri?

— Porque ele é japonês.

— E?

— Japonês é amarelo.

— Hahaha, como assim? O que tem a ver?

— Uri, urina, amarelo, japonês e tal…

— Vocês são retardados, na moral. Hahahah

— E a namorada dele?

— Que tem? A Ariel?

— Isso, namorada do Uri, no começo era Uriel, depois virou Ariel

— Para! O nome dela não é Ariel?

— Não, é Camila, cara. Ariel, hahah, puta nome da Disney.

23 de Dezembro de 2005. Era a última prova de física do ano antes das provas finais, que, logicamente faríamos. Antes da prova, a galera veio falar comigo. Eu tinha a fama de terminar a prova em 10 minutos no máximo. O grupo era encabeçado pelo Higor. Eles eram da turma G, eu era da M. O nome dele era Rodrigo, mas ele era meio gordão, então a galera da G o chamava de Higor Dão. Higor era para os mais íntimos. Ele deu um passo à frente e veio falar perto do meu ouvido:

— Cabrito — Ele me chamava de ‘cabrito’, nunca entendi o porquê —, depois da prova, apaga as luzes. A chave geral fica no corredor, do lado do extintor de incêndio.

— O que ganho com isso?

— Isso aqui é uma ajudinha — disse, botando na minha mão um bolo de notas de 5 reais. Devia ter quase uns 50 reais.

— Beleza — falei.

            Depois da prova, saí, não tinha ninguém no corredor. Abri a caixa e tinha um disjuntor escrito bem grande “GERAL”, era um disjuntor de 40A. Meti o dedo e baixei a chave e saí ao som da galera em festa gritando “AEEEEEEEEEEEEE”.

            Foi um plano merda, ninguém descobriu, mas o professor acabaria anulando a prova. Tivemos mais um dia de aula, depois do natal, mas pelo menos eu tinha ganhado uma graninha. Comprei um frango assado, coca, pratos de plástico, garfos e fizemos nossa ceia de natal em cima da mesa de ping-pong.

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