Ópera (+18) – Conto

Quando saí do banheiro, ele estava no corredor e não foi por acaso. Abraçou-me e apertou com as mãos cheias a minha bunda. “Nossa… sempre quis fazer isso… É muito melhor do que eu imaginava”, disse com sorriso sacana.

O jeito que ele segurava meu cabelo entre os dedos, alisava meu seio com o antebraço e me mordia  de leve a pontinha da minha orelha me deixou totalmente desconcertada. “Você é muito gostosa”, sussurrou no meu ouvido. “Você também”, respondi. Fiquei completamente sem graça e perguntei “o que?”, mesmo ele não tendo falado nada, pra ver se fugia do assunto. Ele percebeu que estava sem graça e me beijou ainda apertando forte meus fios entre seus os dedos.

Achei que seria melhor ir embora. Eu tinha acabado de terminar meu namoro e está tudo meio novo pra mim. Estava me sentindo como uma adolescente; Exatamente o que eu era quando comecei a namorar, há oito anos. Pra falar a verdade, apenas dei um tempo e não perdi tempo, certamente diria meu namorado, digo, “ex”, sei lá.

Talvez não fosse a hora certa de transar com ele, porque comigo, só transar não é o suficiente. Preciso ser atormentada e da pessoa ali, enchendo meu saco às vezes. Sendo legal. Existindo, realmente existindo na minha vida. Não só mais uma transa. Não sei. Nunca tinha parado pra pensar nisso. O Gustavo, por exemplo, me irrita, mas, às vezes, parece melhor ter ele ali me enchendo do que ninguém se importando comigo e, pensando em retrospecto, sempre preferi isso. Quero viver em uma ópera. Oscilando entre amor e ódio.

Despedi-me do Fabrício e fui pro aeroporto. Prometi que iria para São Paulo para conversar com o Gustavo nesse final de semana.

Da janela da poltrona 9F vi uma coroa luminosa se formando na orla do Rio de Janeiro à caminho de São Paulo no fim daquele domingo. Um frio na barriga me estremeceu até a espinha, que não sei ao certo se foi pela ligeira queda de altitude da aeronave, ou pela queda de temperatura por dentro do meu corpo.

A coroa de luzes que abrigava um reinado de calor se distanciava. Na real, estava indo pra São Paulo pra terminar com ele, mas não fazia ideia se realmente teria coragem para isso. Um relacionamento de oito anos à distância que sempre deu certo, mas ultimamente ele insistia em controlar minha vida. Queria decidir que horas eu dormiria e se poderia sair ou não com minha amigas. Foi por isso que pedi um tempo.

Fiquei com um cara que parecia ser seu inverso, mas não é a imagem que todos passam no começo? De segurança e liberdade. Não que seja o começo de algo, mas é preciso um bom tempo para conhecer de verdade uma pessoa. Pela minha experiência, demora mais de sete anos.

Botei na balança. De um lado um namoro abusivo recheado de agressão verbal e do outro um cara que insistia para que eu fosse livre e que não parava de dizer maravilhas sobre meu corpo, de que tanto tive insegurança. Minha mãe e namorado viviam criticando meu corpo. Agora ele, o corpo, está numa fase muito boa, mas só ouço elogios de uma dessas três pessoas. Mas sempre fez de modo moderado, até eu dizer pra ele que as coisas no relacionamento estavam críticas e contar dos absurdos que ouvia do meu namorado. “Absurdo!”, foi como ele traduziu a situação. Nunca tinha pensado dessa forma até conhecê-lo.

Um senhor que estava na poltrona ao lado puxou assunto, reclamando de qualquer coisa da política. Sempre tenho dificuldade para interagir nessas situações. São sempre assuntos tão tediosos. Na verdade, a reclamação é produto do tédio, assim como o desejo de compartilhar tragédias ou notícias ruins. A conexão parece ser mais fácil quando grudamos no outro algo que deu errado no nosso dia, ou até mesmo tragédias que aconteceram em outros estados, países, ou até planetas. “Você viu…?” — essas duas palavras precedem uma tragédia. Garanto.

Quando o avião pousou, tirei o celular do modo avião, recebi as mensagens do Fabricio:

Foi gostoso hoje. Cheguei em casa, dormi meia hora e até sonhei com você

Eu apertava bem forte os fios do seu cabelo entre meus dedos, com a mão aberta, enquanto te trazia pra perto de mim e fazia ficar com a boca toda cheia. Você fechava e apertava bem forte os olhos enquanto esvaziava e enchia de mim a sua boca. Cabelo solto, todo bagunçado me desestruturou totalmente, num ritmo quebrado, sem muito sentido, te balançava. Meu punho se fechou involuntariamente, fiz força contra seus fios e te enchi de mim, como se estivesse desenhando algo na sua face.

Lembro como ele mal conseguia esconder o volume na bermuda quando cruzou comigo no corredor do bar. Eu lia essa mensagem enquanto essa cena rolava na minha cabeça e de quando senti ele se amassando contra mim, duro, me apertando. Estou em uma crise de tesão e, ao mesmo tempo, tomando coragem para terminar meu namoro em crise. Criava falas perfeitas e motivos super convincentes para terminar numa boa, mas a imagem da bermuda dele toda atrambolhada me tirava totalmente o foco… Ele pulsava, de vez em quando, por dentro da bermuda, se preenchendo de sangue.

Nossa! Só falta eu desembarcar. O pessoal da limpeza já estava entrando.

Saí do avião, fui ao banheiro na área de desembarque, depois andei rapidinho pra fila do taxi.

“Boa noite, Vila Madalena, por favor.” “Algum caminho de preferência?”, perguntou o taxista. “Tanto faz”, e ele continuou: “Podemos pegar o…”, “O que o senhor achar melhor”, disse, cortando-o.

Nunca faria isso se estivesse no Rio. Lá, temos que parecer íntimos do trajeto, é bom até estudar o caminho no celular antes de entrar no táxi, para não correr o risco de pagar o dobro. Agora parece que tabelaram o valor dos taxis no Rio. Não sei dizer se está, de fato, funcionando. Principalmente para turistas.

Chegando lá, toquei o interfone. O porteiro demorou uns bons dois minutos para atender. “Boa noite, qual apartamento?”, perguntou. “Oi, 309, por favor.” “Quem fala?” “Roberta”, respondi. Desligou. Uns segundos depois ouvi o clique, abri a porta e subi.

Era esquisito. Uma portaria de vidro fumê. À noite não tinha ninguém, mas acho que só os moradores sabiam disso, ou acreditavam que eram os únicos. Era uma máquina que encaminhava o interfone pra uma central, onde monitoram por vídeo, quem entrava e saia do prédio. Realmente a galera desse bairro não gostava de dar “bom dia” para o porteiro. Parecia um prédio fantasma. Nunca tinha criança nenhuma brincando por lá.

Eu cresci no subúrbio do Rio, o meu Rio tinha uma certa mistura, não era como essa São Paulo ou o Rio da novela. Acho que conheci São Paulo antes do Rio da novela.

Não faz muito tempo que fui pela primeira vez em uns bares do Leblon, coisa chata, cara, com gente branca classe média-alta ouvindo Racionais no Posto de gasolina e cantando em coro como se realmente entendessem algo do que cantavam. Lembrou muito a Vila Madalena do meu namorado. Lá no subúrbio é tudo tão naturalmente misturado. Em São Paulo tem bairro de italiano, bairro de alemão, bairro de japonês, bairro de nordestino e ninguém se mistura.

Andei pela avenida paulista, peguei ônibus, trabalhei em alguns eventos e não vi negros, afinal, aqui eu sou preta? Por que no Rio eu sou misturada, mulata, me chamam de “nega” sem medo e sei lá o que… Em São Paulo pouco vejo peles mais escuras que a minha. Eu conhecia racismo, mas não estava acostumada com essa segregação. Até a praia, que pra mim era sinônimos de agregação, um lugar democrático, no litoral norte de São Paulo era o contrário.

Durante a infância tomando banho de mangueira na rua só de calcinha, colada no corpo transparecendo a cor preta da minha pele, éramos todos soltos. Nos dias de hoje, textões na internet sobre as crianças “largadas”. Na escola mal percebíamos que o lápis cor de pele não representava a cor de nossas peles, em nossa maioria. Apenas replicávamos o nome da cor sem perceber seu real significado.

Minha prima que morava na Tijuca, tinha muito mais condições que minha família. Em alguns finais de semana que ficava na casa dos meus tios, íamos para o clube. Parecia que todas as vezes que eu começava a brincar, as outras crianças tinham que ir embora. Era só eu entrar na piscina que, uma a uma, as crianças eram chamadas por suas mães.

Demorei uns anos pra perceber que as mães daquelas crianças não queriam que elas se misturassem comigo. Uma menina negra.

Bati na porta. Ele abriu. As luzes estavam baixas. Só tinha um abajur ligado na sala. Sem falar nada, nem cumprimentá-lo, fui direto para o outro lado da sala e encostei a cabeça na parede, dando as costas pra ele. Senti que ele me olhava. Baixei a calça até a metade da coxa. Encostei minha cabeça no braço que estava escorado na parede e me inclinei. Ele travou. Deveria estar suando pelas mãos. Olhou por horas, que na verdade eram alguns segundos. Chegou perto, bem perto. Senti sua respiração pesada na minha nuca, me arrepiou. Segurei a respiração quando o senti bem perto de mim. Ele botou a mão na parede sobre o meu ombro, chegou bem perto do meu ouvido e disse: “Não”.

Dei pra ele por pensamento durante horas em alguns segundos. Ele me comeu da mesma forma e só o ar que saiu da minha boca entrou em contato com ele depois de se chocar contra a parede. Quando ele soltou o ar, senti o calor que ele tinha guardado, naquela transa imaginária.

Que raiva! Queria dar, dar muito, violento, lento, intenso, de quatro, cavalgar, chupar tudo. Eu sou boa nisso. Sou muito boa, inclusive, mas estou com tanta raiva, principalmente por ter que pensar em dar, em vez de dar. Será a minha única opção? Porque dar eu não conseguia, nem pra ele que não me quer, nem pro Fabrício, até aquele momento. Pensando bem, dar para o Gustavo eu não quero mesmo. Quero Fabrício, quero qualquer um, menos ele. A quem eu estou tentando enganar? Hoje eu não quero nada com ele.

“Olha! Ela quer trair”, Gustavo diria.

Eu não queria trair. Eu só queria dar e, mesmo assim, nada me impedia. Estava solteira, ele estava solteiro. Era uma questão de consenso.

Por mais que o desejo fosse forte, hoje, meses depois de termos terminado, eu tento, eu peço, desejo e não traio. Que marca ele deixou. Como a de um gado preso, cercado de arame farpado.

Puta que pariu, que vontade de xingar dando, de gemer alto e beijar tudo à noite toda. Puta que pariu, eu quero dar. Sabe por quê? Porque eu não vou ser jovem pra sempre, porque eu não vou ser gostosa pra sempre, porque eu não vou ser fogosa pra sempre e tudo bem isso mudar, mas eu sou assim hoje e eu sou tão boa nisso. Que merda! Por que você foi um cara tão escroto e controlador?

Eu era focada… Tapada! Você me mostrou por A + B que existem pessoas que destroem os outros aos poucos. Filho da puta, me fudeu. Mostrou pra mim, como bem disse, que não existe o certo e o errado. Puta que pariu. Agora eu estou presa dentro de um corpo cheio de tesão, sem poder dar e não é porque eu não queira. Eu tenho as oportunidades, as ferramentas… Tanto vigor inutilizado. Tanto vigor! Traumatizada pela única coisa que conheci de “amor”. Senti-me como na minha infância na piscina do clube: Molhada, confusa e solitária.

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