Do outro lado da rua – Conto

Do outro lado da rua esperando o sinal abrir, uma menina magra, de uns 1,60m, cabelo bem curto e moreno.
Imaginei que ela me olharia e quando olhasse, eu a pararia ali, no meio da rua e me apresentaria. Conversaríamos sobre coisas meio banais, depois perguntaria coisas da sua vida e ela da minha e segueiríamos andando até onde ela estivesse indo, sem pressa.

Marcaríamos de sair. Em um restaurante underground com comidas esquisitas e gostosas.

Carolina, eu decidi que esse era seu nome. Gostava de sorvete, roupas e que a chamasse de Carol. Aos sábados ficava com a irmã mais nova em casa enquanto seu pai ia no mercadão da lapa comprar coisas pro almoço de domingo. Todo domingo ele chamava os quatro avós da Carol pra almoçar, mesmo não indo muito com a cara do sogro. Militar reformado, foi coronel nos tempos da ditadura, mas ninguém falava nada sobre isso. Ele não  falava sobre isso.  Na verdade, ele mal falava, mas ele ia com a minha cara. Depois de 2 anos aparecendo nos almoços de domingo ele começou a ir com a minha cara e sempre me perguntava do trabalho e dava indiretas pro pai da Carol dizendo que o trabalho dele não era trabalho. Ele era da área de TI e o coronel não achava que TI era algo digno, a não ser se fosse o “TI real”, como dizia, programação em Fortran e coisas desse tipo. Foram tantas vezes ouvi esse nome, Fortran, que pesquisei. Uma linguagem de programação que foi criada na década de 50. Ele devia mexer com isso na época do regime. Era proibido dizer ditadura. “Regime”, “regime” sempre me esquecia.

Ela sempre levantava antes de mim e fazia o café. Quando eu chegava na cozinha passava o dedão na minha sobrancelha como se a penteasse, me dava um beijo leve no canto da boca e pedia “faz os ovos?”, porque gostava do jeito que eu os fazia. Dizia que não tinha coragem de botar tanta mantega como eu.
De noite, depois do trabalho, tomava banho e deitava no meu colo no sofá, com a toalha enrolada no corpo e molhava minha camiseta toda com o cabelo. Quase todos os dias adormecia e eu invejava seu sono fácil. Ia com ela pra cama e voltava para o sofá, onde ficava até o primeiro bocejo, sempre após a meia noite, ou quando ela me chamava do quarto, sem gritar nem nada, só dizia meu nome “Gustavo”, como se estivesse a um metro de mim.

Depois de dois anos, descobri que ela não queria ter filhos. Brigamos muito esse dia, gritamos, choramos e ficamos calados por horas, mas não conseguíamos nos separar. A gente sofria deitado um ao lado do outro, cada um olhando para um lado, irritados demais para se mover e correr o risco de nos tocarmos. Não dormi essa noite. Eu via os feixes de luz da lua caminhando lentamente pelas frestas da cortina que voava de tempos em tempos por causa do ventilador. Ela não gostava muito de dormir com o ventilador ligado, mas quando desligou a luz pra dormir, atravessou o quarto, ligou o ventilador e virou pra mim.

Acordei cedo e fui para o trabalho. O dia foi comum, sem stress, sem muita ação. Às 18h saí e fui pra casa andando. Parei no sinal, peguei meu celular e tinha uma mensagem dela: “Te amo”

O sinal abriu. Ela me olhou. Continuou olhando até que nos cruzamos, assim imagino, pois desviei o olhar um segundo antes. Não fui quem eu queria ser. Eu, mais uma vez, fui eu e segui andando pra casa sozinho.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s