Roubos, punhetas e vandalismo – Conto

1

A gente sempre queria arranjar um jeito de ganhar dinheiro, basicamente pra pagar os 65 centavos da Kombi e os 2 reais do mc donald’s. Depois do futebol ficamos em volta do banco da praça conversando. Ygor veio correndo e falou:
— Fabricio, Short roxo, chegae! — o short roxo tinha esse apelido porque só andava com o mesmo short roxo todos os dias quando era criança. Ele era o mais velho, tinha 13 anos. Ygor tinha 12 e eu 11.

— Tá!

— Tá!

Nos puxou no canto e falou baixo, para os outros não escutarem:

— Cara, já sei como a gente pode ganhar um dinheiro.

— Como? — Perguntamos.

— Peguei umas ferramentas na caixa do meu pai, vamos pegar umas calotas das rodas dos carros e vender ali na mecânica da favelinha.

— Vai dar merda isso — Falei.

— Vai nada. Ninguém vai dar conta vamos só tirar as que tiverem viradas pra calçada. Ninguém vai perceber.

— ISSO! — Ygor tava empolgado. Isso geralmente não era bom sinal.

— Ok, mas de noite. De manhã vai dar merda. Certeza.

Combinamos todos de nos encontrarmos na rua de baixo depois do Dragon Ball Z. Peguei meu inalador vick. Tava viciado naquela merda. De 5 em 5 minutos tirava do bolso e dava um puxão na narina, parecia um drogado. Não conseguia largar aquilo.

Chegamos no ponto de encontro, Ygor tava com uma ferramenta que parecia um pé-de-cabra miniatura e disse:

— Então, usaremos isso pra tirar as calotas. Caso não dê pra tirar na mão. Algumas delas têm porcas prendendo, aí, usaremos isso — tirou do bolso uma chave de boca e mostrou pra gente.

— Ok.

— Ok.

— Eu vou primeiro, Fabricio, você vigia a parte da frente do carro, Roxo, fica de olho se vem alguém por trás.

— Tá.

— Tá.

Começou a tentar tirar a calota com as mão, sem sucesso. Pegou o pé-de-cabra, apoiou no pneu e puxou. Ela saiu rolando, mas conseguiu pegá-la antes de rolar pro meio da rua, que tava deserta. Ele meteu a calota debaixo da camisa e saiu correndo sussurrando:

— Bora, bora, bora, bora.

Até o final da noite, já estávamos bons. Tínhamos 23 calotas já. Fomos pra uma casa em obra, e deixamos lá. Aquela casa com a obra parada há anos já, então parecia um bom lugar. A mais foda das calotas era do Fiat Brava de uma velha rica que morava 2 quarteirões da nossa rua. Na verdade, a melhor de todas, era a de fusca, mas único fusca do bairro era do Short Roxo, então não dava pra pegar.

Ficamos nessa, trabalhando durante 2 semanas, todas as noites. Queríamos juntar pelo menos 10 jogos de 4 calotas iguais pra poder vender tudo junto.

Voltando da escola, quinta-feira, tava louco pra chegar em casa e dormir. Tinha passado a madrugada toda pegando calotas com o Ygor e o Short. Tinha um PM parado em frente a minha casa. A viatura era um fusca, fiquei de olho na calota. Estava conversando com meu vizinho, gesticulando alguma coisa, visivelmente puto. Fui chegando perto e ouvi ele gritando:

— ESSES FILHAS DAS PUTA! (A gente zoava sempre entre a gente. Ele sempre falava filhas das puta) — Tão roubando a calota de todo mundo do bairro.

Baixei a cabeça e continuei subindo a rua em direção ao portão de casa.

— Ow… Fabricio — Chamou meu vizinho.

— Oi, seu Roberto.

— Você viu os moleques roubando as calotas dos carros?

— Não… Como assim? Ca-calotas, tipo da roda?

— Positivo. — disse o PM virando de braços cruzados pra mim.

— Não vi não, senhor. — Entrei em casa.

Meus pais estavam conversando. Não consegui ouvir sobre o que era, mas já imaginava. Meu pai sempre vinha almoçar em casa as quintas-feiras. Minha mãe fazia carne acebolada e era um cu. Eu odeio cebola. Eu como qualquer coisa, menos cebola ou azeitonas.

— E aí, filhão, como foi na escola? — Perguntou meu pai.

— Tranquilo.

— Você viu o que estão fazendo com os carros? — Minha mãe perguntou. Ela me conhece, já desconfiava de mim.

— O quê? — Sei ser cínico. A diretora do colégio me disse isso várias vezes.

— Tão roubando as calotas. Viu algo? — Meu pai perguntou.

— Não.

— Disseram que um deles tava cheirando pó enquanto vigiava enquanto o outro roubava.

— Dever ser aqueles pivetes da favelinha — Completou minha mãe.

Porra. Por pouco. O vick me salvol, mas vou ter que parar de vez de cheirar essa merda por aí, senão vão acabar se ligando que sou eu. Mandei uma SMS pro Ygor:

Fudeu mané. Deu polícia. Tão ligado que tinha um cara cheirando um negócio. Era eu com o inalador, mas tão achando que era pó.

Ele respondeu:

            HAHAHA… Tu é muito burro. Vou esconder essa merda lá na gruta.


2

            Na minha rua tinha um psicopata, Diego, ele era um cara legal, a galera da outra rua o chamava de Nazista. Era engraçado andar com ele, mas sempre tinha o risco de ele arriar nossas calças na frente das meninas ou jogar pó-de-mico no nosso cabelo, ou pior, dentro das calças. Ele gostava de fazer seu cachorro assassino avançar nas pessoas. Era um poodle, mas diziam que ele sabia treinar os cachorros pra matar e que constantemente fazia experiências com eles. Pra ter noção, o nome do cachorro é JOHN WAYNE 12. Dizem que todos os cachorros que ele teve tinham o mesmo nome, só ia mudando o número. Todo morreram com menos de 1 ano. Tem uma história que contam que o John Wayne 4 explodiu. Ele tava testando quanto tempo o cachorro aguentava dentro do micro-ondas. O 5 foi jogado do telhado na piscina, só que ele errou a piscina. A galera falava até que ele fudia com os cachorros. Não acho exagero, o nazista é bem louco. Eu preferia manter distância quando ele saía com o cachorro ou quando vinha correndo com o punho fechado. A gente sempre escapava, mas o Cristian sempre era o lerdão do grupo e tomava pó-de-mico na cabeça. O Cristian era o riquinho da rua, na verdade ele nem morava lá. Aparecia uma vez por mês. Seu pai trabalhava na MTV. Os dois eram toscos, de cabelo longo e jaqueta de couro. O pai dele até parecia legal, mas um moleque de 12 anos de jaqueta no calor do Rio… Tá pedindo pra ser zoado, mas às vezes, chamava a gente pra casa dele ver os pornôs que o pai dele tinha escondido no fundo da estante. Uma verdadeira biblioteca de VHS pornô. A gente não gostava muito dele, mas gostava muito de pornografia. Ninguém tinha vídeos assim, no máximo tinha Emanuelle no cine privé da Band. O pai dele só tinha um tipo de pornô: Hardcore, sem historia, sem frescura. Pura meteção. Enquanto estávamos vendo, lembrei de uma cena escrota. Uma vez o nazista amarrou o Cristian com os braços ao redor de um tronco de uma árvore, botou ele de quatro, arriou as calças dele e ficou roçando o John Wayne 4 no cu dele. Ele ficou lá gritando por uns 10 minutos, até que o nazista cansou e foi embora. O short roxo esperou o nazi entrar em casa e soltou o Cristian.

            Eu e Ygor estávamos descendo a nossa rua pra roubar carambola da casa da esquina e, quando passamos pela frente da casa do Cristian, vimos que não tinha ninguém lá.

— Bora entrar nessa porra!

— Bora — Disse Ygor já escalando a mureta de 1,5m —, vem!

            Os caras não tavam nem aí mesmo pra casa. Girei a maçaneta e a porta abriu, tava destrancada. Fomos direto pro esconderijo das fitas e ligamos. Vimos uns 3 filmes, eram bem curtos, não passavam de 20 minutos. Ygor virou pra mim com uma cara de filho da puta e falou:

— Que se foda! — Botou o pau pra fora e começou a socar uma sentado no sofá, em poucos minutos o filho da puta levantou e começou a gozar no sofá.

Eu ri pra caralho. Baixei a bermuda e comecei a bater uma. O filme era pura meteção no alto de um planalto com imagens aéreas, devem ter gravado com helicóptero, certeza. Mega produção pra um pornô sem história. Senti o gozo chegando e levantei. Mirei o pau pra almofada do sofá e mandei lá mesmo. Desliguei a tv e fomos pra cozinha. Não tinha nada pra comer. Quando o Ygor foi abrir a geladeira, seu cotovelo bateu na parede e fez um rombo. Aquela porra era de gesso. Quando percebi que o teto também era de gesso, dei um grito “SHOOOORYUKENNN” e mandei um gancho que perfurou o teto. Meu braço ficou branco até o cotovelo de tão alto que soquei aquela merda. Saímos correndo e rindo. Fomos pra casa do Ygor logo depois pra assistir Dragon Ball Z e fiquei lá até a metade do Star Wars — Guerras Clônicas, que passava logo depois. O desenho era um saco, mas ele gostava daquela merda. Fui pra casa, já devia ter comida pronta.

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