O mistério do podrão – Conto

Três histórias, um final.

Capítulo 1 — Carne de Pavão.
(Filipe Cavadas)

LORENA

Um “oi” sem graça. Marcamos de encontrar em frente ao SAFRA —  meu celular tinha corrigido como SOFRA —  na esquina da augusta com a paulista. Levantei da mureta do jardim cruzando os braços sobre minha bolsa, mas ele tava bem à vontade.

—  e ai… tá muito tempo aqui?
— não… acabei de chegar.
— vamos então… bora descer pela augusta que tem um bar legal lá embaixo.

Descemos a rua. Chuviscava um pouco, mas não mudou o ritmo do passo de nenhum dos dois. Estávamos bem à vontade com o clima ameno depois de mais de 2 meses de calor.

— augusta tá vazia ainda.
— pra mim parece lotada. Onde moro só tem essa quantidade de gente nas ruas da cidade inteira
— onde cê mora?
— na roça… Osasco.
— não sabia. Veio como?
— de carro… parei ali naquela rua que tem uma cafeteria.
— sei… na Antonio Carlos. Na ladeira, né?
— isso.

Ele conversava bastante. Não parava de falar e eu não pensava em assunto nenhum pra puxar. Por mim ficaríamos uns momentinhos de silêncio. Eram 20h, parecia que nós éramos os únicos descendo a augusta. Uma legião de adolescentes com catuaba na mão passava por nós. Nos apertamos pra passar na calçada entre ambulantes, tequileiras e mais adolescentes. Paramos no farol da esquina da augusta com uma rua que não lembro bem o nome, onde fica o restaurante ATHENAS.

— a feijoada desse lugar é demais?
—  sério? Eu morava aqui perto, mas nunca fui nesses lugares pra comer. Sempre pareceu caro.
—  não sei se é caro. Eu vinha com o pessoal do trabalho.
—  você trabalhou aqui? E vinha todo dia de Osasco pra cá?
— é… deixava meu carro perto da faculdade e vinha pra cá de metrô.
— hum… entendi. Ó… é esse o bar.

Entramos no bar. Todo mundo parecia conhecê-lo. Falou com todo mundo, e apontou pra uma mesa e foi pro balcão. Falou alguma coisa com o bar tender e gritou de lá:

— UVA! CARMENERE! CURTE?

Acenei com a cabeça. É minha uva favorita. Ele mesmo pegou a garrafa, sacou a rolha com o abridor, devolveu pro rapaz e trouxe pra mesa.

— eu tenho um jogo.
— jogo? — ele perguntou.
— é… seguinte… eu vou dizer uma frase e você pode fazer perguntas que responderei com sim ou não. Então você tem que descobrir o que aconteceu.
— Hum… complexo. Ok…
— Um homem sentou na mesa do restaurante e pediu carne de pavão. Quando levou o primeiro pedaço a boca, engoliu e começou a chorar.
— tipo… só isso?

Ele ficou pensando um bom tempo.

—  qualquer pergunta.
— ok. Hummmm….. é… ele era casado?
—  não.
—  ele foi casado?
—  sim.
—  hum… a carne tava mal passada?
—  Ahahaha… indiferente.
—  como indiferente? O ponto da carne é importantíssimo.
— hahaha pra história é. Mas ok, tava ao ponto.
— beleza. Ela morreu?
— sim.
— pavão era o prato preferido dela?
— não.
— era o prato favorito dele?
— não.
— ela ou ele já preparou esse prato?
— não.
— tinha pavões perto?
— sim.
— hum… ela caiu?
— sim.
— morreu afogada num ovo de pavão?
— hahah… não.
— morreu afogada?
— não.
— era um campo aberto?
— sim.
— ela morreu num acidente?
— sim!
— ela caiu da própria altura.
— não.
— hummmm… ela caiu de uma altura maior do que 50 metros?
— sim.
— ELA CAIU DO CÉU.
— SIM!
— caralho… não faço idéia. HAHAHA.
— pegunta qualquer coisa.
— cara… muito complexo.
— tá. Vamos lá. Você sabe que ela morreu num acidente, que eles eram casados, ele comeu a carne de pavão e começou a chorar.
— ELA CAIU DE UM AVIÃO?
— SIM.
— pulou de propósito?
— não.
— o avião caiu junto com ela?
— sim.
— era um voo comercial?
— era. Tá perto.
— não faço a mínima ideia. Hahaha

Já estávamos no final da garrafa de vinho. Ele ficou parado me olhando um tempo. Dentro do meu olho. Ele tinha umas sardinhas na bochecha e uns fios ruivos perdidos na barba. Achei demais.

— Já sei… — continuou — teve algum sobrevivente?
— sim.
— mais de um?
— sim.
— a mulher dele morreu na queda, ou demorou alguns dias? Ah não… pergunta errada. Ela morreu na queda?
— não.
— ela morreu dias depois?
— sim.
— ELE COMEU ELA!
— SIM.
— caralho! Comeu depois de ela morrer?
— SIM.
— porra… isso não era motivo pra ele chorar já?
— não. hahaha
— não faço ideia. Ahahahha.
— uma dica. TINHAM PAVÕES POR PERTO.
— hum… os pavões comeram ela?
— não.
— ele comeu o pavão?
— não.
— então não sei… sério.

Ficou uns minutos olhando pra mim com cara a cara confusa.

— vai… fala ai. Gastei todas as minhas energias. Não faço ideia mesmo.
— hahaha… pensa bem. Ele ficou dias sem comida, a mulher morreu num acidente aéreo e quando ele comeu a carne de pavão começou a chorar.
— ele já tinha comido pavão?
— não. Tá quase.
— hahah desisto. Sério… tá dando dor de cabeça já.
— falta quase nada pra descobrir. Mas ok. Ele tava com fome depois do acidente aéreo. A mulher dele tinha morrido e tinham pavões por perto. Ele comeu a carne que tava lá achando que era pavão. Quando provou no restaurante…
— ERA DIFERENTE O GOSTO!
— isso.
— caralho… ele comeu a mulher sem saber.
— hahah boa.
— nossa… acabou com minha energia agora. Hahah tô exausto. Vou pegar mais um vinho.

Bebemos e conversamos sobre coisas aleatórias. Sem games e perguntei se tinha algum teatro por perto. Ele disse que tinha um ali do lado.

— quer ver as peças? — perguntou.
— quero.

Atravessamos a rua e entramos na bilheteria. A peça começaria às 22h, mas ainda eram 21h12. Compramos e ficamos na calçada esperando. Ele puxou um maço de cigarros de dentro do bolso da frente e acendeu um. A fumaça saía da sua boca formando caracóis no ar. Não fazia esforço algum pra expelir a tragada que tinha dado. Deixava apenas o ar sair junto com uma serena expiração. Quando terminou, entramos na sala e esperamos a peça começar.

A peça não tinha muita coisa de interessante. Andamos um pouco pela Paulista e disse que tinha que ir pra casa. Ele perguntou se eu queria beber alguma coisa. Disse que estava cansada, mesmo querendo arrastar ele pra minha casa. Eu tinha uma regra de não dormir com o cara na primeira vez. Não costumava me importar muito com isso. Até encontrar uns caras meio obcecados, que não largavam do meu pé e eu ficava muito incomodada de eles saberem meu endereço. Cheguei em casa antes da meia noite. Sentei no sofá e liguei o netflix procurando algo pra ver. Depois de meia hora procurando, nada me interessou. Desliguei a tv e do nada a régua de acrílico quebrou ao meio, sozinha, em cima da mesa. Um susto da porra. Demorou um tempo, mas percebi que aquilo era um sinal “BREAK THE RULE”

Foi ai que percebi que precisava falar com ele. Mandei uma mensagem:

— tá fazendo o que?

Ele demorou uns 30 minutos e respondeu

— nada.
— e aquela bebida. Anima?
— claro!!
— vem aqui em casa.
—  ok.
—  vou te passar a localização por anexo.

Enquanto olhava pra janela do whatsapp esperando a localização, apareceu a notificação do Edu com um “olá!”,

Eduardo não era popular. Soltava mini-arrotos enquanto falava. Gordo do jeito que era, com certeza tinha alguma coisa no estômago. Sobreviveu ao ensino fundamental e médio. Agora na faculdade de ADM tem certo sossego. Ninguém enche o saco dele, mas ele fica destacado de todos os grupos. Chega, abre seu caderno de 20 matérias, faz anotações em silencio, evita contato visual com o professor quando o mesmo pergunta a turma de alguma questão referente à matéria que acabou de explicar.

Eu o conheci quando eu morava no Rio ainda. Ele mora com a mãe, Carmem, em Vicente de Carvalho. Ela parece um pouco com ele. Sempre sozinha em casa, dando arrotos de cerveja todas as noites. Bebe sempre 2 garrafas de 600 sozinha e raramente come algo. Sempre manda Eduardo comer na rua. Ela não suporta a sujeita que cozinhar faz, então não deixa ninguém cozinhar, salvo em festas quando sua mãe a visita. Eduardo sai todas as noites pra comer na barraca de cachorro quente perto do atacadão. 2 x-tudos e 1 coca 1,5L. Gastava quase todo seu salário de técnico em edificações em comida na rua. Trabalhava no Porto, do lado de Niterói. Todo dia pegava o ônibus da empresa no shopping Nova América. Ia de metrô até lá sempre com uma camiseta extra na mochila que trocava quando saía do vagão lotado. Mesmo que fossem poucas estações, Eduardo saía encharcado de suor da composição que raramente estava com o ar condicionado 100%.

Ele nunca me contou sobre seu pai. Dizia que ele e sua mãe tinham se separado há bastante tempo. Se não me engano, há mais de uma década. Apenas isso, não falava nada mais sobre ele. Onde morava ou se o via de vez em quando. Eu fui o mais próximo de um amigo que ele teve até hoje. Entrei na casa dele algumas vezes pra nos arrumarmos pra umas festas nos tempos gloriosos do Olimpo ou pra algum show no garage. Éramos os únicos grunges do nosso Colégio no ensino médio. Depois de um tempo seus miniarrotos não me incomodavam mais. Tinha um penteado que lembrava o larry dos três patetas original.

Você deve estar se perguntando o que o Eduardo tem a ver com essa história — opa… calma. Recebi a localização… “Av santo amaro, 218…” ok — Olha… o Eduardo foi o cara que tirou minha virgindade. Foi bem esquisito. Já falo sobre isso. Tô entrando no túnel. Nossa. Ele mora do lado do burguer king. Imagina se o Eduardo morasse aqui. Estacionei do lado de um posto de gasolina, na rua mesmo, parecia tranquilo. Toquei o interfone e falei pro porteiro que ia no Fabrício do 32. Fui direto pro elevador. Quando apertei o 3º andar as luzes começaram a piscar. Achei meio esquisito também o fato do elevador ter demorado uns 2 minutos pra subir 3 andares. Mas ok. Saí e entrei no corredor dele, à esquerda, ainda estava procurando a campainha e ele abriu a porta com um vinho fechado na mão.

— bora!
— bora —  respondi, meio sem graça.

A casa dele parecia um… não sei explicar ao certo. As paredes eram vermelhas e tinha um tênis pendurado no teto, tipo aqueles que jogam na fiação da rua. Abriu a garrafa e serviu meia taça pra mim e pra ele. As taças eram diferentes, a dele, bem maior que a minha. Ele era muito maior que eu, mas não queria dizer nada. Com uma taça ele já parecia bêbado. Eu tava bem, mas não queria exagerar muito. Ele dava todos os sinais de ser maluco, mas nem tantos sinais de ser perigoso ou pegajoso. Foi bom, foi gostoso, mas nada demais. Saí por volta das 3 da manhã, sentei no banco do carro e li as mensagens do Eduardo.

— cara… aconteceu um negócio bizarro hoje.
— o que ? — perguntei, achando que só responderia no dia seguinte.
— CARA — respondeu logo em seguida — eu tava comendo na rua e uma velha muito bizarra ficou me encarando. Quando fui comentar com o Jonas — Jonas é o cara do cachorro quente — ELA SUMIU. D O  N A D A.

O Edu não era muito de drogas quando morava no Rio… quando fui ligar o carro, tinha uma senhora, do outro lado da Av Santo Amaro. Eu tava sem meus óculos, mas tinha certeza que ela tava me olhando, bem do lado de uma barraca de churrasquinho chamada “PRAÇA É NOSSA”.

Capítulo 2 — O homem que não tinha cu.
(Filipe Cavadas e Luciano Pinheiro)

THOMAS

Estávamos descendo uma estrada de terra e brita. No início do dia pareceu tão rápido passar por todas aquelas árvores. Na volta escura que mal dava pra ver o que tinha em volta. Descíamos lentamente e, pela lógica, já era pra termos chegado ao fim da estrada de iluminação precária, até que uma mulher apareceu em frente ao carro. Estava agachada pegando algo no chão. Pareceu não se importar muito com o farol do carro na cara. Com certeza já tinha passado dos 60 anos de idade, de cabelo ralo totalmente branco e tinha uma mecha encaracolada descendo o rosto.

Éramos quatro no carro. Uma corola azul metálico. Carro da Larissa, mas quem dirigia era Flávio, seu namorado. Ela estava bêbada demais pra dirigir. A cada 2 minutos, ele gritava “acorda” e ria. “Vai me deixar dirigindo sozinho? Vou acabar dormindo”. Do meu lado estava meu namorado. A gente não tinha muita intimidade com eles. Era só uma carona pra sair de Osasco. Não tínhamos carro. E eles ofereceram pra nos levar ate o trem.

Flavio buzinou — nada —, ela ainda estava agachada parecendo procurar algo. Buzinou de novo e ela parou, ainda olhando pra baixo, apoiou a mão no joelho e empurrou para se levantar. De lado para o carro, se deslocou pra dentro da mata e sumiu naquele breu. Olhamos em volta e para a cara um dos outros sem entender o que tinha rolado. Em silêncio, engatou a primeira e seguiu na estrada esburacada. Percorremos o caminho por mais 5 minutos até o primeiro poste e uma placa que indicava a direção da primeira rua asfaltada. Estávamos de volta à civilização. Logo à frente paramos num posto e compramos um energético. Saindo de lá, demos de cara com um acidente e Flávio pediu pra Larissa ver no waze o melhor caminho. Virou a primeira direta da Autonomista, numa rua estreita, que mal dava pra manobrar ou ultrapassar. Passamos com dificuldade pelo lado de alguns carros que estavam estacionados com duas rodas na calçada. Logo à frente crianças brincavam de bola. Esquisito deixarem elas livres na rua. Já eram 10h da noite de domingo. Reduzimos a velocidade e passamos por elas. Pararam de jogar e nos encararam com olhar sério, seguindo-nos com os olhos. Foi estranho, mas só queria mesmo chegar à estação antes do último trem sair.

Ainda tínhamos muito chão até a frei caneca. Não tive medo dos caminhos que fizemos. Na escola me chamavam de “o homem que não tinha cu”, porque dificilmente me assustava com alguma coisa. Como dizem: “quem tem cu tem medo” e ter medo não fazia parte do meu dia a dia. Engraçado que nessa época não fazia ideia que daria tanto o que não tinha, aos 30. Me descobri aos 20. Antes disso ficava com meninas. Hoje eu pego homens de todo tipo, branco, preto, até velho. Desde pequeno meu pais achavam que eu tinha algum problema. Eu batia a cabeça no piso de mármore toda vez que diziam “não” para mim. Não lembro bem dessa fase, afinal, eu só tinha dois anos e, porra… eu batia a cabeça no MÁRMORE.

Aos quatro, fugi de casa. Ou pelo menos achei que tinha. Pareceu que tinha andado por horas, mas estava apenas na rua de trás. meu pai me gritou perguntando aonde eu ia. Respondi que estava indo embora. Eu tinha acabado de assistir o episodio do chaves que ele tinha sido acusado de ser ladrão injustamente. Juntei as trouxas de roupa, amarrei no cabo da vassoura e fui. Meu pai falou “hoje sua mãe fez pudim” e eu voltei. Apanhei como nunca. E acreditem: não tinha pudim. Mas em nenhum momento eu senti medo. Nem mesmo quando minha me disse que nunca mais faria pudim pra mim.

Quase chegando à estação, algo que costumava acontecer muito na minha infância voltou acontecer. Os postes pelo qual passávamos começaram a se apagar e parecia que ninguém ligava muito para isso.

Era como se uma equipe de mineradores estivesse escavando o interior do meu cu, mas o ouro que havia ali já tinha sido levado há muito tempo.

Flávio nos deixou na estação e, sem mais rodeios, descemos do carro sentindo o alívio de quem agora poderia traçar o seu próprio caminho. Pegamos o trem e mais uma vez as luzes pareciam apagar e acender em intervalos irregulares… Mais uma vez ninguém parecia notar. Foi estranho, pois isso raramente acontecia com tanta frequência.

Deixei meu namorado em casa, ele morava perto, em frente ao Casarão na Augusta, disse que tinha coisas do trabalho para finalizar como desculpa para ficar sozinho. Ele fez cara feia. Subi com ele até o apartamento e dei-lhe uma bela mamada, como uma máquina ordenhadora de vaca, tirei o leite daquele boi.

Chegando em casa tratei de tirar a roupas e entrar num banho tão quente quanto eu pudesse suportar, passei meu hidratante Calvin Klein e me joguei na minha ceroula de seda.

Confortável na cama, tentei digerir aqueles acontecimentos um a um. Afinal, já que ninguém mais percebia o piscar das luzes, só poderia ser coisa da minha cabeça. Mas por que aquelas luzes se apagavam pra mim? Da onde saiu aquela velha? Por QUE diabos eu fui pra OSASCO?

Deitado na cama, percebi que a lâmpada, que estava desligada, piscava às vezes. Mesmo surpreso eu era incapaz de sentir medo. Parecia realmente que o meu cu metafórico era inexistente e meu cu literal mais rodado que aquele Corolla 03.

Acordei pela manhã com a campainha tocando. Era a diarista que contratei de uma empresa. Me mandaram um e-mail com o nome dela e CPF. Seu nome era Laura. Abri a porta e ao passar pela sala, ficou uns segundos olhando pra minha parede vermelha e pra umas garrafas de vinho vazias que eu estava guardando para usar de candelabro do lado umas velas. Ela limpou a casa em silêncio. Até quando ofereci agua e café. Ela só balançou a cabeça sem me olhar nos olhos.

Quando deu 17h horas, disse baixinho “acabei, vou trocar de roupa”. Saindo pelo corredor, dei boa tarde. Ela parou, se virou e disse:

— Olha… Eu normalmente não faço isso… mas, posso dizer uma coisa?

— Pode.

— Eu acho que você não precisa se esforçar tanto pra encontrar alguém. Você deveria ligar no canal 23 às 20h30.

Não entendi muito bem. Sorri e dei boa tarde.

— Deus te abençoe.

Que porra doida. Isso porque acho que ela não sabia que eu era viado. Me levaria pra sessão descarrego na hora. Certeza!

Quando entrei no meu quarto. Estava todo arrumado. Mas minha cueca vermelha estava no mesmo lugar que deixei quando fui dormir. Joguei-a no chão, perto da porta do banheiro. Deixei ela ali e fui pra rua comer um espetinho na augusta.

Sai do prédio e já acostumado com a antipatia do porteiro carioca economizei no “boa noite”.

Fui ao trailer de sempre, comer um salsichão com farofa paleolítica. Engraçado, pois tive a impressão de ver a mesma velha da outra noite, me encarando de dentro de um carro.

 

Capítulo 3 — O último lanche.
(Filipe Cavadas e Karina Cruz)

EDUARDO

Não sei ao certo por que escolhi fazer ADM. Já tinha completado o técnico de edificações no CEFET-RJ e resolvi continuar por lá mesmo, fiz o vestibular e passei pro segundo semestre. Lembro que em meu primeiro ano de curso vendo veteranos de terno e gravata nos corredores, achei que queria aquilo para mim. Seria um cara rico e jogaria ipad na cara da galera. Tô no 7º ano de ADM, quase sendo jubilado da faculdade. Pensando em até inventar um casamento, um filho ou a morte de um familiar para ganhar +1 ano de margem com o reitor. Não curto muito ver o botão da minha camisa suada quase estourando na minha barriga, o sapato social apertando os meus dedos e a caspa aparecendo no terno. Esbanjo uma vida merda e não sei como acordo todo dia pra trabalhar e estudar.

Na faculdade nunca fui o melhor nem o pior aluno da sala, fui sempre o medíocre. Em administração isso significa tirar 7 em tudo e saber dominar a técnica da formalização do óbvio e encheção de lero lero nas coisas. Nunca gostei de fazer os trabalhos em grupo, sempre achei que alguém ia fazer alguma cagada, mas como eu passava o dia inteiro no trabalho, não poderia ajudar muito. Sou o cara que faz o PPT e apresenta, apesar de não curtir muito falar em público. No início do curso os trabalhos em grupo eram com o pessoal do CEFET Júnior, que é uma entidade formada pelos alunos que prestava consultoria para empresas privadas, mas como fui me fudendo em algumas matérias, minha grade horária virou uma bagunça e só me restava fazer trabalhos chatos de Técnicas Estatísticas de Discriminação ou de Governança Corporativa com calouros do centro acadêmico esquerdinha-caviar-poliamor que morava da Barra da Tijuca, mas que fazia cosplay de pobre.

A faculdade tem essas coisas estranhas e fazer parte do Cefet Junior foi uma delas. Não tenho muito o perfil de um júnior, os caras são todos cool, extrovertidos, proativos e fazem trabalho social. Eu, por outro lado, sou introvertido e tenho um pensamento racional que busca a maximização da minha curva de utilidade em vez de ficar babando ovo de qualquer empresa para contratar a minha consultoria. Por isso que passei no processo seletivo, pela diversidade na entidade e por ver as coisas mais no preto no branco.

Esse será meu último ano de Cefet. Apesar de chegar atrasado quase todos os dias e correr o risco de repetir falta, me matriculei em 20% a mais de disciplinas que preciso para me formar. Isso se chama estratégia de gestão de risco da minha grade horaria. As matérias que vejo que o professor é chato e faz chamada no início da aula, eu tranco. Acredito que a única coisa que sentirei falta da CEFET serão as noites jogando tênis de mesa e das quintas feiras no Foda-se (bar que ficava perto da faculdade).

sexta passada voltando pra casa, parei na barraca do jonas pra comer alguma coisa. pedi o de sempre, 2 x-tudos e uma coca 1,5L.

— po, campeão, to sem coca hoje, pode ser convenção?

— puts, deixa, só os x-tudão mesmo, então.

fui no atacadão, mercado do lado da estação de vicente de carvalho, onde ficava o jonas todas as noites, menos as segundas, pra comprar uma coca. saindo do mercado tropecei num gelo baiano e uma senhora falou.

— Cuidado menino, assim vai derrubar o jantar — rindo da minha cara.

fiquei um pouco sem graça e fingi que não era comigo. nunca gostei dos velhos aqui do bairro. tao sempre se metendo na vida dos outros.

você pode estar se perguntando o que é um gelo baiano. aqui no rio todo mundo sabe o que é. uma amiga minha, Lorena, foi morar em São Paulo e disse que ninguém sabia o que era um gelo baiano. É aquele bloco de concreto utilizado para impedir trânsito de veículos ou coisa parecida. Li num livro, de origem das palavras e termos que ele era oriundo de uma “ignorância popular”. O formato de gelo daria o nome e como era “Tão preguiçoso, que nem derreter derretia” ficou o nome Gelo Baiano. A mistura clássica de preconceito e metáfora, um clássico carioca. Vou mandar um oi pra Lorena pelo whats, faz tempo que não falo com ela.

comi e fui pra casa. passando pela minha rua, encontrei a Dona vera passeando com um cachorro perto da porta da minha casa. nem sabia que ela tinha cachorro. na verdade é meio esquisito, porque tenho certeza que a vi da minha lage sacrificando uma galinha no quintal da casa dela com um pentagrama desenhado no chão. Dei boa noite e segui. 2 postes se apagaram quando passei. Isso sempre aconteceu, minha vida inteira passei por postes que apagam. Parei de dar importância pra isso. Peguei a chave dentro da mochila e entrei em casa. tomei um banho quente e fui pra cama. procurei meu celular pra carregar e não achei. revirei minha mochila, procurei nos bolsos da calça, na sala, nada… Botei a roupa de novo e voltei pra barraca do jonas pra ver se tinha deixado por lá. chegando por lá cutuquei o Jonas:

— Brother, cê viu meu celular ai?

— É seu? Porra… peraê, guardei no carro, deixa eu pegar.

me devolveu o celular e aproveitei e pedi 1 x-bacon com uma latinha de fanta laranja, que era o que tinha alem de convenção. Uma velha, de uns 60 ou 70 anos de idade me encarava enquanto eu comia. achei esquisito pra caralho, cutuquei o jonas pra perguntar quem era. quando ele virou, a mulé tinha SUMIDO VIADO. do nada. não faço ideia pra onde ela foi. a rua tava deserta. peguei o celular e mandei uma mensagem pra Lorena

— cara… aconteceu um negócio bizarro hoje.
— o que ? — perguntou.
— CARA. eu tava comendo na rua e uma velha muito bizarra ficou me encarando. Quando fui comentar com o Jonas, ELA SUMIU. D O  N A D A.

Ela não respondeu nada depois disso. Provável que tenha pego no sono.

No dia seguinte acordei com um áudio dela dizendo:

— Jo… cara, tá tudo bem? que mensagem foi aquela ontem? tava sóbrio?

— tava ué… é serio, vi uma velha esquisita me encarando, tinha o cabelo bem esquisito, ralo, meio encaracolado, parecia que tinha acabado de sair do banho. — respondi por mensagem.

— entendi. como estão as coisas por aí?

— bem, bem… mesma coisa de sempre.

— E a dona Carmem?

— Bêbada hahaha

— hahahah tudo normal então.

— E aí… namorando?

— Não… cara… ontem quando me mandou a mensagem eu tava na casa de um cara bem estranho hahah

— como assim? tipo TOPZERA?

— não… aí é demais. não… era estranho só. excêntrico.

— você nunca dá sorte com os caras, né…

— é… as vezes penso em parar de sair com esses caras… desistir, ficar pra tia mesmo haha.

— hahaha.

a conversa morreu depois disso. Lorena era a unica pessoa que eu mantinha contato assim, por mensagem. na faculdade pouco falava com as pessoas, no trabalho também. mas a lorena sempre falou comigo. Foi com ela que perdi minha virgindade. pra ela não significou muito, mas pra mim foi foda. fiquei vários meses apaixonado por ela, mas ela não. mas não fico muito chateado, eu nunca vi ela se apegar a ninguém.

conhecia ele, alerta-lo,

jonas me entregou uma folha de papel dobrada e disse que tinham mandado me entregar. perguntei quem. ele disse que tinha sido uma senhora de cabelos brancos meio enrolados. abri a folha e tinha um texto escrito a mão que dizia:

a vida é longa demais para o sofrimento e muito curta para o prazer. apesar de estar sempre rodeada de pessoas, sempre me senti só. no meu aniversario de 75 anos não tive problemas de saúde, financeiros ou de qualquer outra natureza, mas eu estava sozinha. assim como via todos os dias de madrugada, as pessoas que vinham na minha barraca comer. com olhar vazio. eles, que vinham comer nas madrugadas durante a semana, me faziam lembrar minha própria solidão. até que não suportei mais. peguei meu carro, fechei todos os vidros e entrei com tudo na lagoa. até o momento que a água chegou na altura dos olhos estava certa do que queria. depois de alguns segundos sem ar, me desesperei e me arrependi. e vejo que vocês estão no mesmo caminho que eu, com  relações vazias, vidas cheia de pessoas ao redor, mas com ninguém por perto. não cometam o mesmo erro que eu.

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