Pra fudê (poema) (+18)

INGLÊS

a gente não podia

se dar o luxo de pagar cem reais

na conta de energia.
quando estava frio ligávamos todas as bocas do fogão
com panelas iguais com água até a boca.
e borbulhavam e esquentavam

e dificilmente a conta de gás

passava dos trinta reais.

 

passamos fome, nós dois. gastávamos quase tudo com contas.
Sobrava muito pouco pra comida, que era basicamente ovo e arroz.
eu também gostava de comprar uma peça grande de mortadela
e refogar-la com o arroz, em cubos. E comíamos à luz de velas
eu deixava os ovos pra ele que gostava mais.
Era um banquete de menos de cinco reais.

nosso sonho sempre foi morar
na frei caneca, nunca de frente pro mar
na frei foi onde ficamos pela primeira vez
e também pela fudemos pela primeira vez
naquele hotel na frente da alôca. que clichê:
um casal gay morando na rua dos gays e michês
mas que mal pagava o próprio teto,
enchendo o cu de mortadela, ovo e arroz
parecia um caminho certo e reto, o de nós dois
sendo feliz apesar de tudo isso, pois
dentro de casa era tudo tão quieto
e sair na rua era tão tranquilo.
A não ser depois das 2 da manhã,
quando neonazis passavam cheirados nos encarando,
mas era sempre só provocação. com o tempo fomos levando
aprendemos a relevar, porque éramos felizes estando
ali no restante das horas do dia, se amando
 

conseguimos depois de três anos

equilibrar as contas, pagar os empréstimos, consertar os canos,

quitar todas as dívidas, inclusive do restaurante colombiano

que sempre íamos pra comemorar qualquer coisa.

 

Paramos de receber cartas todo mês
da companhia de energia
e a de gás parou ligar todos os dias

propondo acordos para acertar as contas pendentes
foi aí que tudo começou a se desequilibrar entre a gente.

 

Gustavo tava indo bem no trabalho e eu também.

no final do dia brigávamos por louça, faxina,

divisão de contas, ou das compras que eu fazia sem avisar,

os jantares com os amigos. brigávamos sem parar

e deixamos isso fazer parte da nossa rotina

como se fosse uma novela, todos os dias

quebrávamos o pau depois do jornal nacional.

ele insinuava que eu não ajudava nas tarefas de casa

e que não queria fazer nada da vida.

“você só quer saber de gastar dinheiro e balançar esse pau”,

“você é mimado demais pra vida adulta a dois”

e saía batendo a porta bem forte pros vizinhos ouvirem, toda vez

que eu o confrontava. Fazia plantões sem avisar, e dizia

que não podia usar o celular na sala de cirurgia,

passava noites inteiras fora e voltava pra casa
cheirando àqueles sabonetes bem merdas de motel e baba.

eu sabia, mas chupava aquele pau com gosto de borracha todo dia,

que mal endurecia e ele já dormia (ou fingia).

 

no meio da noite me pegava dormindo. ele sabia

que eu tinha uma tara de ser comido dormindo e me comia,

sem carinho, sem aviso, pensando em outro macho e eu sabia.

Eu sabia e eu gostava quando ele metia.

acordava no susto e ficava com tesão

enquanto na minha nuca sentia sua respiração.

 

no último ano mal olhou na minha cara,
mal deixou comer seu o cu. Se tentava dizia “para!”
só ele me comia, só por trás,
sem chances para troca de olhares e gozava
em alguns minutos e eu batia
uma punheta enquanto ele dormia.

escroto. covarde. fudido. viado que eu amava

e por esse motivo, me odiava.

me odiava por esperar no sofá das 20h às 3 da madrugada.

me odiava por não dizer nada

quando passou a dormir fora de casa.

começou com a desculpa de ter cirurgias de emergência.

duas, três, quatro, cinco noites na mesma semana
sem nem dar uma passada em casa.

 

um dia foi embora e deixou uma mensagem:
“não tá mais dando certo. preciso sair.

você pode separar minhas coisas numa caixa?

é muito doloroso pra mim.”

Filho da puta. e no mesmo dia estava eu
de quatro, juntando todas as roupas do armário

no fundo, esperando que mudasse de ideia

quando fosse buscar aqueles livros

que pesava cada um mais de cinco quilos.

 

foi foda descobrir que ele tinha um amante

por mais de um ano e quase dois

anos depois de ele ter saído de casa.

conversando comigo, achou que se abrindo

teria alguma chance, disse que errou e soltou

que o cara não queria nada sério com ele.

 

só queria um cuzinho pra comer duas vezes na semana.

parecido com o que ele fazia comigo. 

 

passei fome de novo quando jogou
uma tonelada de contas nas minhas mãos
de uma hora pra outra.
não ter nem 5% do meu salário
pra comprar o pão.
mas eu cresci.
todo dia intensamente vivi.
todo dia pesava
e senti muitas vezes vontade de chorar
mas eu não tinha tempo pra chorar.
meu tempo era para trabalho
e pra me ocupar
dobrei minha jornada.
foram mais 4 meses no vermelho
até poder me equilibrar de novo e me achar.
achar novamente formas de ser ser feliz, sim,
sozinho e feliz.

 

me envolvi com poucos caras e com uma mulher,

por desespero, pensando até

que inovando voltaria a me apaixonar.

faz tempo que não como

ou dou pra ninguém. Eu só chupo.

quero ver a cara deles enquanto gozam em mim.

só isso me dá prazer hoje em dia.

toda vez que gozo, solto uma porra densa e amarelada… velha.

“Nada sadia”, o doutor Gustavo diria

de vez em quando, bem raro,

fico de pau duro quando acordo.

 

quando chupo o pau dos caras que esbarro

na rua de madrugada, deito de bruços,

amassando meu pau contra o colchão,

que não aguenta ficar duro nem 5 minutos.

me contendo em chupa-los. quando estava

com o Gustavo, nunca imaginei que aguentaria

ficar um dia sem gozar.

Mesmo sozinho naquela casa,

com ele do lado ou não,

todo dia eu gozava. Era viciado em gozar.

mas agora com coração empedrado, nada.

frio e escroto, era como eu me sentia.

parecido com o jeito que ele era comigo

naquele último ano de agonia.

 

saí da frei. não aguentava

ver aquele armário que me fez esvaziar.

que a cada peça de roupa que eu pegava me fazia chorar

achei que nunca superaria aquela dor

que apertava as entranhas. e não superei.

a dor física passou, mas o ódio que sinto

quando lembro de tudo que passei…

fudeu minha vida.

fudeu minha cabeça,

fudeu meu cu,

mas não fudeu com minha vontade de viver.

sozinho, sim, mas

viver a minha vida com minhas próprias escolhas

é minha nova definição de harmonia.

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