GRU – Conto

Tinha nome de homem formado, mas nos deixou menino. Era engraçado o jeito que ficava puto quando pediam para explicar seu apelido. “Gru”, era como o chamávamos porque quando criança sempre andava grudado com um amigo dele. Um amigo que nunca cheguei a saber quer era, nem mesmo seu nome.

A última vez que o vi, foi em casa, quando ainda morava com meus pais. Estudava perto da minha casa, bem ao lado, em um dos maiores Campus de educação física do Rio de Janeiro. Um campus completo, lindo, da gama filho. Hoje, a Universidade nem existe mais. O terreno deu lugar a mais um condomínio de prédios.

Passou lá em casa um dia para falar com a gente. Tava participando de um campeonato de futebol na rua de baixo, minha mãe ofereceu tudo que possa imaginar de bebida e comida, parecia um menu de buffet, mas ele disse que só queria água. Não costumava comer muito e, quando comia, eram coisas esquisitas. Abria o pão francês e botava manteiga com uma colher cheia de açúcar.

Era madrugada, poucos meses depois disso. Parece que todos lá de casa estavam com insônia esse dia, como se estivéssemos esperando por algo, todos juntos, vendo alguma série na TV. O telefone da sala tocou. Tarde, muito tarde para ligações, minha mãe foi atender.

Um acidente de carro tinha tirado a vida do meu primo. Ela parou debaixo da porta da sala em choque e disse “Lélio morreu”… Um silêncio pesado tomou a sala, levantei, a abracei e… não senti nada.

“Por que você não tá sentindo nada? Qual o seu problema?”, pensava sem parar. Não conseguia sentir tristeza alguma, não aceitava que fosse tão frio a esse ponto. Fui para o quarto e deitei a cabeça na cama, então bateu forte em mim aquilo tudo, como uma marretada. Ali desabei, não lembro de ter dormido nessa noite, só de chorar até o sol aparecer… Dormia apenas pela exaustão, passei alguns dias entre sono e choro, sempre na cama. Não saía para nada e ninguém ia falar comigo, ninguém me chamava pra comer, ou sair. E acho que foi a melhor forma que encontramos para passarmos por esse luto. Não fui no velório. Eu achei da primeira vez que era a única chance de me despedir propriamente, mas a última experiência não foi algo bom de se viver, parecia mais fácil fugir dessa  situação naquele momento, aos 15.

Toda vez que pego um voo pra guarulhos lembro dele, aquele GRU não me deixa esquecê-lo. Enquanto estou nas nuvens saindo ou chegando em GRU me sinto mais perto dele.

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