Não romance – Conto

Alice pensava em Pedro em todas as horas do dia. Quando acordava, Alice pegava o celular com uma ponta de esperança frágil que se quebrava ao constatar que o sinal vermelho indicava apenas uma mensagem de sua mãe. Se levantava, escovava os dentes e pensava em Pedro ao seu lado. Pensava em como seria se ele estivesse lá na casa dela, vivendo a rotina dela, vendo os livros que estavam na prateleira e escutando músicas que não conhecia.

Depois, quando ia trabalhar, um Pedro imaginário se despedia piscando o olho e ia conhecer o bairro, visitar um museu e contar do seu dia tomando um café ao atardecer. Alice provavelmente lhe contaria algumas coisas do trabalho, preocupando-se em não parecer fofoqueira, apesar de que a Fernanda do setor de RH acompanhava a rotina erótica de um dos gerentes da empresa com as estagiárias e não fazia nada. Deve ser por isso que ela se mantém no emprego, inclusive, porque boa no que faz ela não é.

Alice levava Pedro pelas mãos e sorria para o vazio, pedindo que ele a esperasse enquanto escolhia o sabão em pó, que era compartilhado com a amiga que dividia o apartamento e tava na vez da Alice de comprar. Ela sorria sozinha na sessão de produtos de limpeza, imaginando seus cabelos cacheados, seu sorriso largo e seus olhos rasgados.

Chegando em casa acompanhada de uma lembrança do que nunca será, toca o celular alertando uma sequência de novas mensagens:  “Oiii/ desculpa que tem um tempo que eu não te escrevo/ vou tirar dois dias essa semana e acabei trabalhando o final de semana todo/ como vc ta?/ quando q c vai pra Bahia?”

E Alice sorria. E se agarrava com carinho a uma lembrança de uma noite não muito bem lembrada. De alguma maneira ela e algumas amigas acabaram entrando na festa de um outro grupo de amigos e ela conheceu esse cara, que na verdade se chamava Dario -um nome feio demais pra se agarrar a uma cabeça bêbada – e honestamente, não era tão interessante assim. Dario não sabia dançar, não conhecia nenhuma música, tinha um pulover no ombro que parecia apropriado demais para a temperatura naquela época do ano e não disse nada, absolutamente nada de interessante. Mas Dario não era da mesma cidade de Alice e a vida presente vai borrando uma memória mal feita.

É claro que Alice e Pedro-Dario nunca mais se viram, sendo todas as probabilidades demasiado improváveis. Desta maneira ficou Dario em sua cidade, sem pegar avião nem ônibus, cessando conversas infinitas com o passar das semanas, possibilitando assim que Pedro, aquele que nunca existiu, pusesse um sorriso e uma malicia no rosto de uma menina que naquela primavera desejava para si um romance.

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