Os portões (+18) – Conto

Minha mãe me disse uma vez que um relacionamento começa a ficar sério quando dá vontade de esconder certas coisas. Seja um comentário, uma situação, alguém, um “oi”, um poema, um conto, um encontro.

Eu escondi Camila, 24 anos, trabalha comigo. Na verdade, ela é de outro setor. Eu trabalho em entregas e ela em telegramas. Sim, ainda existe um setor pra isso nos correios. O setor dela é bem liberal, dificilmente alguém tá envolvido em algo. Ela em dias de frio vem com umas roupas bem folgadas. Gosto quando ela aparece assim. De moletom mesmo. Que faz a bunda vibrar a cada passo, que não se molda a nada, apenas é como deve ser nua. Essa noite me masturbei pra ela. Me deu tesão ficar olhando pra foto dela, que tirou como se estivesse me olhando no olho enquanto eu me tocava. Queria que ela me visse batendo uma pra ela, enquanto metia a mão dentro da calça de moletom cinza e começasse a se tocar até molhar todo o meio da calça e não aguentar mais, ficando toda pelada esparramada na minha cama enquanto eu estivesse em pé observando. Que vontade de descobrir o cheiro da sua buceta, de sentir o gosto que ela fica quando está encharcada, de saber se tem pelos ou não. Todo dia me toco pensando nisso. Transo com outras pensando nisso e ainda estou na terceira do dia, porque domingo é dia de viajar com as mãos.

Apertei a soneca umas 3 vezes antes de levantar. Segunda fria, chuvosa e difícil como sempre. O problema de se morar do lado do trabalho é sempre negociar comigo mesmo a troca do café da manhã por mais 10 minutos de sono. Cheguei lá, como de costume, em jejum e sentei na minha mesa. Do lado, todos os dias, do Robson. Acabou de fazer 40 e era casado com uma mulher de 26 – ele não aguenta ficar 1 dia sem falar disso. Eles se casaram logo que ela fez 18. Ciumento até o último fio de cabelo, sempre adotou uma postura de liberalzão pros amigos. Se sentia um filósofo, um artista quando dava conselhos de relacionamento para o pessoal daqui, mas não deixava a mulher ir para lugar nenhum sozinha. Apenas os lugares que ele dominava e em que era respeitado. Lugares que ele tinha certeza que ninguém mexeria com ela. Dizia para todos que ela era acomodada e não arranjava o que fazer da vida, mas toda vez que ela começava um projeto ele implicava com algo. Na verdade, toda vez que ela começava qualquer coisa ele implicava com qualquer outra coisa. Com ela, ele não se abria, não falava, ou realizava as mil posições do kamasutra que tanto ensinava pros colegas de trabalho. O dia que ela tentou lamber seu cu, tomou um tapa na cara. Um dia ela se cansou de se molhar e ter que secar a buceta ou a face. Se soltou e foi contra as vontades daquele ser que a oprimia e começou a conversar com outros caras. Apenas se abria e contava, nada muito claro das coisas que passava. E tinha medo que ele descobrisse e metesse mais uma vez a mão na sua cara, mas larga-la estava fora de cogitação. Logo ele teria 50 anos e não teria disposição. Ela teria 36 e pensava que seria a idade em que ela não teria mais condicionamento para fugir e recomeçar. Eles já tinham 2 filhos, estava quase completo o objetivo, em sua cabeça, de não terminar a vida como seu pai: sozinho.

Foi no dia que escondi a existência da Camila pra mulher que eu estava saindo há alguns meses, que conheci a mulher do Robson. Eu logo virei o homem que a ouvia, eu era um dos outros caras que ela começou a falar e, por isso, sabia dos tapas na cara que tomara. Ela me mandava textos, fotos e perguntas sobre se eu achava normal e moral ela levar a vida que ela levava sem se rebelar. Eu nunca dei minha opinião sobre nada em relação a isso. Só a estimulava a se soltar. Escrever, falar, fazer o que tivesse afim… Inclusive chupar o cu de quem quisesse ser chupado.

Eu escondi dela a Gabriela, mulher do Robson, tanto dele quanto da menina que estava comigo todas as quartas-feiras, dia que ela não estava de plantão no São Luiz. Renata era enfermeira e não gostava muito de ficar na minha casa. Meu vizinho tinha um filho, Danilo alguma coisa. Eu até sabia o sobrenome dele porque mês passado tive que fazer um B.O. Imagina um cara enorme de 90kg, barbudo, fordo (forte + gordo), assustador. Era esquizofrênico e arrombou meu portão da frente em menos de 5 segundos com um coice. Ele fica na funilaria aqui atrás de casa.  Tinha que ver a cara do pai dele, sem graça na delegacia. Mas é foda. Alguém tem que segurar esse moleque. Renata tava aqui um dia que ele começou a gritar e tentar derrubar o portão. Quase toda semana o pai dele está soldando o portão da casa dele ou de algum vizinho. Fruto de alguma fuga do Esquizofrênico da Funilaria, como ele é chamado aqui no bairro.

Eu escondi dela o esquizofrênico da funilaria. Eu só queria que ela passasse as quartas-feiras comigo. Eu me escondi quando ela passou por mim num sábado na rua, porque disse que estava em casa doente. Eu não queria vê-la aos fins de semana, apenas nas quartas-feiras.

Aos sábados eu escrevia. Sentava na minha mesa do quarto e escrevia o que viesse a mente. Hoje escrevi algo e mandei pra Gabriela, esperando que o Robson não descobrisse que eu trocava mensagens com ela. Mandava em horários em que achava que ele estivesse dormindo. E assim dizia:

senta aqui e me diz
o que te fez chorar
o que te fez se indignar
quando erraram com você
e todos a sua volta achavam
que você era o erro

senta aqui e me diz
porque você se acha menos
só porque disseram que você era como é
por ter nascido como nasceu
me diz porque você acreditou em tudo
em tudo aquilo que disseram
sem questionar o porquê

agora,
levante-se
você tem o poder.

Ela não demorou muito a responder:

Em meu corpo entra com violência,
amor e paixão. Me sinto a coitada a gritar
de dor, desespero até a rouquidão.
Sou puta que não ganha um centavo,
não ganha beijo, abraço ou adeus

É hediondo e lhe dá extremo prazer.
Na verdade é a única coisa que o faz gozar.
A infeliz desconhecida apanhada no escuro
do quarto ganha uma marca eterna.
Não é visível como uma tatuagem,
mas muito mais intensa.
Emprenhada em todas as células do corpo
da escuridão até dia da morte.
Morte do corpo, pois a alma da sorteada
desta noite acaba de conhecer o falecimento.

Por fim, sai tranquilo e realizado,
enquanto o gado, agora marcado e eretofóbico,
se arrasta pelo chão contido, rouco e nu.
Perdeu o brilho dos olhos, perdeu a alma.
É agora um animal que vive no medo
à espera do abate.

E completou:

Escrevi isso semana passada.
Fabricio… Apaga, por favor.
Esquece que leu isso.

Doeu ler aquilo, mas não me surpreendeu. Um texto com tanta vida, recheado com a falta dela. Nem todo portão pode ser soldado.

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