Lívia e Zé – Conto

Nos últimos meses acordar era sempre a mesma coisa. O céu ainda escuro e ter a sensação de ser o único acordado numa cidade que pouco descansa. Às 4 da manhã iniciava-se um gap silencioso onde cansavam os que desbravavam a noite e ainda não tinham acordado os que ainda iniciariam a jornada diária. Levantar da cama sempre é fácil. Há meses não sinto a perna pesada ao primeiro passo fora da cama, mesmo com a lembrança e certa apreensão de sentir as panturrilhas empedradas ao primeiro toque no chão.

Vou direto ao banheiro esvaziar a bexiga e pegar a xícara de café deixada do dia anterior na pia para encher com mais café. Limpava sempre as manchas de café velho das bordas da xícara. Hoje foi diferente. O açúcar do fundo estava marrom e, quando toquei na alça, dezenas de formigas se dispersaram do seu fundo para fora. A toalha que joguei no chão depois de limpar o gozo da noite anterior também tinha uma mancha marrom que se dispersou ao toque.

Algo rompeu o padrão do meu início de dia dos últimos meses. Enquanto cagava, bebendo um café esquisitamente limpo, olhava as histórias postadas do dia anterior de uns amigos. A maioria em blocos. Faltava uma semana para o carnaval. Não sei quando que aconteceu do carnaval de rua de São Paulo atrair tanta gente. A cidade era sempre tão vazia nessa época. Parece que o dinheiro pra viagem foi um dos primeiros cortes de orçamento da galera daqui.

Por trás do glitter, vi uma beleza singular. — Não era exótica, pois isso é apelido de esquisito. Era gata, porém diferente. A diferença é que ela me chamou a atenção. Isso não acontecia há meses. Nada de diferente, na verdade, acontecia, há meses. Achei que nunca mais veria as formigas de açúcar da minha infância e lá estavam elas transportando meu gozo para fermentar alguma coisa no formigueiro. — Voltando: Respondi em privado a história da Mariana: “uau”, e ela respondeu: “Ela é linda, adiciona ela… Fiz propaganda sua”. Já não sabia mais ao certo se tinha sido a amiga da Mari ou as formigas que tinham me tirado desse estado de modo-avião, mas parecia muito estranho. Respondi que não a conhecia e que seria kinda creepy mandar mensagem pra uma pessoa que nunca vi na vida e, na boa, nem sabia o nome da cidadã.

Recebi uma mensagem no whatsapp da Mariana. Era áudio. Apertei o play: “Me adiciona”, uma voz que não era da Mariana seguido do texto: “O nome dela é Lívia, chama ela pra sair” e passou o contato pra mim.

A gente gostava das mesmas coisas, 20 minutos de assunto non-stop mostraram isso e foi bem natural marcar um encontro. Marcamos na Avenida Paulista. Andamos por lá, da Brigadeiro até a Frei Caneca, quando interrompi o assunto sobre os blocos de carnaval que elas tinham ido. Perguntei se ela queria conhecer um bar diferente?. “Quero”, respondeu sem medo.

Descemos a Frei até depois do shopping e chegamos ao bar, escondido debaixo de um prédio residencial. Peguei um vinho no balcão e pus na mesa. Um lugar pequeno, porém bem confortável. Tem três mesas encostadas na parede com três cadeiras em cada, no balcão quatro bancos e uns sofás antigos espalhados pelo salão. Eram 23h45. Além de nós dois, tinham mais três pessoas em pé bebendo e conversando. Falamos bastante sobre a vida na cidade e sobre como paramos em São Paulo. Ela era de Campinas e eu vivi grande parte da minha vida no Rio.

Terminando a garrafa de vinho, já estávamos bêbados, mas era como se minha visão perdesse as bordas, que com o tempo ficavam cada vez maiores e mais escuras. Depois de umas horas no bar, só me restava um pequeno buraco na minha visão, como se estivesse com um binóculo sem zoom. Olhava pra ela com certo medo, mas ela estava bem tranquila. Enquanto isso ouvia tocar no bar uma banda extremamente ruim. Beatles. Sabia disso pela letra, não pela melodia. Um som atravessado, guitarra desafinada. Totalmente caótico.

Minha visão ficava cada vez mais reduzida. Até que vi um cara na mesa ao lado, o único negro do bar. Foi um choque pra mim, ao mudar pra São Paulo, ver essa proporção totalmente desequilibrada de negros e brancos na parte central da cidade. Ele vestia um terno branco, um chapéu de malandro e estava com um cigarro recém aceso na boca. A iluminação do local era precária, mas ele brilhava em meio àquela penumbra do bar, como se tivesse um holofote só pra ele, o lugar mal tinha mesas e, em certo ponto, totalmente bêbado, eu pisquei – uma piscada longa, ébria, difícil de abrir os olhos e quando abri, o lugar estava tomado de gente. Mais de cem pessoas onde mal cabiam vinte. O cara de terno se levantou e veio na minha direção, era incrível como naquele lugar lotado, ele andava sem esbarrar em nada nem ninguém. Passava entre as pessoas como se fosse água num rio de pedras. Chegou à mesa, estendeu a mão e me disse: “bem vindo” me olhando no olho fixamente por alguns segundos e foi embora. Livia me olhou com um olhar de conforto e disse: “Relaxa. Aproveita que não é com todos que ele se conecta”. Como assim. Ela conhecia esse cara? Eu só podia estar delirando. Dei uma piscada mais longa pra tentar voltar à realidade e, quando abri os olhos, o som da banda tinha ficado absolutamente equilibrado, afinado e fluido. O lugar estava fervendo, todos curtindo e dançando. Lívia passou a mão na minha coxa e foi subindo até encontrar minha rola que endureceu na sua mão e disse “Filipe, vamos?”. A partir daí foi um blackout. Acordei com o sol na cara em casa. Nu, procurei em volta. Sem sinais da Lívia. No chão, uma cueca com uma mancha marrom na parte de trás. Não eram formigas.

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