O Chupa Pau de Ramos – Conto


PARTE 1

(Filipe Cavadas e Luciano Pinheiro)

— 22:03 Ramos, Rio de Janeiro. —

Com uma tremenda sede, Augusto, ou Guto, como gostava de ser chamado, acordou de um cochilo inesperado no sofá da sala, com as bochechas molhadas de suor. Ainda confuso sobre que horas eram ao certo, foi até a cozinha no escuro e percebeu que faltava energia quanto tentou acender a luz. Tropeçando em meio a sacos de lixo que sempre tinha preguiça de levar pra fora, achou suas havaianas, meteu o pé em uma, virou a outra com o dedão do pé calçado, calçou-as e saiu pra comprar água no posto de gasolina 24h do lado do seu prédio.

Seria a noite em que finalmente entenderia sua compulsão por salsicha empanada desde o ensino médio. Pegou uma garrafa gelada de 1,5 L e, em direção ao caixa, reparou a capa do jornal popular que dizia “ESPÍRITO ASSOMBRA MORADORES DE RAMOS”, deu uma risadinha pro funcionário do posto.

— o jornalismo tá decadente, hein…

— deseja algo mais? — Cortou, com cara de tédio o funcionário do AM/PM;

— Não, não, Obrigado.

Voltou pra casa. No saguão viu a luz do elevador acesa, entrou, apertou o 3. O elevador parecia lento. Augusto começou a se arrepender de ter entrado, pois tinha acabado de voltar a energia. Normalmente ele demorava uns 15 segundos por andar. Passaram 20, 30, 40 segundos, 1 minuto, 2… e o elevador não parava de subir. Achou que era o efeito dos 7 pegas que tinha dado antes de apagar no sofá. Quando completou cerca de 5 minutos daquela loucura ao estilo Fábrica de Chocolate se desesperou e gritou: “QUE PORRA É ESSA?!”. Seu prédio tinha apenas 18 andares. De repente, uma fumaça branca começou a subir pela fresta da porta, as luzes começaram a piscar e a tocar no sistema de som, que ele não tinha, bem alto o TREM DAS ONZE “QUAIS, QUAIS, QUAIS, QUAIS, QUAIS, QUAIS… QUAISCALIGUDUM, QUAISCALIGUDUM, QUAISCALIGUDUM… Não posso ficar nem mais um minuto com você…” — e a velocidade da música foi diminuindo gradativamente, cada vez mais lento e grave — “sinto muito amooor, mas nãão poodee ser…. Moooooroo eeem Jaçaanãããã, se eu perdeeer eessee TREEEM EM EM EM EM EM EM EM…” — travou como um vinil arranhado por alguns segundos, pulando direto pra parte “bam zam zam zam zam…” na velocidade normal e as luzes apagaram, tudo em silêncio, as engrenagens pararam e uma luz vermelha se acendeu, como aquelas de emergência, Augusto teve vontade de vomitar e cagar ao mesmo tempo, calado em choque, não consegui emitir um som sequer, até que uma voz firme gritou “AUGUSTO! AUGUUUSTOOOO!”.

As luzes voltaram a apagar, deu um passo pra trás e sentiu algo alcançando suas calças de moletom, tentando arriá-las. No susto se afastou rapidamente pra trás, batendo com as costas no espelho do elevador. Sentiu aquela coisa se aproximando novamente, baixou suas calças abocanhando o pau. Estava confuso. Não sabia se era mulher ou homem. Não sabia nem se era humano. Não demorou muito e gozou. Escutou o barulho de gotas pesadas de porra caindo no chão e as luzes acenderam. Não tinha ninguém no elevador além dele, com as calças na canela. Subiu a calça com pressa, mal encaixou a cueca, enfiando a metade dela no rabo e saiu acelerado pelo corredor escuro.

Entrou em casa, a porta estava encostada. Guto sempre deixava a casa destrancada quando saía pra algum lugar perto. Girou a chave duas vezes, que não era de costume e achou estranho a luz não acender quando apertou o interruptor, tentou o da sala, do corredor e nada… foi tomar banho, mas antes passou pela cozinha, pegou álcool gel e passou no pau sem pensar no ardor que sentiria pior que merthiolate dos anos 80. Tomou banho e foi até a cozinha. Arrancou o interfone do gancho, que normalmente funcionava sem energia, mas estava mudo. Foi pra cama tentar dormir. Encarou por horas o teto escuro, até que a geladeira apitou, a luz tinha voltado. Pulou da cama e ligou para o porteiro pelo interfone.

— Portaria, bom dia — já passavam das 5h da manhã

— Seu João…

— Fala, seu Augusto.

— Você por acaso viu o que aconteceu no elevador?

— Agora?

— Não… ontem a noite, umas 22h.

— Tá tudo bem seu Augusto? Ficamos sem luz desde as 20h de ontem.

— Ahn… deixa pra lá, então. Confundi as horas. Obrig…

— Seu Augusto…

— Oi!

— Por acaso o senhor foi atacado por um Anjo?

— Como é??

— Olha, a dona Vilma do 307, sua vizinha de porta, disse que foi atacada por um anjo semana passada dentro do elevador.

— Meu amigo. Você andou bebendo? Haha

— Estou sóbrio há 3 anos, seu Augusto.

— Ok… Érrr… Tô indo lá, bom dia.

— Bom dia. Seu Augusto, qualquer coisa que precisar, disca o 9, ok?

— Beleza…

“Que bicho louco”, disse pro seu reflexo na geladeira de inox e foi deitar mais um pouco.

Pela manhã, Guto pegou o celular e pesquisou “ANJO” no google. Em uma das páginas, leu que os anjos são assexuados. Fechou o navegador e apertou no botão do microfone do google na pagina inicial do celular e disse “assexuado”, a voz da moça do google respondeu: “1. que não possui órgãos sexuais – 2. Que não tem ou aparentemente não tem vida sexual”. Ficou aliviado por um minuto por aparentemente não ter sido estuprado por um anjo, mas pensou bem e percebeu que talvez tinha sido um espírito de algum tarado que tivera engolido seu membro, ou pior, uma pegadinha maligna do Silvio Santos.

Mal dormiu à noite, saiu de casa cedo por volta das 6h e ao passar por um mendigo, deu um bocejo incontrolável, daqueles de dar cãibra no maxilar.

— Ow… amizade… cê sabe o que é isso né?

Augusto ignorou.

— Ow rapaz… cê tá com problemas com algum anjo?

Augusto parou, se virou pra ele.

— O que você disse?

— Meu amigo, você sabe por que bocejamos? — perguntou, deitado no chão, dando um risinho maroto.

— Não.

— Bocejo nada mais é que um anjo enfiando a rola dele a força na tua boca.

— Mas anjo não tem sexo.

— rapaz. Pega esse seu celular ai do bolso e pesquisa QUERUBIM.

Dessa vez digitou na barra de pesquisa, clicou em IMAGENS, rolou umas três páginas até achar de fato um pênis em uma das esculturas, que nas outras imagens estava coberto sempre por algum tecido ou por pernas cruzadas.

— Achou, né? Só cuidado quando bocejar e depois engasgar. Hahahahahaha

— Calma… E esse anjo, querubim da vida, ele chupa pau dos outros a força também?

— Ahhhh meu amigo, isso não tem nada a ver com anjo. Você foi mais uma vítima do chupa pau de ramos

— CHUPA PAU DE QUE?!

— De ramos. Rapaz, você não lê jornal não? Até eu que moro na rua tô sabendo mais que você.

— E que porra de espírito é esse? Isso é notícia do Meia Hora¹, né?

— Dizem que é o espírito de um sargento que foi expulso do exército pelo crime de pederastia e que só ataca estupradores. Nunca mais arranjou emprego depois disso e virou morador de rua, depois nunca mais foi visto.

— Calma… Eu não sou estuprador.

— Se cê tá dizendo…

— E como ele ataca?

— Amizade, se eu fosse você desencanaria disso e aproveitaria esse boquete grátis e seguia a vida. Cê tem noção há quanto tempo não recebo uma bingoleta???

— Tá maluco — Respondeu Augusto seguindo a caminhada rumo ao trabalho.

¹Jornal Popular do Rio de Janeiro

PARTE 2 – O EXORCISTA DE SÃO THOMÉ

PARTE 2

Guto trabalha nos correios, mas quem disse que ele fazer alguma coisa? Mal conseguia se concentrar na sua mesa, onde cuidava da catalogação de correspondência para rastreio. Só pensava na chupada que tinha tomado e do boquete forçado que talvez tivesse feito (em um ANJO!?). “Loucura… Isso é loucura…”, pensou. De repente uma notificação de e-mail apitou no celular. O título “CONTATO” o deixou curioso. Apertou, abriu uma imagem que dizia: TAROT DOS ANJOS. “PUTA QUE PARIU!!!”, gritou, assustando os colegas. Olhou pro lado, pra cara de cada um do setor que insistia em encara-lo e disse num tom agressivo: “volta a trabalhar, cambada de filho da pulta.” (Sim, PULTA mesmo). Voltou a olhar pra tela do computador, embaixo do TAROT DOS ANJOS tinha um botão escrito CONSULTAR. Dizia nas orientações logo acima do botão “Mentalize uma pergunta e clique em CONSULTAR”. Relutou um pouco, segurou o dedo em cima do botão pra avaliar se o link era seguro. Era. “Que palhaçada… Ok… Vamos lá. Quem chupou a porra do meu pau?”, Perguntou, clicando em seguida.

Apareceu uma carta: 17 – OONIEME

17

Seguido do texto: “Gratidão em todos os teus caminhos, reconhece-o e ele endireitará tuas veredas”

“Veredas?”, se perguntou. No próprio celular pesquisou:

  1. Caminho apertado (desprovido de espaço).

“FILHO DA PULTA”, gritou mais uma vez, parando o setor mais uma vez. “VÃO PRO CARALHO”. As meninas da mesa do lado cochicharam:

— O Guto ficou maluco de vez, hein…

— É… Deve tá chapado de novo

Guto pegou sua mala e foi embora, direto pra casa em plena manhã que mal passava das 10h.

Augusto não sabia se o medo que sentia era legítimo ou se era receio de estar vivendo um amor sobrenatural, pois, de certa forma, a aspirada que recebera tinha deixado cicatrizes e, ao mesmo tempo, saudade.

No quarto, deitado, ouviu na sala começar a tocar DAZED AND CONFUZED, que era seu toque de celular. Levantou e foi ver quem era. Era Jarbas, seu melhor amigo dos tempos de ensino médio.

Desesperado contou que ele e mais cinco amigos haviam sido atacados essa semana quando voltavam da faculdade para casa, em Bonsucesso. Deu de cara com o demônio, segundo ele, na estação de ramos.

— Cara… Ele dilacerou meu púbis.

— Púbis? Que isso?

— Meu pau, cara… Parece uma banana descascada.

— Onde você tá?

— No hospital, cara… no Oswaldo Cruz. Me encaminharam pra 3 hospitais até acharem um cirurgião que pudesse costurar meu pau. Na verdade nem costuraram, pois tem risco de infecção… Só meteram um curativo.

— Chupa pau de ramos…

— Cuidado, cara, cuidado…

Augusto estava decidido a decifrar cada detalhe desse mistério. Saber se era, de fato, sobrenatural ou se obedecia as leis naturais do universo. Sentou no sofá da sala com uma cara de… Olha… eu não sou muito bom em ler emoções. Tava com uma cara de dor de barriga, meio desolado, meio com dor. Pera aí… Lucio, vem cá. Você pode narrar essa cena melhor que eu.

— Beleza. Qual o nome dele?

— Augusto, ou Guto mesmo.

— Ok… Augusto estava perplexo. Não parava de pensar no que tinha ocorrido mais cedo… CALMA… Lek, o que que rolou com ele?

— Foi atacado pelo chupa pau de ramos.

— Ahhh tá… então, continuando, Guto estava perplexo pela aspirada de pau que tinha recebido e não sabia ao certo se isso se tratava de uma entidade ou de algo humano, ou se era masculino ou feminino.

— Calma, eu já falei isso. Deixa eu retomar.

— Ok.

— valeu brother, obrigado…

“Perplexo”, era isso.

Passando pela portaria, seu João saiu da sua sala chamando:

— Seu Augusto, vem cá… Olha, eu conheço dois caras que podem exorcizar o espirito do chupa pau.

— Como você sabe que é o chupa pau?

— O Jonas me contou.

— Que Jonas?

— O rapaz que mora ali na esquina.

— O mendigo?

— Ele não é mendigo, seu Augusto. Ele mora com a mãe, naquele sobrado da esquina, mas passa o dia inteiro sentado na calçada.

— Ah… Entendi. Me fala sobre os dois caras.

— Ah é. Então… um deles mora em Taubaté outro em São Thomé das Letras. Eu recomendo o de São Thomé porque ele faz um trabalho mais natural.

— Me manda as coordenadas. Tem meu Whats?

— Não…

— Anota aí…

Foi pra casa, comprou a passagem até três corações na internet. Pra São Thomé teria que comprar na rodoviária, pois não tinha venda on-line.

PARTE 3 – ROBESPIERRE

Ignorou o trabalho e foi, em plena terça feira para São Thomé das Letras. Depois de uma viagem de 7 horas, pegando 2 ônibus de viagem, chegou já de noite na cidade que estava tomada por uma densa neblina. O celular acusava 16 graus Celsius na cidade. O Hostel que reservou estava a poucos metros da rodoviária. Não tinha pago mais do que 40 reais pela diária com café-da-manhã incluso. Já estava no lucro, seria mais barato do que ficar em casa. Chegando, foi recebido por um senhor, que era o dono do hostel:

— Prazer amigo, meu nome é Roberto. — Me recebeu com um longo abraço

— Prazer, Augusto.

— Fez boa viagem?

— Fiz sim.

— Você é do Rio? — Provavelmente meu ‘fiz’ acusou.

— Sou… De Ramos.

— Que legal! Eu morei em Madureira por muitos anos.

— Opa… Imperiano ou Portelense?

— Imperiano de fé, com certeza. Esse ano vamos subir, pode ter certeza.

— Opa… Tenho certeza.

— Fica a vontade, amigo. Você está no quarto misto, número 11.

Foi pro quarto, pôs o celular pra carregar e abriu a mensagem do seu João que dizia:

“Procure por um francês chamado Robespierre… Eu não sei se é nome ou apelido, mas é assim que todo mundo chama.”

Arrumou as coisas, tomou banho, escovou os dentes e voltou pra sala do hostel. Roberto jogava sinuca sozinho, quando viu Guto chegar:

— Quer brincar?

— Opa… claro.

Começaram a jogar mata-mata, Roberto deu um taco rachado pro Guto e ficou com o bom. Ele não gostava de perder. Usava todas as táticas pra fazer Guto errar, mesmo não valendo nada. Guto parou numa das jogadas e perguntou.

— Roberto, você conhece um francês chamado Robespierre?

— Claro… Ele mora aqui perto. Na verdade, ele sempre toma café da manhã aqui. Te apresento.

— Legal! Tô precisando falar com ele.

— Sem querer me intrometer demais, mas tem a ver com…

— Espíritos. Sim…

— É o cara certo… Deixa eu te dar uma dica. Você tem algo pra dar pra ele? Tipo um souvenir ou algo do tipo?

— Humm… Olha… Eu sempre ando com umas cartelas de selos na mochila. Eu trabalho nos correios.

— Perfeito. Bem a cara dele.

— Tenho uns das Olimpíadas. Será que ele curte.

— Com certeza. Vai se dar bem com ele.

Lá pelas 23h, depois de algumas cervejas e diversas derrotas na sinuca, Guto foi dormir.

Pela manhã, na mesa de café-da-manhã, junto ao dono do Hostel estavam três caras que tinham uns 60 e poucos anos, Roberto viu Guto e o chamou:

— Augusto! Vem cá… Quero te apresentar a galera.

— Opa, bom dia.

— Esse aqui é o Biro, ele mora aqui no hostel há 3 anos, esse é o João, artista plástico aqui da cidade e esse é o famosos francês, também conhecido por Robespierre, mas na verdade o nome dele é Carlos.

— Prazer, gente. Tudo bem?

— Tudo, senta ai, rapaz. — Disse Biro, que vestia uma jaqueta militar e continuou a história que contava antes do Guto chegar na mesa — Então… voltando… Se eu quiser, eu tenho material suficiente pra dedar o FHC e botar esse cara em cana. Fui guerrilheiro em 84, quando o presidente Figueiredo me chamou pra dar consultoria estratégica para o exército brasileiro. E uma coisa eu aprendi. Todos esses presidentes, tive contato com todos, menos o FHC, ele tinha medo de mim, então… Todos esses presidentes tinham uma coisa em comum. Sempre utilizaram as estatais pra dominar o povo, mas sem desviar um centavo delas, menos o FHC. Esse aí roubou muito a Petrobrás.

Todos ouviam a história sem interagir muito, até que o Biro foi pegar mais café. João aproveitou a deixa e foi ao banheiro, deixando Guto e o francês na mesa.

— Francês.

— Fala rapaz.

— Eu vim pra cá por sua causa.

— Sério?

— Sério. O porteiro do meu prédio falou pra te procurar. Seu João.

— Não me lembro de nenhum João… Na verdade, não me lembro de muita coisa. Hahaha.

 — Hahaha… Olha… Eu tive um problema. Seu João disse que era coisa sobrenatural e que devia te procurar.

— Rapaz… Me encontra as 16h na pirâmide.

— Pirâmide?

— É… É só perguntar por aí… Todo mundo sabe onde é.

— Ok.

Biro voltou pra mesa e continuou:

— Aí, em 1998, o FHC usou a ABIN pra me monitorar e foi assim que vim parar em São Thomé, pra fugir da inteligência.

Augusto ficou mais um tempo na mesa, sem prestar muito atenção nas histórias e foi pro quarto tirar um cochilo, ficou no celular um pouco antes de dormir. Trocava mensagens com uma menina que tinha acabado de conhecer. Sentia uma conexão forte com ela apesar disso. Era como se conhecessem de outras vidas. Todos os assuntos fluiam, falavam sobre tudo. Augusto tinha acabado de fazer 35 anos e essa conversa, por mais interessante que fosse, o deixava extremamente desconfortável quando lembrava que ela tinha apenas 17 anos. Fritava seus neurônios não conseguir se deixar levar pela vontade de conversar com ela. Desligou o celular. Lá pelas 14h acordou com um cheiro de erva invadindo o quarto e subiu novamente pra sala. A galera tava queimando uma sardinha nervosa numa salinha fechada. Ele bateu numa porta de vidro e a galera gritou: “Entra aí irmão!”. Ficou uns 30 minutos relaxando e fumando enquanto um cara com uns dreads que iam quase até o chão tocava SMALL AXE no violão e a galera acompanhava no vocal: “If you are the big tree / We are the small axe”. Já eram 15h30. Quando o cara do dread acabou a música Guto perguntou:

— Galera. Onde é a pirâmide?

— Cara… A casa da pirâmide é ali — Apontando pro alto do morro — É só virar a esquerda saindo daqui e subir aquele morro.

— Beleza, vou lá.

— Vai na paz, irmão.

Encontrou fácil, chegou no pico e viu o francês sentado numa pedra. Quando o francês o viu, fez um sinal chamando Guto, que foi até lá e sentou ao seu lado.

— Olha… Sabe o que é isso? — Mostrou um pó cinza, dentro de um pote de tempero com formato de pipeta.

— Não… Parecem cinzas.

— Esse é o rapé que eu faço.

— Rapé?

— É… O rapé mais conhecido é feito de tabaco moído. Mas o meu eu ponho algumas ervas e casca de algumas árvores queimadas. Isso aqui vai expulsar todas as energias negativas do seu corpo.

— E como eu tomo isso.

— Oh… põe um pouco aqui, no dorso da mão e faz isso — Levantou um dedão como um símbolo de OK — Tá vendo que do lado do tendão cria uma piscininha? Então. Põe o rapé aqui e cheira.

— Cheira?

— É… Vai.

Augusto posicionou a mão e o francês botou uma porção generosa do pó cinza. Guto ficou meio desconfiado, mas cheirou tudo de uma vez, como um aspirador DYSON. Foi como se tomasse um murro na testa. Ardia das narinas até o pulmão. Foi quando começou a espirrar descontroladamente, na face o catarro e coriza se misturavam com as lágrimas incontroláveis que saíam feito cachoeira dos seus olhos. Guto começou a se sentir mal, enjoado e com a visão turva, vomitou um jato d’água, totalmente límpida. Olhou para o francês, que o confortou:

— Relaxa… Isso é normal. Tá saindo, tá saindo…

Voltou a vomitar. Dessa vez um vomito fosco, como uma água suja. A cada espirro que dava, um vômito com a cor mais escura saía da sua boca, até que vomitou um liquido verde. Perguntou ainda muito enjoado:

— É normal isso?

— O que?

— Esse vômito verde?

O francês riu… Augusto percebeu que tudo estava verde… O céu, as pedras, o vômito, tudo verde, menos o francês, que disse:

— Quando ficar roxo, você me avisa.

Guto vomitou mais uma vez… e de novo… e de novo… e desmaiou.

Acordou com um barulho de água corrente, já de noite ao lado do francês.

— Onde eu tô?

— Na cachoeira da Lua. Aqui que vamos terminar o ritual de limpeza.

Tirou um saquinho do bolso com umas lascas marrom escuro dentro.

— O que é?

— Cogumelo desidratado. Come…

— Ok.

Guto comeu e a luz da lua cheia que iluminava a cachoeira começou a escurecer mais e mais, até que ficou tudo escuro e quieto. Não ouvia mais o barulho da água corrente nem da própria respiração ou da própria voz quando tentou chamar o francês. Ficou mergulhado nessa escuridão pelo que pareciam horas, mas não tinha mais certeza do tempo. Parecia que não havia mais tempo, até que viu um ponto de luz distante. Ele começou a andar na direção da luz, mas na verdade não parecia andar. Flutuava até a luz, que ia tomando forma de corpo deitado boiando num lago. Chegando perto começou a desconfiar que aquele corpo nu parecesse o seu. E de fato era. “Será que eu saí do meu corpo?”, pensou. “Eu morri… francês filho da puta”.

Quando chegou mais perto, viu um homem de cabelo curto, com um corte militar do seu lado, também nu abrindo a boca do seu corpo desalmado e penetrando seu pênis ereto em sua boca. Guto se desesperou, se sentindo enojado daquela cena e não conseguia fazer nada. Foi quando no susto acordou, saindo da água, quase se afogando.

— CALMA, CALMA! — Gritou o francês.

— Filho da puta! Me abusou.

— Você viu ele?

— Vi… Deixa eu voltar lá… Eu vou matar esse desgraçado.

— Calma… Naquela frequência você não vai conseguir afetá-lo. Precisamos agir dessa dimensão.

— Filho da pulta… Como eu faço? Preciso matar esse desgraçado.

— Amanhã de noite. Você gastou todas sua energia hoje.

Foram pra cidade. Augusto não conseguia tirar aquela cena da cabeça. A cena daquele homem empurrando a rola contra sua garganta se repetia a cada quilômetro de caminhada e não parou. O filme se repetia enquanto tentava dormir, deitado olhando para o teto ficava com raiva, chorava lembrando-se daquele momento de impotência. Pegou o celular. 4:45 da manhã. Levantou-se e foi andar pelo centro da cidade. No escuro, resolveu subir até a casa da pirâmide. Tinha uma galera fumando em volta da casa, esperando o sol nascer. Augusto deu a volta na casa até uma pedra onde podia ver o outro lado da cidade. Tinha uns 30 metros de altura até uma rua de barro que era iluminada por um carro que passava. Olhou pra baixo e vomitou. Não se aguentando em pé, agachou, com os braços e pernas moles, começou a chorar. Chorava tanto que ficava enjoado e vomitava mais e mais, até não ter mais nada dentro do estomago. Cuspia, tentado tirar tudo de dentro dele, tudo que tinha entrado em sua boca sem sua permissão. Augusto começou a lembrar das festas que frequentava quando mais jovem. A bebida, a droga, os excessos. Lembrou-se dos dias de loucura da juventude em que dava drogas pra facilitar o sexo com as meninas da faculdade. O álcool, os doces que usava para levar as meninas pro seu quarto na república… Foi quando sentiu algo diferente no corpo… Uma calmaria. Olhou pra rua de novo. Um carro parado iluminava a via de barro e um homem estava parado em frente ao carro chamou seu nome: “Augusto”.

Guto se levantou… Olhou o homem que estava longe, mas ele conseguia de alguma forma escutar o que ele sussurrava:

— Augusto… Augusto… Vem.

Augusto olhou fixamente para o homem de corte militar, levantou os braços e pulou.

O francês acordou com um estalo forte dentro da sua cabeça e disse pra si:

—A penitência começou.

A morte não é o sono eterno. Mandai antes gravar: a morte é o início da imortalidade!” (Maximilien de Robespierre)

 

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