Melodia de Embalo (parte I) – Crônica

Amanheci três horas depois de ir dormir, de um sono profundo mas inquieto. Não me mexi para não acordá-lo, mas suspirei profundamente e ele se mexeu. Na noite anterior, quando nos conhecemos, havíamos passado horas conversando enquanto eu me repousava em seu peito liso e embaraçava minhas pernas nas suas. Ele me contava da sua infância numa ilha no sul da Dinamarca, das aulas de música, do pai, da mãe e da irmã, três anos mais nova que eu. Eu fechava os olhos e tentava imaginar como era a sua escola, como era a sua casa e tinha a imaginação interrompida por alguma pergunta ou comentário sobre as nossas primeiras horas juntos.

Tentei respirar mais leve e ele virou o tronco para o outro lado já que a claridade do dia penetrava a fresta da persiana, indicando que eu já estava atrasada para qualquer coisa que havia então planejado. Peguei meu celular repleto de mensagens das minhas amigas: “Vocês ainda vêm?”, “Você foi embora com ele?”, “Já saímos, estamos indo pra casa.”, remontando os quartos de hora da noite anterior. Eu não ouvia nada,nem gente nem mensagem, nem celular, porque um garoto dinamarquês tocou um samba na sua bateria pra mim.

Ele ria e me perguntava se estava bom, se samba era assim mesmo. Samba era assim mesmo: inclusivo, de modo que um dinamarquês que não sabia de Brasil, nem de Rio, nem de nada me estava tocando um samba no meio de um pub, numa cidadezinha no sul da Alemanha. Eu ria de fechar os cantos dos meus olhos e ele me contemplava com seus, azuis escuros, que não se viam tão azuis de qualquer distância maior que meio metro, e com um sorriso escancarado. Eu segurava seu rum com coca-cola convidando-o para voltar ao meu lado para que ele me contasse mais sobre essa vez em que ele ganhou uma bolsa para estudar música graças ao samba.

Ele pegou sua bebida de volta e nós voltamos aonde previamente estavam minhas outras amigas, que antes que se fossem já eram para mim quase inaudíveis. Ele me traçava a sua rota: India, Inglaterra, Irlanda; construiu um estúdio e um barco, foi de carro até o norte da Noruega e tudo o que ele me contava soava como métrica de poesia. Eu me calava na maior parte das vezes, esperando ouvir o máximo que pudesse, e respondia o que me era perguntado com alguma graça e algum riso. Ainda quando as meninas e os outros meninos da banda estavam por lá, eu as escutava, reparava nas reações dele e era fácil dizer que ele era brisa: leve, gentil e fluido.

No seu braço e em cinco braços mais havia um símbolo que me pareceu curioso porque era meu e eu não gostava de dividí-lo com mais ninguém. Eu havia reparado nisso logo antes de conhecê-lo na verdade, quando estava sentada sozinha na calçada, no intervalo do show, sendo importunada por um romeno que andava ofendido com uma de minhas amigas. Eu o via desde uma distância, que agora era menor do que no início do show, quando ele estava atrás da bateria e eu atrás de um par de mesas. E lá estava no seu braço a tatuagem que eu estava enrolando para fazer há uns três meses com a desculpa de que meus pais não aprovariam.

O cantor da banda, que estava em outro grupo, se aproximou de mim com um pilot preto e marcou o meu braço com aquele mesmo símbolo, apresentando-me ao mesmo tempo àquele baterista dinamarquês, perdido em uma banda folk irlandesa. Eu fiz uma cara de muxoxo, porque aquele baterista havia passado toda a primeira parte do show me encarando e sorrindo pra mim e eu já havia dito às minhas amigas que não era o meu tipo: “É muito ciranda, não gosto nem da cara, nem do cabelo, nem do corpo, nem de nada! Vocês são muito groupies!” – e eu tragava lentamente todas as minhas palavras de volta ao me despertar de costas para aquelas costas.

Ele se apresentou e costurou e coseu todos os assuntos, levando o meu ouvido para mais perto de si. E permaneci assim, enredada nos seus interesses, curiosa pela sua vida até me despertar, enquanto ele, ainda inconsciente pela noite mais curta que o dia, roubava minha blusa para tapar seus olhos azuis profundos adormecidos.

“PARTE 2”

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