O Homem Que Não Tinha Cu – Conto

(Filipe Cavadas e Luciano Pinheiro)

Parte 1 — FAROFA PALEOLÍTICA.

Estávamos descendo uma estrada de terra e brita. No início do dia pareceu tão rápido passar por todas aquelas árvores. Na volta escura que mal dava pra ver o que tinha em volta. Descíamos lentamente e, pela lógica, já era pra termos chegado ao fim da estrada de iluminação precária, até que uma mulher apareceu em frente ao carro. Estava agachada pegando algo no chão. Pareceu não se importar muito com o farol do carro na cara. Com certeza já tinha passado dos 60 anos de idade, de cabelo ralo totalmente branco e tinha uma mecha encaracolada descendo o rosto.

Éramos quatro no carro. Uma corola azul metálico. Carro da Larissa, mas quem dirigia era Flávio, seu namorado. Ela estava bêbada demais pra dirigir. A cada 2 minutos, ele gritava “acorda” e ria. “Vai me deixar dirigindo sozinho? Vou acabar dormindo”. Do meu lado estava meu namorado. A gente não tinha muita intimidade com eles. Era só uma carona pra sair de Osasco. Não tínhamos carro. E eles ofereceram pra nos levar ate o trem.

Flavio buzinou — nada —, ela ainda estava agachada parecendo procurar algo. Buzinou de novo e ela parou, ainda olhando pra baixo, apoiou a mão no joelho e empurrou para se levantar. De lado para o carro, se deslocou pra dentro da mata e sumiu naquele breu. Olhamos em volta e para a cara um dos outros sem entender o que tinha rolado. Em silêncio, engatou a primeira e seguiu na estrada esburacada. Percorremos o caminho por mais 5 minutos até o primeiro poste e uma placa que indicava a direção da primeira rua asfaltada. Estávamos de volta à civilização. Logo à frente paramos num posto e compramos um energético. Saindo de lá, demos de cara com um acidente e Flávio pediu pra Larissa ver no waze o melhor caminho. Virou a primeira direta da Autonomista, numa rua estreita, que mal dava pra manobrar ou ultrapassar. Passamos com dificuldade pelo lado de alguns carros que estavam estacionados com duas rodas na calçada. Logo à frente crianças brincavam de bola. Esquisito deixarem elas livres na rua. Já eram 10h da noite de domingo. Reduzimos a velocidade e passamos por elas. Pararam de jogar e nos encararam com olhar sério, seguindo-nos com os olhos. Foi estranho, mas só queria mesmo chegar à estação antes do último trem sair.

Ainda tínhamos muito chão até a frei caneca. Não tive medo dos caminhos que fizemos. Na escola me chamavam de “o homem que não tinha cu”, porque dificilmente me assustava com alguma coisa. Como dizem: “quem tem cu tem medo” e ter medo não fazia parte do meu dia a dia. Engraçado que nessa época não fazia ideia que daria tanto o que não tinha, aos 30. Me descobri aos 20. Antes disso ficava com meninas. Hoje eu pego homens de todo tipo, branco, preto, até velho. Desde pequeno meu pais achavam que eu tinha algum problema. Eu batia a cabeça no piso de mármore toda vez que diziam “não” para mim. Não lembro bem dessa fase, afinal, eu só tinha dois anos e, porra… eu batia a cabeça no MÁRMORE.

Aos quatro, fugi de casa. Ou pelo menos achei que tinha. Pareceu que tinha andado por horas, mas estava apenas na rua de trás. meu pai me gritou perguntando aonde eu ia. Respondi que estava indo embora. Eu tinha acabado de assistir o episodio do chaves que ele tinha sido acusado de ser ladrão injustamente. Juntei as trouxas de roupa, amarrei no cabo da vassoura e fui. Meu pai falou “hoje sua mãe fez pudim” e eu voltei. Apanhei como nunca. E acreditem: não tinha pudim. Mas em nenhum momento eu senti medo. Nem mesmo quando minha me disse que nunca mais faria pudim pra mim.

Quase chegando à estação, algo que costumava acontecer muito na minha infância voltou acontecer. Os postes pelo qual passávamos começaram a se apagar e parecia que ninguém ligava muito para isso.

Era como se uma equipe de mineradores estivesse escavando o interior do meu cu, mas o ouro que havia ali já tinha sido levado há muito tempo.

Flávio nos deixou na estação e, sem mais rodeios, descemos do carro sentindo o alívio de quem agora poderia traçar o seu próprio caminho. Pegamos o trem e mais uma vez as luzes pareciam apagar e acender em intervalos irregulares… Mais uma vez ninguém parecia notar. Foi estranho, pois isso raramente acontecia com tanta frequência.

Deixei meu namorado em casa, ele morava perto, em frente ao Casarão na Augusta, disse que tinha coisas do trabalho para finalizar como desculpa para ficar sozinho. Ele fez cara feia. Subi com ele até o apartamento e dei-lhe uma bela mamada, como uma máquina ordenhadora de vaca, tirei o leite daquele boi.

Chegando em casa tratei de tirar a roupas e entrar num banho tão quente quanto eu pudesse suportar, passei meu hidratante Calvin Klein e me joguei na minha ceroula de seda.

Confortável na cama, tentei digerir aqueles acontecimentos um a um. Afinal, já que ninguém mais percebia o piscar das luzes, só poderia ser coisa da minha cabeça. Mas por que aquelas luzes se apagavam pra mim? Da onde saiu aquela velha? Por QUE diabos eu fui pra OSASCO?

Deitado na cama, percebi que a lâmpada, que estava desligada, piscava às vezes. Mesmo surpreso eu era incapaz de sentir medo. Parecia realmente que o meu cu metafórico era inexistente e meu cu literal mais rodado que aquele Corolla 03.

Acordei pela manhã com a campainha tocando. Era a diarista que contratei de uma empresa. Me mandaram um e-mail com o nome dela e CPF. Seu nome era Laura. Abri a porta e ao passar pela sala, ficou uns segundos olhando pra minha parede vermelha e pra umas garrafas de vinho vazias que eu estava guardando para usar de candelabro do lado umas velas. Ela limpou a casa em silêncio. Até quando ofereci agua e café. Ela só balançou a cabeça sem me olhar nos olhos.

Quando deu 17h horas, disse baixinho “acabei, vou trocar de roupa”. Saindo pelo corredor, dei boa tarde. Ela parou, se virou e disse:

— Olha… Eu normalmente não faço isso… mas, posso dizer uma coisa?

— Pode.

— Eu acho que você não precisa se esforçar tanto pra encontrar alguém. Você deveria ligar no canal 23 às 20h30.

Não entendi muito bem. Sorri e dei boa tarde.

— Deus te abençoe.

Que porra doida. Isso porque acho que ela não sabia que eu era viado. Me levaria pra sessão descarrego na hora. Certeza!

Quando entrei no meu quarto. Estava todo arrumado. Mas minha cueca vermelha estava no mesmo lugar que deixei quando fui dormir. Joguei-a no chão, perto da porta do banheiro. Deixei ela ali e fui pra rua comer um espetinho na augusta.

Sai do prédio e já acostumado com a antipatia do porteiro carioca economizei no “boa noite”.

Fui ao trailer de sempre, comer um salsichão com farofa paleolítica. Engraçado, pois tive a impressão de ver a mesma velha da outra noite, me encarando de dentro de um carro.

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