Carry On – Conto

Olívia era tudo de diferente. Poucas coisas a tiravam do sério. Começou aos 18 na faculdade de História e era a pessoa mais positiva que já conheci. Mesmo sabendo muito mais que muitas das pessoas que gostavam de discutir, ela nunca se pôs acima de ninguém. Sempre os ouvia falar, no final, dava um sorriso simpático, nada sarcástico e dava sua opinião. E mesmo que estivesse certa, não esperava impor verdades para quem não quisesse absorver o que ela tinha pra ensinar. Ela me ensinou tanto, não só sobre história, mas sobre tudo. Ela me fez perceber que eu estava errado em muitos aspectos no meu relacionamento com minha mãe. Ela era assim, nunca falava que estávamos fazendo algo errado, ela, de alguma forma, nos fazia perceber isso apenas expondo as diferentes formas que as pessoas encaravam os problemas.

A gente fazia parte de um grupo e nos comunicávamos por lá, online. Depois, começamos a trocar mensagem pelo MSN Messenger. Toda vez que Olívia ficava online, tocava um trecho de Carry on da Norah Jones. Dizíamos que era nossa música. A gente tinha bastante coisa em comum, principalmente o gosto musical e a vontade de comer. Só a comida ficava no nosso caminho, mas não demorava muito. Lembro que jantava bem rápido para voltar a falar com ela. Eu só fui a ver, de fato, depois de 4 anos. Quando ela me chamou para sua festa de formatura. Disse que queria me conhecer pessoalmente no dia que seria o mais feliz da sua vida.

Ela realmente estava muito feliz. Bebemos e dançamos, mesmo sem jeito eu tentei, mas só estava ali por causa do efeito da bebida e da Olívia. Logo depois, me apresentou seus amigos, que ficaram discutindo política boa parte da noite, enquanto isso, a gente ria e se olhava até um dos dois ficar sem graça. Já amanhecendo, sentamos numa mureta e ficamos olhando para as pessoas, descalças e exaustas. Ela disse que chamaria um táxi para ir pra casa. Enquanto esperávamos, conversamos mais e os assuntos não pareciam ter fim, até que ela ficou com um olhar sério e disse:

— Desculpa.

— Por que? O que rolou? Você tava tão feliz até agora.

— Nunca achei que chegaria até aqui. Digo, nessa noite.

— Como assim?

— Eu tive câncer de mama. Desculpa te contar só agora. Eu não queria que sentisse pena de mim.

Fiquei em silêncio alguns segundos e me odiava por estar em silêncio naquele momento, dizia pra mim “responde, cara, atitude!”.

— Você não tem que se desculpar de nada. Eu não faço ideia do quão difícil deve ter sido essa luta até agora.

— Foi…

— Mas…

— É… Eu sei o que vai perguntar. Semana passada eu recebi os últimos exames e ele voltou. Terei que recomeçar o tratamento e me sinto mal de ter te chamado, dançado com você e te olhado da forma que olhei. Eu não tenho certeza de nada, só estou vivendo e tentando não machucar ninguém no caminho.

Trouxe ela para perto de mim com meu braço, ela me abraçou colando a face em meu peito. Dei um beijo longo no topo de sua cabeça e ficamos ali, parados por alguns minutos, até que gritaram: “Olivia! seu táxi chegou”. Ela levantou a cabeça e me deu um beijo rápido na boca apertando minhas bochechas enquanto enchia os pulmões de ar, me abraçou e soltou uma tonelada de culpa numa expiração pesada que terminou com um gemido de choro. Virou rápido e se foi.

Foi numa terça-feira, umas duas semanas após a festa, que postaram no seu perfil um recado escrito pela sua irmã que dizia:

URGENTE
NOTÍCIAS VELÓRIO E ENTERRO

Estou por meio do perfil da Olívia dando notícias muito tristes.
A Olívia foi para o hospital hoje de manhã e não resistiu.
Ela está sendo velada no VELÓRIO municipal de Barueri

O ENTERRO será amanhã 11h da manhã no Cemitério…

Eu mal consegui ler tudo e também não queria vê-la pela última vez dessa forma. Queria deixar em minha mente a cara dela me olhando aquela noite toda e no beijo de despedida que me antecipou na noite mais feliz da sua vida.

Eu deixo a letra de Carry on pendurada na parede numa moldura simples, como era Olivia. Simples, calma e pacifica.

Carry On

And after all’s been said and done
(Who said it best, were you the one?)
Let’s just forget, leave it behind
And carry on!

If you should find the time to speak
Then speak to me, I’d never keep
You from your final destiny
So carry on

Into the quiet unbound
What you have lost, I’ve never found
I lost my nerve, yet peace surrounds
So carry on

Into the quiet unbound
What you have lost, I’ve never found
I lost my nerve, yet peace surrounds
So carry on

And after all’s been said and done
Who said it best, were you the one?
Let’s just forget, leave it behind
And carry on
Let’s just forget, leave it behind

(And carry on!)

 

Continue

E depois de tudo que foi dito e feito
(Quem disse que é melhor, você era o único?)
Vamos esquecer, deixar isso para trás
E continuar!

Se você deve encontrar o tempo para falar
Então fale comigo, eu nunca iria manter
Você de seu destino final
Então continue

Tranquilamente, sem amarras
O que você perdeu, eu nunca encontrei
Eu perdi a cabeça, mas a paz circunda
Então continue

Em um libertar tranquilo
O que você perdeu, eu nunca encontrei.
Eu perdi a cabeça, mas a paz circunda
Então continue

E depois de tudo que foi dito e feito
Quem disse que é melhor, você era o único?
Vamos esquecer, deixar isso para trás
E continua
Vamos esquecer, deixar isso para trás

(E continuar!)

 

 

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