Pra fudê – Conto

a gente não podia se dar o luxo de pagar cem reais de conta de luz. quando estava frio ligávamos todas as bocas do fogão com panelas com água pra ferver. dificilmente a conta de gás passava dos trinta reais.

passamos fome. gastávamos quase tudo com contas e aluguel. Sobrava muito pouco pra comida, que era basicamente arroz e ovo. eu também gostava de comprar uma peça grande de mortadela e refogar o arroz com a mortadela cortada em cubos. eu deixava os ovos pra ele que gostava mais. nosso sonho sempre foi morar na frei caneca, onde ficamos pela primeira vez e também pela primeira vez fudemos, naquele hotel na frente da alôca. que clichê: um casal gay morando na rua gay de são paulo mas que mal pagava o próprio teto, enchendo o cu de mortadela, ovo e arroz e sendo feliz apesar de tudo isso.

sair na rua era tão tranquilo. menos depois das 2 da manhã, quando uns arrombados de uns neonazis passavam cheirados encarando a gente, mas era sempre só provocação. com o tempo aprendemos a relevar essa merda, porque eramos felizes ali no restante das horas do dia.

depois de três anos conseguimos equilibrar as contas, pagar os empréstimos, quitar todas as dívidas, inclusive do restaurante colombiano que sempre íamos pra comemorar qualquer coisa. a COMGAS parou de mandar cartas todo mês ameaçando cortar o fornecimento de gás. então tudo começou a se desiquilibrar entre nós.

Gustavo estava indo bem no trabalho e eu também. no final do dia brigávamos por louça, faxina, divisão de contas, compras que eu fazia sem avisar, os jantares com os amigos. brigávamos sem parar e deixamos isso fazer parte da nossa rotina como se fosse uma novela, todos os dias quebrávamos o pau depois do jornal nacional. ele insinuava que eu não ajudava nas tarefas de casa e que não queria fazer nada da vida. “você só quer saber de gastar dinheiro”, “você é mimado demais pra vida adulta a dois” e saía batendo a porta bem forte pros vizinhos ouvirem, toda vez que o confrontava. fazia plantões sem avisar, dizia que não podia usar o celular na sala de cirurgia, passava noites inteira fora de casa e voltava pra casa cheirando a sabonete merda de motel. eu sabia, mas chupava aquele pau com gosto de borracha todo dia, que mal endurecia e ele já dormia (ou fingia).

no meio da noite me pegava dormindo. ele sabia que eu tinha uma tara de ser comido dormindo. me comia, sem carinho, sem aviso, pensando em outro macho e eu sabia. e eu gostava quando ele metia. acordava no susto e ficava com tesão enquanto ele respirava pesado na minha nuca.

no último ano mal olhou na minha cara, não me deixou comer o cu dele. só ele me comia, só por trás, sem chances pra troca de olhares. gozava em alguns minutos e eu batia punheta enquanto ele dormia.

escroto. fudido. covarde. viado que eu amava e por esse motivo, me odiava. me odiava por esperar no sofá por ele das 8 da noite até 3 da madrugada. me odiava por não dizer nada quando passou a dormir fora de casa. começou com a desculpa de ter cirurgias de emergência. duas, três… cinco noites sem dormir em casa na mesma semana. um dia foi embora e me mandou uma mensagem: “não tá mais dando certo. preciso sair dessa casa. você pode separar minhas coisas numa caixa? é muito doloroso pra mim.” Filho da puta escroto. e no mesmo dia estava eu, de quatro, juntando todas roupas e livros dele, no fundo esperando que mudasse de ideia quando fosse buscar aqueles livros escrotos que pesavam 5 quilos.

foi foda descobrir que ele tinha um amante fixo há mais de 1 ano quase 2 anos depois dele ter saído de casa. conversando comigo, achou que se abrindo teria alguma chance. disse que errou e soltou que o cara não queria nada sério com ele. só queria um cuzinho pra comer 2 vezes na semana. parecido com o que ele fazia comigo. karma is a bitch.

passei fome de novo quando jogou uma tonelada de contas na minha mão de uma hora pra outra. foi foda voltar a ter só 5% do salário pra comprar comida de novo. mas eu cresci. todo dia era uma jornada foda. todo dia pesava, mas eu não tinha tempo de ficar chorando. dobrei minha jornada de trabalho. fiquei mais 4 meses na porra do cheque especial pra poder equilibrar tudo de novo e me achar. achar novamente formas de ser ser feliz, sim, sozinho, mas feliz.

me envolvi com poucos caras e, até com uma mulher, por desespero, pensando que inovando voltaria a me apaixonar. faz tempo que  não como ou dou pra ninguém. só chupo os caras. quero ver a cara deles enquanto gozam em mim. só isso me dá prazer hoje em dia. toda vez que gozo, solto uma porra densa e amarelada… velha, sabe? de vez em quando, bem raro, fico de pau duro quando acordo. quando chupo o pau dos caras que esbarro na rua de madrugada, deito de bruços, amassando meu pau contra o colchão, que não aguenta ficar duro nem 5 minutos. me contendo em chupa-los. quando tava com o gustavo, nunca imaginei que aguentaria ficar um dia sem gozar. Mesmo sozinho naquela casa, com ele do lado ou não,  todo dia eu gozava. Era viciado em gozar. mas agora o coração tinha empedrado. frio e escroto, era como me sentia. parecido com o jeito que ele era comigo naquele último ano juntos.

saí da frei. não aguentava mais ver aquele armário que ele me fez esvaziar. que a cada peça de roupa que eu pegava me fazia chorar desesperadamente. achei que nunca superar aquela dor que apertava as entranhas. e não superei. a dor física passou, mas o ódio que sinto sempre que penso nele é implacável. fudeu minha vida. fudeu minha cabeça, fudeu meu cu, mas não fudeu com minha vontade de viver. sozinho, sim, mas viver a minha vida com minhas próprias escolhas.

 

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