Cajá-manga – Conto

Caja-manga: fruta escrota. O ano todo ela estava verde. Não dava pra comer e só tinha uma cajamangueira no bairro. Não sei se era uma árvore fodida ou se o cajá era assim em todos os lugares, mas não dava pra comer aquela merda.

Subi na cajamangueira em frente a casa da Luciana junto com o Ygor. Sempre na esperança de ve-la. Luciana era minha namorada, mas era esquisito. Ela não falava comigo. Estávamos juntos há 6 meses e nunca tinha ouvido nada além de “sim” e “não” praticamente inaudíveis.

Do alto da árvore, só dava pra ver a cozinha e lá estava ela, sentada no chão abraçando os joelhos enquanto conversava com seus pais e sua irmã. Ficamos lá até um cajá passar raspando na minha orelha. Era sempre igual, todo final de tarde, sempre acabava em guerra de cajá. Aquela porra só servia pra isso.
Resolvi que ia acabar com aquela merda. Eu queria ficar olhando a Luciana, então arriei minhas calças e dei um cagão que caiu a uns 30 cm do Bernando, meu vizinho mala, que gritou: “QUE NOJO CARA! EU VI TEU CU ABRINDO DIREITINHO. FILHO DA PUTA!” e saiu correndo. Vitória! Ele foi embora. Continuei olhando ela conversar com a família até o anoitecer. Já tava cansado já, ela não fazia nada demais além de conversar, então chamei o Ygor: “hey… viado… vambora. Vai começar dragon ball”

No outro dia a gente tava brincando de um jogo que tínhamos inventado: Polícia e ladrão de bicicleta, que era basicamente Polícia e ladrão, mas de bike. Pra pegar o ladrão era preciso estar em contato com a bike (montado ou não) e encostar, ou na bike ou no ladrão. Muitas vezes escondíamos a bike e sabíamos em alguma árvore pra nos esconder.
Depois de jogar a tarde inteira, paramos. Recebi um sms da Luciana, que dizia:
“Vem aqui no patrick.”
Falei com o ygor:
– Cara. Acho que não to mais afim dela.
– Então termina cara. Vocês nem se falam. Vacilo ficar com ela sem gostar.
– É.Vamo lá comigo.
– Vamo.
Pedalamos até lá. Ficamos todos sentados em meia lua. Eu não falava nada, nem ela. Ela me deu a mão e eu desviei. Peguei meu celular, corri até o nome dela nos contatos e apertei “apagar contato” Ela olhou, na hora seu olho se encheu de lágrimas. Eu fui cuzão. Me senti cuzão, mas fiz o que era certo. Ygor falou que achava vacilo eu enrola-la e ele tava certo.

Depois percebi que na verdade, o cuzão não era eu, o Ygor, 2 semanas depois tava namorando com ela. Fiquei puto. Mais ainda por que eles conversavam normalmente. Parei de falar com ele. Tava puto. Não falei com ele as férias inteiras. O que foi bom, pois ele foi pego roubando uma loja de eletrônicos e tenho certeza que estaria junto. Éramos conhecidos como os merdeiros do bairro. Agradeci por ele ter roubado minha namorada muda e por eu não ter roubado merda nenhuma e não ter sido fichado.

 

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